quarta-feira, 3 de maio de 2017

As águas que não sei


Era 2013, eu tinha 28 anos. Jovem, mas nem tanto. Os trinta batiam à porta ao mesmo tempo em que um possível amor saía por outra e minha mãe curava um câncer.
Foi nesse ano que ela veio parar nas minhas mãos pela primeira vez.
Encorajada pela dedicatória, de todas as pessoas que poderia te apresentar, esta, definitivamente, é a melhor, mergulhei em Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres pra descobrir que não sabia nadar.
Dentro de mim, um mar revolto sorvia sedento cada palavra de Clarice, num encontro de águas que só se conhece vivendo.
Eu era uma criança em 2013. Cheia de certezas e ideias sobre mim mesma. Se a vida não é fácil, por que a Literatura deveria ser?, continuava a dedicatória da querida amiga. Portanto, vai com cuidado, mas vai fundo.
 Não foi fácil perceber quão fundo havia em mim, lendo Clarice. Minha jangada, tão segura, singrava agora com medo de naufragar.
Crescer, de repente, doía.
Naquele ano, eu li mais de 20 livros em seis meses e criei o blog Procura-se Poesia. Escrever, de súbito, se tornara a única maneira de escoar tanto mar, de expressar o que só se entende escrevendo.
A Literatura, assim, me resgatava numa fuga que, ao invés de procurar o céu, buscava o ar dentro d’água.
 Foi mais ou menos nessa época que comecei a juntar números de terapeutas. Três contatos foram salvos na agenda do celular. Mas o passo seguinte nunca era dado. E se eu descobrir que não sou nada disso? E se eu descobrir algo terrível sobre mim? E se a culpa de tudo for minha?
Não, eu não estava preparada.
Então 2016 chegou. Com ele, uma série de crises de ansiedade. O mar voltava a enfurecer-se, só que dessa vez a jangada parecia incapaz de permanecer na superfície. As palavras não vinham e eu me afogava.
Você precisa de ajuda. Só quem já ouviu essa frase sabe como dói. Mesmo quando ela vem de alguém que a gente ama. Ou, principalmente, por isso.
São quase seis meses agora. Seis meses entrando no pequeno consultório toda quarta-feira e me deparando comigo mesma.
Você ainda é um grande não sei, disse a analista num dos nossos primeiros encontros (em que eu a enchi de perguntas), e é isso que torna tão bonita nossa busca.
Nossa busca.
Eu não precisava mergulhar sozinha, então.
As crises não se repetem há um tempo.
As palavras voltaram. Difíceis, ainda. Dolorosas, muitas vezes.  Mas voltaram.
Assim, vou desbravando as águas que não sei. Aprendendo a equilibrar minha jangada. Descobrindo pontos de luz na escuridão e escuridão nos pontos iluminados.

Descobrindo, enfim. 

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