quinta-feira, 20 de outubro de 2016

As palavras

Era assim toda tarde. Quando um facho de sol amarelo invadia a sala, formando uma diagonal que passava pela mesa de jantar, pelo sofá de três lugares e banhava seu corpo, sentado na poltrona.
De cabeça baixa, suas mãos seguiam a cadencia das agulhas. Bordava.

Ele não estava lá. Como de costume. Mesmo quando não tinha trabalho. A vida na rua era interessante demais. Os amigos, as bebidas e, ela sabia, as mulheres também.

Nos escassos momentos em que estavam juntos, não havia afeto. As palavras secas que trocavam drenavam cada dia mais e mais o carinho que um dia havia existido. Estou saindo. De novo? Não começa.

Ela, então, sentava-se à poltrona, esperava o sol derramar seu calor e bordava.

No início, tinha dificuldade para trançar os pontos. Os olhos marejados a impediam de enxergar. As perguntas também. Por quê? O que eu fiz? Onde será que ele foi?

Na entrecortar das agulhas, não percebeu os anos passarem. Estava velha, no auge de seus trinta e alguns anos. Sentia que já tinha vivido o peso de toda uma vida. Olhava para casa. Tapetes, toalhas, colchas, centros de mesa, passadeiras. Uma infinidade de solidão bordada.

Não tinha forças para lutar, nem fugir. O tempo de ir embora havia passado, ela pensava.

Numa tarde chuvosa, como de costume, bordava de cabeça baixa quando notou uma súbita mudança de temperatura. O vento frio deu lugar a uma brisa suave e quente. O facho de sol, que tanto amava, veio descendo lentamente, formando a habitual linha em diagonal. Junto com ele, alguém. Demorou para entender quem era a jovem de cabelos compridos e negros que dançava sob a luz dourada do sol. Até que seus olhos se cruzaram e ela soube.

Leve, com seu vestido de seda, o corpo quase transparente. Seu riso (tinha esquecido como era) inundava a sala. E ela, com as agulhas nãos mãos, sentia vontade de chorar.

Não havia mais perguntas, agora. Ele saía, ela bordava, a outra dançava. Assim era.

Naquela tarde, no entanto, ela sabia que seria diferente.

Depois que ele bateu a porta, pegou um pano de prato branco que tinha comprado especialmente para aquele trabalho. As palavras que queria dizer. Com linha vermelha.

O facho de luz inundou a sala, deixando de ser uma única diagonal. Logo a jovem apareceu pairando no centro da sala, flutuando.

Inesperadamente sorriu, ainda bordando o pano de prato. Quando terminou, dobrou-o cuidadosamente e o deixou sobre a poltrona.

Com pés descalços, subiu na mesa de centro, alcançando a barra do vestido de seu eu jovem, bailando no ar.

Abraçaram-se numa valsa, a princípio, descompassada, como se estivessem aprendendo a dançar juntas novamente. Aos poucos, os passos foram se entrelaçando, amarrando-se. Bordavam-se uma na outra.

Seus pés deixaram a mesa de centro.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Amor líquido

Nosso tempo durou um frasco.

Foi um presente de uma chefe que tive, em algum aniversário meu. Ela era maldosa e sabia que eu era virgem naquela época. Dizem que é afrodisíaco, revelou sorrindo, quando me deu a caixinha.

Devo ter usado o presente uma ou duas vezes logo depois do meu aniversário. Talvez para testar seu poder, mas a falta de resultados e o aroma de outros perfumes acabaram me fazendo deixar o frasco esquecido no fundo do armário. Anos se passaram.

Quando marcamos nosso primeiro encontro, numa quinta-feira, quis levar algum perfume para borrifar antes de te encontrar. Aquele pequeno frasco de vidro, esquecido no fundo do armário, era o único que não pesaria na bolsa.

Antes de sair do trabalho, borrifei uma vez atrás de cada orelha e nos pulsos. Passei demais, pensei me condenando.

E aí, no meio da noite, com o rosto afundado no meu pescoço, sua barba roçando minha pele, você disse com a voz rouca, gostei do seu cheiro.

Depois daquela noite, usava o perfume toda vez que íamos nos ver. Era um vidro pequeno, então, não usava em outras ocasiões. Sempre que você me dizia, entre beijos e carinhos, eu adoro seu perfume, eu respondia, eu só uso com você.

Se os perfumes tivessem vida, eu diria que a desse estava só esperando a gente acontecer para começar a respirar (ou pra revelar seu poder afrodisíaco).

Foi quando os problemas começaram que notei que ele estava quase no fim.

Uma mensagem não respondida, um fim de semana sem notícias, a primeira discussão, um pedido de desculpas, e o frasco cada vez mais vazio.

Até aquele dia, aquele último dia (que eu não sabia que seria o último), em que tive que virar e sacudir o frasco para conseguir algumas derradeiras gotas.

Passamos a tarde juntos. Eu estava feliz, acho (já não me lembro como ficava perto de você quando começamos a nos afastar). Mas me lembro de achar que, bem, talvez tudo voltasse a ser como antes.

Até que nos despedimos, naquela esquina perto de casa, e nunca mais nos vimos.

Já faz tanto tempo, às vezes parece tempo nenhum.

O frasco voltou para o fundo do armário. Vazio mesmo. Ainda não consegui jogá-lo fora.

Já é hora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Sereno

Sob o sol, a pele fina nascida outro dia, cheia de brilhantes.  Iluminada, olhava pra si mesma. Até os pontos de luz escorrerem, desenhando um mapa de caminhos molhados.
- Mais – pedia em êxtase.
A mãe voltava a ligar a mangueira, o ar umedecia de risadas. Rodopiava de boca aberta, saboreando respingos de estrelas. Às vezes, parava, só pra ficar um tempo líquida, sentindo a correnteza acender seu corpo.
Era quando a mãe desligava a chuva, e ela aproveitava pra admirar a constelação que havia se formado em seus braços e barriga.
Era toda galáxia.
Do lado da torneira que dava vida à brincadeira, a mãe, sorrindo, serenava sua pequena flor, salpicada de orvalho.