domingo, 5 de março de 2017

Cumuruxatiba

O sul da Bahia é uma sensação. Um estado de espírito. Fecho os olhos e consigo sentir a areia macia sob meus pés, o gosto da água morna e salgada em minha pele, no meu cabelo, nos meus lábios.

As pessoas no Rio estão nos blocos agora, penso. Num tipo de alegria passageira, regada à cerveja e serpentina. Pra elas, o Carnaval é esquecer.

Estou numa praia deserta, em Cumuruxatiba, uma vila de pescadores. Foram 10 horas de estrada pra chegar até aqui. O cansaço da noite anterior se foi. É tanto azul que meus olhos não alcançam. Onde termina o mar, onde começa o céu?

Onde começo e termino eu?

Pra mim, o Carnaval é viajar. Viajar pra fora do Rio e pra dentro de mim. Não escuto marchinhas. Escuto o vento e minha respiração. Não mergulho na ilusão de esquecer a vida real. Mergulho nas ondas do mar pra justamente encontrar o real da vida.

Não sinto saudades. Amo o Rio, mas não sinto saudades. Nem dos meus amigos e familiares. Naquele momento sou mar, céu, sal e Bahia.

A noite chega, e as pessoas estão pulando os blocos no Rio. Eu estou olhando o céu mais estrelado que já vi. Ao meu redor escuridão. O único som é o das ondas quebrando na areia. Vaivém. Vaivém. Batidas de um coração fora de mim que é meu também.

O vento balança meus cabelos, cacheados e bagunçados. Me sinto bonita, sem maquiagem, fantasia ou padrões.

Tenho vontade de chorar. Sob as estrelas, com os pés descalços e a alma livre, choro, então. E agradeço. Não sei a quem e nem o que, mas agradeço. Penso no estado de graça que Clarice descreve em um de seus livros, e percebo que o encontrei. A leveza de ser, de existir, de saber-se.

A quarta-feira de cinzas chega rápido demais. Em Cumuruxatiba, ela é azul.

Eu também. 


(Foto: Juliana Borel)