quarta-feira, 25 de maio de 2016

Não quero

Quando o bebê foi posto em seus braços pela primeira vez, sentiu o coração ser inundado por um sentimento desconhecido. Suas veias congelaram.

Sua gestação havia durado um ano, três meses e quatro dias. O tempo de espera na fila de adoção.


O menino com nome de arcanjo vinha para ser seu filho. Incomodada com a alegria de seu marido, que chorava de felicidade ajoelhado em frente aos dois, estalou um beijo na bochecha da criança para ver se sentia alguma coisa.


Nada.

Fazia cinco anos e, por mais que tentasse, não encontrava seu instinto materno. Quando menina achava que seria a melhor mãe do mundo, tamanho o amor que sentia pelo filho antes mesmo de sabê-lo.

Agora, olhando para Miguel brincando no chão da sala de estar não conseguia amá-lo. Pouco depois de sua chegada, passado o alvoroço e toda a mudança na rotina, logo percebeu que existia algo errado entre eles. Uma barreira invisível que impedia mãe e filho de se adotarem. Miguel chorava o tempo todo. É assim mesmo, diziam. Logo fica mais fácil.
Não ficou.

Miguel não comia o que ela fazia. Não interagia se, por algum esforço, ela tentava brincar com ele. Rejeitava seu colo. Esforçava-se para fazê-lo engatinhar, ele permanecia olhando indiferente. Ensinou a usar o penico, insistia em fazer no chão da casa. Tentou ensiná-lo a falar mamãe, ele batia nela.

Cinco anos, e não encontrava a maravilha de ser mãe. Às vezes tinha certeza de que ele a provocava de propósito. Até hoje não achava que tinha sido travessura infantil fazer xixi sobre sua dissertação de mestrado. Tinha deixado as cópias sobre a mesa da sala. O que é isso? Perguntou esticando as mãos sobre a mesa. O trabalho da escola da mamãe. Não pode mexer, viu? É muito importante. Estava na cozinha quando ouviu o barulho. Correu para a sala e encontrou as três cópias do trabalho jogadas no chão enquanto Miguel mirava e fazia xixi sobre elas.

Quando o ódio desanuviou seus olhos, o bumbum do garoto ardia vermelho sob seus tapas. Sua mão coçava e seu coração dava solavancos violentos quando cansou de bater. Miguel parou de chorar. Em pé, a sua frente, acariciando o traseiro, ela teve a certeza de ver um brilho de satisfação em seus olhos e um pequeno sorriso em seus lábios. Ele tinha três anos.

Agora, com cinco completos, já tinha desistido de nutrir qualquer sentimento por ele. A guerra travada internamente a sufocava até que, enfim, se rendeu: não era obrigada a amá-lo.
Um fio de alívio nascia em seu coração. Perdera as contas de quantas discussões havia tido com seu marido por causa daquele estorvo com nome de anjo. Por isso, os papéis de divórcio já estavam assinados. Os que transferiam a guarda de Miguel também.



segunda-feira, 23 de maio de 2016

Desnudos

Seus olhos
desnudos
desnudam
me

meus olhos
entregues
derramam
se

Seu corpo
ávido
rapta
me

Meu corpo
absorto
deixa
se

Na cama
seu peito
ergue
se

Respiro
sem ar:
leve
me.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016