quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Contar ou não contar?

Tia, conta uma história?
O pedido não é nenhuma novidade.
Gabi tem quatro anos. Não sabe juntar as letras ainda, mas é leitora ávida. Sempre que entra no meu quarto, vem com o pedido mais fácil pra essa tia aqui, apaixonada por livros.
No último fim de semana, quando respondi “escolhe um livro” e apontei pra estante, ela andou até a mesa, ignorando minha direção, e pegou um que estava separado por causa de meu curso de literatura infanto-juvenil.
Sentei na cama para começar a leitura e Gabi logo se aboletou do meu lado.
Que tal você ir me contando? Sugeri, já que era um livro de ilustrações.

Capa: Minha vó sem meu vô
Minha vó sem meu vô, de Mariângela Haddad (ed. Miguilim), havia gerado uma discussão inflamada entre alguns de meus colegas de curso por conta do tema delicado: o Alzheimer e a morte.
Ler ou não ler pra uma criança? Será que elas são capazes de enfrentar tais assuntos, ainda que tratados de forma lúdica? É realmente necessário abordar esses temas entre elas?
Sem pretensão de encontrar respostas, abri o livro.
A cada página que se seguia, sua imaginação ia descrevendo as imagens e contando a história que seus olhos pueris, tão longe de referências adultas, iam descobrindo.
Olha, a Vó tá cinza. Comentou observadora e sensível. E por que, Gabi? Porque o Vô foi morar em outro país.
Sorri, discretamente.
Jogadas em uma roda, tais perguntas teriam diversas respostas, com os mais diferentes argumentos.
Sorri, discretamente.
Livros também preparam. Uma aluna disse no meu curso, quando alguém disse comentou que não leria o livro para seus filhos.
Por isso, quando Gabi interpretou que o vô tinha ido pra outro país, sorri. Acaso não é a morte um país desconhecido que todos vamos visitar um dia?
Orgulhosa de minha pequena, meu sorriso se alargou ainda mais quando, pegando o livro de minhas mãos, disse toda faceira vamos ler de novo, tia!

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Minha vó sem meu vô foi um dos vencedores do prêmio Jabuti de 2017.


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