sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Isaura


Estamos juntas. Naquele tronco retorcido de frente pro mar.
Somos uma.
Na praia do vilarejo dela, no deserto dentro de mim.
As duas tristezas, a minha e a dela, derramadas no oceano, submersas dentro de nós.
As lágrimas embaçam meus olhos noturnos.
Os dela também.
Na luta infinita de aceitar-se e de aceitar o que se tem, somos iguais. Na melancolia e dificuldade de aceitar o que não se tem, somos.
Mar e deserto.
Exaustas de querer-não-querer.

Somos sós pensamos.
Como a onda que quebra, o vento que bate, o céu implacável.
Somos sozinhas repetimos uníssonas em voz alta.
Encontradas na beleza de nos aceitarmos tristes, planando no abismo infindo que nos habita, experimentamos um pouco de felicidade. Nessa solidão compartilhada, vertemos o sal de nossos olhos, sentindo alguma coisa de alegre na tristeza, deixando mar e deserto, enfim, serem.
Fitamo-nos mudas, por, depois de tanta mágoa, lá e cá, ainda pensarmos no amor.
E o que é o amor?  
Um eterno por vir.
Agora entendo.
Sento ao lado de Isaura naquele tronco retorcido.
E espero.

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