quarta-feira, 27 de abril de 2016

Limite

Sentara-se à mesa que mais gostava. Ficava escondida, no canto do restaurante, mas conseguia enxergar a rua pelo vidro lateral. Era uma das poucas mesas redondas e, pequena, perfeita para duas pessoas.

Naquele dia, no entanto, não esperava por ninguém. Uma gota de suor espetava sua nuca e sua franja, encharcada, grudava na testa. O dia cinza emanava um falso frescor. Para ela queimava feito janeiro.

Pediu um sanduíche e um suco gelado. Observava as pessoas caminhando apressadas, com os guarda-chuvas nas mãos, antevendo o temporal. Respirou fundo, jogou a franja molhada para trás. A voz estridente de sua chefe escoava por seus poros. Atrasada mais uma vez, ouviu antes mesmo de bater o ponto. O despertador não tocou. O trânsito estava péssimo. O elevador demorou. Blá blá blá, ironizou. Vou passar as planilhas da Verônica para você e as quero ainda hoje. O castigo a fizera sair para o almoço às quatro da tarde.

Bufou alguma coisa impaciente com a demora de seu pedido; ou com o suor que escorria por sua têmpora; ou com a injustiça do mundo. Reparou um senhor sentar-se à mesa ao lado, pedir um café expresso e um croissant. Sua camiseta molhada, com dois grandes círculos embaixo das axilas, a irritou ainda mais.

Não agradeceu quando o garçom chegou. Voltou a olhar para fora. Logo que se formara, orgulhara-se de fazer parte da População Economicamente Ativa. Ao longo dos anos, porém, fora colecionando perguntas. Tinha feito suas próprias escolhas ou apenas seguia o fluxo? A ambição que todos esperam de uma profissional era mesmo sua? Acordara uma manhã certa de que não corria sangue em suas veias, mas algum tipo de fluido mecânico que a deixava automaticamente viva. Viva? Uma vez, cortara o dedo com uma folha de papel e jurava que, pelo ferimento, vazara óleo de dobradiça.

Seu devaneio foi interrompido por um barulho ritmado, fino, baixo. A sonoplastia vinha da mesa ao lado. Do senhor com rodelas de suor na barriga e nos braços. Mastigava o salgado com violência, deixando pedaços e farelos escorrerem pelos cantos da boca, sujando-se vez ou outra com o recheio molenga de queijo.

Fechou os olhos com nojo, tentando controlar-se. Odiava pessoas que comiam de boca aberta. Voltou a olhar para o lado de fora para retomar sua irritação inicial, mas foi impossível. O som da saliva molhando o alimento, dos dentes triturando o croissant e da língua em movimento faziam suas artérias vibrarem.

Abrindo e fechando a mão numa tentativa de desviar sua ira, a jovem olhou para o senhor. Pode comer direito? Pediu num tom que julgou educado. O senhor pareceu não ouvir. Ei, você. Pode comer sem fazer barulho? Ele olhou para seu croissant já destruído pela metade. Desculpe, menina, mas eu como assim,explicou-se.  Já está acabando, e deu um gole daqueles bem sonoros no café. A jovem riu cinicamente. O senhor é um porco, sabia disso? Não se conteve. Perdão? Assustou-se o criminoso.

Em pé, à sua frente, ela podia ver, o homem tinha olhos pequenos, apertados, e bochechas rosadas que lhe davam um ar bobalhão. O senhor deveria saber comer em público, disse. E, antes que pudesse pensar, esfregou o resto do croissant na cara do sujeito.

Seu coração pulava. Suas pupilas, dilatadas. Sentia um prazer verdadeiramente diabólico ao esmagar partes do rosto do homem sob o salgado esmigalhado.

Atendendo aos gritos do cliente, um garçom logo se prestou a agarrá-la, mas o tempo não foi suficiente. A jovem ainda jogou o café do homem em sua camisa. Para combinar com suas rodelas nojentas de suor, gritou.

Atirada para fora, com as veias saltando pelos olhos, gargalhou. Enquanto debatia-se nos braços do atendente, um arranhão cortara seu braço. Um filete de sangue reluzente e viscoso escorria. Estava viva!

Agora era a vez de ter com a sua tão querida, tão amada chefe.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Começo


      Na escola, eu era a menina de óculos sentada no fundo da sala, torcendo pra continuar invisível. De rabo-de-cavalo, rabiscava versos nas folhas de caderno. Sonhava alto entrelinhas e só mesmo o gracejo de alguma criança maliciosa me roubava de mim.
Tudo me prendia a atenção, motivo pelo qual não prestava atenção em nada. A mancha na parede ao lado ganhava status de personagem, a madeira raspada da carteira lembrava história de guerra, a aranha de pernas longas que passeava pelo chão contava por que abandonara seu marido.
Somente quando as risadas eram altas demais, o mundo real me acordava. A professora enraivecida perguntava onde estava minha cabeça. E eu só queria ir pra junto dela, longe dali.
Ir à escola não era meu momento preferido do dia, minhas notas falavam por mim. Só tira nota boa em redação, minha mãe brigava. Redação não dá futuro, repetia.
Aquele dia, o sol era uma bola branca no meio do azul. Ele entrou e sentou duas cadeiras adiante. Seu cabelo era preto como o lápis de cor preta no meu estojo.  Era tão macio e espesso que dava vontade de meter a mão e sentir o que os fios queriam dizer. Pensei no meu, todo cacheado e espetado.
Fábio, a professora disse. Seu novo coleguinha de classe.
Fábio tinha ombros largos e usava uma bolsa atravessada, diferente das mochilas normais. A pele era morena, de quem pega praia todo dia. Mas o que eu gostei mesmo foi da cor de sua boca. O rosa puxando pro vermelho era fascinante. Tão fascinante que não ouvi quando a professora me chamou para fazer a prova de soletrar.
As risadas, mais uma vez, me trouxeram de volta. Levantei e deixei meu estojo cair no chão. Anda logo, menina. Não temos o dia todo. Quando finalmente arrumei tudo, a professora disse Soletre Gorgonzola.
Não conhecia a palavra, mas senti um gosto forte e amargo nos lábios. Passei a língua, sentindo o sabor das letras na boca, loucas pra saltarem do precipício.
. Comecei, encarando minha mesa. Ó. Erre. Gê. Ó. Ene. Parei. S ou Z? Olhei pra professora em busca de socorro. Nada. Em volta, me olhavam como se eu estivesse pronta pro abate.
Ousei olhar pra ele. Fábio rabiscava alguma coisa nas costas de sua mão.
S ou Z? S ou Z? Meu rosto queimava feito brasa. Brasa é com Esse, pensei.
Então, num segundo menor que o tempo, Fábio olhou para trás e coçou o nariz. Zê, continuei, agarrada à certeza da cola. Ó. Ele. A. Terminei de uma só vez.
Acertou, disse a professora num tom que lembrava o mesmo sabor que senti nos lábios. Bruna, sua vez. Soletre Humanidade.
Voltei a sentar com o coração aos saltos. Fábio olhou pra trás sorrindo. Ansiosa, sem saber como reagir a uma interação tão íntima, sorri de volta, olhando rapidamente pra baixo.
Pela primeira vez, a vida real parecia interessante.




quinta-feira, 7 de abril de 2016

À deriva

Eu achei que você tinha gostado; que a gente tava indo bem. Quer dizer, aquela tarde foi tão legal, depois daquele passeio de mãos dadas.

Será que dei algum indício de que estava me apaixonando? Será que te assustei de alguma forma? Não foi minha intenção. Não sei se estou me apaixonando.

Não queria sentir essa saudade.

Já tive decepções antes, mas não assim. Nunca ninguém me deixou tão à deriva, no meio do caminho.  Olho pros lados, não enxergo o caminho.

Perdi as contas de quantas vezes olhei o celular esperando sua mensagem. É tão idiota.  Não vai chegar.

Difícil levar os dias assim.

Mas a noite sempre chega.