quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Carta aberta ao ano que se vai

2016,

Vc não foi exatamente o que eu esperava. Talvez esse tenha sido meu maior deslize do ano: esperar.  A gente vive num mundo em que criar expectativas não é exatamente algo que pessoas maduras façam (é o que dizem por aí).

Sabe, 2016, não acho que eu tenha sido ingênua. Criar expectativas me rendeu muitas alegrias esse ano. Me impulsionou, deu coragem, coração acelerado, viagens inesquecíveis e poesias que, provavelmente, ninguém vai ler. rs

Sim, vc me fez chorar também e até levou um quilinhos embora (obrigada por isso). Mas não se preocupe, não estou magoada. As dores que vc me trouxe me fizeram encontrar caminhos lindos (difíceis, é verdade) de autoconhecimento; me trouxeram ainda mais espiritualidade (como é importante!) e continuam me ajudando a olhar pra dentro, sem perder a vista daqui de fora.

Acho que vc tem me tornado uma pessoa melhor, 2016. Talvez eu não saiba muito bem em quais aspectos, mas a gente sente qd algo novo brota aqui dentro.

Não sei te dizer se estou mais forte, ainda me acho sensível demais. Sei que, mesmo com passos às vezes vacilantes, tenho ido em frente.

Sei também que vc anda cansado, 2016. Teve mta injustiça por aí. Guerra, massacre, violência, politicagem e eleições com resultados escabrosos. Eu sei, não foi fácil...

Mas teve Jon Snow ressuscitando ( 😄 ) , Rapha Silva ganhando ouro, o Djavan me dando a mão e show do Guns com Slash e Duff. Teve Nobres, São Paulo, Paraty e Manaus. E os prêmios de Literatura que eu tive a sorte de ser contemplada. Isso, 2016, foi mt legal da sua parte. <3

Não me leve a mal, viu?, mas já é hora de baixar a cortina, ano querido. Vivemos o que tínhamos pra viver e te agradeço por tudo. Vc me veio meio torto, meio cheio de lições e, pode ter certeza, uma parte minha será pra sempre sua. 

2017, muito prazer, meu nome é Juliana. A gente estava mesmo te esperando! Seja muito bem-vindo.





domingo, 6 de novembro de 2016

Tsurus

O azul do céu e o azul do mar. É isso que aparece quando penso em você.

Gosto de fechar os olhos e voltar pra pedra do arpoador. A gente olhando toda a imensidão, esperando um pôr do sol que não viria, já que o céu tinha preferido ficar cinza naquela tarde. As matizes azuis envolvendo a praia, o morro dois irmãos, meu espírito.  O cheiro de sal, que eu tanto amo, e a brisa gelada batendo na gente, contrastando com meu coração, tão aquecido.

Gosto de voltar a ouvir as ondas batendo na pedra, quando lembro de você. De observar os pescadores lá embaixo, jogando redes e anzóis, enquanto sinto seus olhos sobre mim, sorrindo.

Tivemos tão pouco tempo, todo tempo do mundo.

Tempo de deixar a praia vermelha mergulhar na gente e o céu escuro embriagar meus olhos. Olhos de maresia, castanhos, seduzindo você a banhar os pés.

Tempo de visitar a Lapa e nos perdermos em carinhos no meio da avenida, entre carros, buzinas e pessoas dançando. De acordar com o coração aos pulos, com a promessa da tarde que viria.

Nós dois. Pelas ruelas do Rio (o encontro dos rios), de mãos dadas. O sorriso e a vontade crescendo. O medo indo embora.

Todo tempo do mundo.

Para ser minha sendo sua. Deixar você descer o zíper do meu vestido, enquanto minha respiração acelera no teu ouvido e no teu corpo.

E depois, cansada, dormir no teu peito.

Para passear por Santa Teresa e navegar pelas curvas do bairro, sentindo suas mãos navegando em minha cintura.

Tivemos tão pouco tempo.

Todo tempo do mundo.

Olho para a garrafinha de vidro que você me deu, recheada de Tsurus coloridos. 

Sorrio.

Toda vez.




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

As palavras

Era assim toda tarde. Quando um facho de sol amarelo invadia a sala, formando uma diagonal que passava pela mesa de jantar, pelo sofá de três lugares e banhava seu corpo, sentado na poltrona.
De cabeça baixa, suas mãos seguiam a cadencia das agulhas. Bordava.

Ele não estava lá. Como de costume. Mesmo quando não tinha trabalho. A vida na rua era interessante demais. Os amigos, as bebidas e, ela sabia, as mulheres também.

Nos escassos momentos em que estavam juntos, não havia afeto. As palavras secas que trocavam drenavam cada dia mais e mais o carinho que um dia havia existido. Estou saindo. De novo? Não começa.

Ela, então, sentava-se à poltrona, esperava o sol derramar seu calor e bordava.

No início, tinha dificuldade para trançar os pontos. Os olhos marejados a impediam de enxergar. As perguntas também. Por quê? O que eu fiz? Onde será que ele foi?

Na entrecortar das agulhas, não percebeu os anos passarem. Estava velha, no auge de seus trinta e alguns anos. Sentia que já tinha vivido o peso de toda uma vida. Olhava para casa. Tapetes, toalhas, colchas, centros de mesa, passadeiras. Uma infinidade de solidão bordada.

Não tinha forças para lutar, nem fugir. O tempo de ir embora havia passado, ela pensava.

Numa tarde chuvosa, como de costume, bordava de cabeça baixa quando notou uma súbita mudança de temperatura. O vento frio deu lugar a uma brisa suave e quente. O facho de sol, que tanto amava, veio descendo lentamente, formando a habitual linha em diagonal. Junto com ele, alguém. Demorou para entender quem era a jovem de cabelos compridos e negros que dançava sob a luz dourada do sol. Até que seus olhos se cruzaram e ela soube.

Leve, com seu vestido de seda, o corpo quase transparente. Seu riso (tinha esquecido como era) inundava a sala. E ela, com as agulhas nãos mãos, sentia vontade de chorar.

Não havia mais perguntas, agora. Ele saía, ela bordava, a outra dançava. Assim era.

Naquela tarde, no entanto, ela sabia que seria diferente.

Depois que ele bateu a porta, pegou um pano de prato branco que tinha comprado especialmente para aquele trabalho. As palavras que queria dizer. Com linha vermelha.

O facho de luz inundou a sala, deixando de ser uma única diagonal. Logo a jovem apareceu pairando no centro da sala, flutuando.

Inesperadamente sorriu, ainda bordando o pano de prato. Quando terminou, dobrou-o cuidadosamente e o deixou sobre a poltrona.

Com pés descalços, subiu na mesa de centro, alcançando a barra do vestido de seu eu jovem, bailando no ar.

Abraçaram-se numa valsa, a princípio, descompassada, como se estivessem aprendendo a dançar juntas novamente. Aos poucos, os passos foram se entrelaçando, amarrando-se. Bordavam-se uma na outra.

Seus pés deixaram a mesa de centro.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Amor líquido

Nosso tempo durou um frasco.

Foi um presente de uma chefe que tive, em algum aniversário meu. Ela era maldosa e sabia que eu era virgem naquela época. Dizem que é afrodisíaco, revelou sorrindo, quando me deu a caixinha.

Devo ter usado o presente uma ou duas vezes logo depois do meu aniversário. Talvez para testar seu poder, mas a falta de resultados e o aroma de outros perfumes acabaram me fazendo deixar o frasco esquecido no fundo do armário. Anos se passaram.

Quando marcamos nosso primeiro encontro, numa quinta-feira, quis levar algum perfume para borrifar antes de te encontrar. Aquele pequeno frasco de vidro, esquecido no fundo do armário, era o único que não pesaria na bolsa.

Antes de sair do trabalho, borrifei uma vez atrás de cada orelha e nos pulsos. Passei demais, pensei me condenando.

E aí, no meio da noite, com o rosto afundado no meu pescoço, sua barba roçando minha pele, você disse com a voz rouca, gostei do seu cheiro.

Depois daquela noite, usava o perfume toda vez que íamos nos ver. Era um vidro pequeno, então, não usava em outras ocasiões. Sempre que você me dizia, entre beijos e carinhos, eu adoro seu perfume, eu respondia, eu só uso com você.

Se os perfumes tivessem vida, eu diria que a desse estava só esperando a gente acontecer para começar a respirar (ou pra revelar seu poder afrodisíaco).

Foi quando os problemas começaram que notei que ele estava quase no fim.

Uma mensagem não respondida, um fim de semana sem notícias, a primeira discussão, um pedido de desculpas, e o frasco cada vez mais vazio.

Até aquele dia, aquele último dia (que eu não sabia que seria o último), em que tive que virar e sacudir o frasco para conseguir algumas derradeiras gotas.

Passamos a tarde juntos. Eu estava feliz, acho (já não me lembro como ficava perto de você quando começamos a nos afastar). Mas me lembro de achar que, bem, talvez tudo voltasse a ser como antes.

Até que nos despedimos, naquela esquina perto de casa, e nunca mais nos vimos.

Já faz tanto tempo, às vezes parece tempo nenhum.

O frasco voltou para o fundo do armário. Vazio mesmo. Ainda não consegui jogá-lo fora.

Já é hora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Sereno

Sob o sol, a pele fina nascida outro dia, cheia de brilhantes.  Iluminada, olhava pra si mesma. Até os pontos de luz escorrerem, desenhando um mapa de caminhos molhados.
- Mais – pedia em êxtase.
A mãe voltava a ligar a mangueira, o ar umedecia de risadas. Rodopiava de boca aberta, saboreando respingos de estrelas. Às vezes, parava, só pra ficar um tempo líquida, sentindo a correnteza acender seu corpo.
Era quando a mãe desligava a chuva, e ela aproveitava pra admirar a constelação que havia se formado em seus braços e barriga.
Era toda galáxia.
Do lado da torneira que dava vida à brincadeira, a mãe, sorrindo, serenava sua pequena flor, salpicada de orvalho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Se eu soubesse de mim

Você acabou de começar a faculdade. Está nervosa porque é a primeira grande mudança na sua vida. Tudo bem. Não se recrimine por ainda guardar a timidez dos tempos de escola, nem se assuste com os grunges que fumam maconha na porta da universidade. Eu sei, pra você isso ainda é coisa de outro mundo. Mas não se preocupe: aquela menina sonhadora e boba nunca vai se perder, nem mesmo quando partirem seu coração.

É, você ainda não acredita que alguém faria isso. Mas vão fazer. Mais de uma vez.

Não se revolte nem odeie essas pessoas. Muitas delas não são más ou egoístas. São apenas jovens como você, tentando encontrar as peças que faltam dentro de si.  Mas seja mais madura do que elas e não machuque os outros. Sinta-se responsável pelo amor ou mágoa que pode causar a alguém.  Ponha-se, sempre que puder, no lugar do outro, sem nunca deixar de ouvir sua intuição. Se achar que não deve insistir, não insista. O contrário também vale.

Ame-se. Ame. Se entregue.

Não tenha receios, nem amarras. Não deixe que o medo de novas decepções endureça seu coração. Essa é a sua melhor qualidade: dar-se por inteira.

Você terá dúvidas sobre sua carreira. Vai se arrepender de alguns empregos, mas vai encontrar grandes amigos pelo caminho. Você será muito melhor do que imagina na sua profissão. Também vai conseguir, um passo de cada vez, unir laços com a Literatura e perceber que é ela que te completa. Continue.

Não se iluda, a tristeza também fará parte da sua vida. Assim como o medo do câncer levar embora quem você mais ama. Chore sem deixar de manter a fé. Você vai descobrir como as pessoas podem ser extremamente generosas. E vai conhecer, pela primeira vez, a dor que é não receber ajuda quando precisa. No final, vai dar tudo certo.

Pare de se achar feia ou gorda ou estranha. Você leva no sorriso toda beleza que precisa ter.. Olhe-se no espelho com os olhos de quem te vê e te ama. Acredite quando dizem que você é linda: eles estão com a razão. 

Garanto que até os 30 anos você não terá tido filhos (nem muita vontade de tê-los), mas vai amar seus sobrinhos (serão dois até lá) incondicionalmente; vai se pegar imaginando como se seria se fossem seus (e toda vez que isso acontecer a única certeza que terá é do amor que é capaz de sentir).

Se meus conselhos puderem chegar até você, lembre-se principalmente deste: leve a vida com leveza: a simplicidade é a melhor coisa do mundo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

3 minutos

Dançam juntos. Fazia tempo, ela queria aquela dança. Tocam-se. Olhares e sorrisos. Nenhuma palavra. O compasso pulsa em suas veias. Nenhuma palavra. Três minutos. Só três minutos. Tudo bem.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Engrenagem

meus olhos são idioma
meu sorriso, porta de entrada
meu corpo, manifestação.

meu choro diz a verdade
minhas mãos caminham desejos
meus pés desejam caminhos

meus lábios, guardiões indecisos
de um céu imenso infinito
vomitam engolindo versos

meu peito, engrenagem
defeituosa. gira para
volta a girar

A todos não sei quem governa
apartidário que é
meu coração.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Eu sei

Para ler ouvindo: Game for fools | Jamie Lidell

Mandou o texto. Seu coração palpitava como se estivesse se preparando para o primeiro encontro entre eles, embora isso já tivesse acontecido. Não imaginou que ele quisesse ler algum conto seu.

Já tinham conversado sobre sonhos, certa noite, naquele quarto pequeno, bagunçado e cheio de estrelas. Confessou, entre lençóis, risos e beijos, que queria ser escritora. Com a voz um pouco baixa e reticente, como se a palavra escritora fosse preciosa demais para ser dita assim, sem cuidado. Ele passou as mãos em seu cabelo e disse que não sabia que sonho tinha. Que ia vivendo um dia de cada vez, sem prospectar o futuro. Se entrelaçaram e esqueceram o assunto.

E agora, depois de uma conversa despretensiosa sobre um conto que escrevera pra aula de Literatura, o pedido mais íntimo que ele podia fazer a ela. Gostaria de ler. Seus olhos brilharam. Tem certeza? quer dizer... Eu ainda tô aprendendo. Ele riu da timidez dela. Me manda, prometo não pegar pesado nas críticas.

Foi a primeira coisa que fez ao chegar em casa. Sentou em frente ao computador e escreveu o email. Um pouco trêmula de nervosismo e felicidade. Como prometido, vai o texto que levei pra aula ontem. Lembrando que a aula é de Literatura Infantil, então... Não queria mostrar insegurança, embora as reticências ao final lhe traíssem um pouco.

A falta de resposta a fez imaginar que ele falaria sobre o conto quando se encontrassem novamente. Expectativa que foi logo derrubada depois de se verem algumas vezes e ele não comentar nada. Será que não gostou?

Tentou não ligar para o silêncio, mas depois de um tempo, deitados naquele quarto que tanto amava, ela perguntou, entre um papo e outro, pra não parecer cobrança (ou mágoa), eu te mandei aquele conto que a gente conversou uma vez, lembra? Achou muito ruim? E riu, pra parecer que não se importava tanto assim. Ah, sim. Acabei não lendo.  Quando conseguir te falo. Ela assentiu e se esforçou pra não parecer chateada.

Não tocaram mais no assunto.

Ele nunca leu o conto.

Em seu último encontro, aquele em que cumpririam as meras formalidades para um término decente, uma água e um café pra dizer me apaixonei por você e ouvir não quero me envolver nem te magoar, ele lembrou do conto. Pensei em ler hoje, mas...

Eu sei, ela completou.

****
Don`t you wait until it's too late
Until something inside has died...





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Para ler ouvindo: Love is a losing game | Amy Winehouse

O caminho é inverso. A salvação - será que existe? -, não consigo enxergá-la. Seria bom que houvesse. Será que existe?
O caminho é inverso. Doloroso também. A paisagem não é bonita, embora haja flores.
Eu quero fugir. Não adianta fugir.
Nem questionar.

Só você se tem.
Só você.
Só.

***
Self professed, profound
Till the chips were down
know you're a gambling man
Love is a losing hand




terça-feira, 12 de julho de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

respira

   calma
   fecha os olhos
inspira

desacelera
       expira
acalma

   respira
        respira
respira

chora
não tem problema
ora

deixa ir
deixa ser
deixa

calma, menina
calma

   acalma
acalma
   acalma
a alma...

domingo, 19 de junho de 2016

Vende-se amor

O dever de casa daquele primeiro dia de aula tinha sido claro: escreva sobre algum livro que tenha lido durante as férias. A empolgação inicial logo deu lugar à preocupação. O livro que tinha lido havia me embaralhado um pouco e deixou três perguntas em ciranda dentro de mim.
Também, foi a primeira leitura que fiz por mim mesma, quer dizer, ninguém me deu aquele livro. Ele estava lá, entre os volumes que a mãe recebia de doação pra biblioteca da rua. Ela sempre me deixava pegar um ou outro, mas dessa vez não me ajudou a escolher. Então, peguei esse. Estava bem escondido, embaixo de um livro grosso com uma baleia na capa. Me chamou atenção a ponta azul que escapava ao peso da baleia.
Puxei o livro e me apaixonei pelo desenho da capa e pelo nome do autor na mesma hora. Gabriel seria o nome do meu filho um dia.
Animada, comecei a leitura de imediato, mas as dúvidas logo começaram a dançar estranho aqui dentro. Escorregavam de fininho da cabeça até o peito. Mas fui até fim. Depois, deixei o livro lá, na cabeceira da cama, como que esperando o dia pra trazer as perguntas de volta.
Encorajada pela tarefa da escola, catei o livro e sai em busca de um adulto que pudesse me explicar. Meu pai, sempre muito ocupado, pediu que eu perguntasse à minha mãe, que disse que meu pai explicaria melhor.  Recorri então à pessoa mais legal da família: a avó.
Ao pegar o livro, ela apertou os olhos e falou:
- Desenho bonito esse da capa, parece até eue deu uma gargalhada pra lá de bonita. Tinha jeito de sino, sabe?Mas esqueceu? Vovó não sabe ler. Lê pra mim, vamos.
 Orgulhosa, entonei a voz e comecei.   Entre uma frase e outra, olhava escondido pra ela só pra ver a reação. Parecia bem concentrada em cada palavra que eu dizia. Continuei.
A vó ria em algumas partes e em outras ficava com o rosto engraçado, bem franzido. Teve até uma hora que ela interrompeu assustada:
- Tem certeza que esse livro é pra criança?
- Ué, vó, tem uns desenhos bem bonitos aqui, olha – mostrei uma ilustração. - Não é linda?
 Vovó examinou o livro.
- Continue, continue. Antes que seus pais interrompam.
Em alguns minutos terminei e já fui emendando as três perguntas.
- Calma, menina. Deixa a vó colocar as ideias no lugar.
Ela respirou fundo e demorou mais uns bons minutos pra responder. Fui ficando impaciente e achei logo que ela não tinha entendido, como eu.
Finalmente olhou pra mim.
- Pergunta.
- Não entendi qual é a profissão dela. O que é puta?
Vovó suspirou.
- María dos Prazeres é prostituta.
- O que é isso?
- É uma moça que ganha dinheiro dando amor aos homens.
- Tipo como a mamãe dá pro papai?
Não entendi porque ela riu, mas foi logo se explicando:
- Não. Sua mãe não ganha dinheiro pra amar seu pai. María dos Prazeres vende amor.
- Eita, vó. Nem sabia que a gente podia vender isso. Mas até que é bonito. Qualquer um pode vender, pode ficar rico assim?
- Qualquer um pode vender, mas é difícil ficar rico. Quem vende amor é quem menos recebe.
- Então como é que tem pra vender? Da onde que a María dos Prazeres tira esse amor?
- Tem gente que nasce pra se doar, que consegue ser feliz, mesmo quando tudo vai contra. María é dessas pessoas.
- Hum... tá bom. Ainda tenho duas perguntas.
- Diga.
- Por que ela tem essa coisa de ficar esperando a morte, de querer comprar uma tumba? Lá na escola, a irmã da aula de religião vive repetindo que a vida é nosso maior presente. Ela não tinha que querer viver pra sempre?
- Ah, meu amor, María dos Prazeres é como a vovó, muito, muito velha. A vida já valeu a pena. Chega uma hora que a morte vira só mais uma fase.
- Pra todo mundo?
- Pra todo mundo que entende que a vida também é só uma fase.
- Você  tá esperando a morte, vovó? – fiquei meio assustada com aquele papo.
Ela sorriu.
- Não precisa se preocupar. Não vou embora tão cedo.
- Ah bom, porque eu ainda tenho uma última pergunta. Quem é esse homem no final? Ele é mais um comprador?
Ela abriu a boca umas três vezes e desistiu. Coçou a cabeça, abriu a boca mais uma vez e não disse nada. Por fim, olhou pra mim:
- O que você acha?
- Eu acho que é mais um comprador, mas acho que ele quer ser o último, sabe? Tipo levar a María pra viver com ele, fazer umas viagens, conhecer, sei lá, a Disney.
- Então acho que ele pode ser isso, se você acha que ele é.
- Mas e você? Acha o quê?
- É... eu também acho que ele quer ser o último comprador.
Sorri satisfeita.
- Obrigada, vó. Acho que agora já posso escrever a redação pra escola.
 - Maravi... Espera, pra escola? Bem, nesse caso, acho melhor você usar o nome que a vovó te falou pra profissão da María: prostituta. Essa palavra aí do livro é... digamos... é meio desconhecida, a professora pode não entender.
- Tá bom! Acho que vai ser o título.
Não ouvi o que ela gritou enquanto corria pra escrever a redação.
No dia seguinte, fui a terceira aluna a me apresentar para a turma. Estava bastante ansiosa e meu coração deu um solavanco quando a professora disse meu nome.  Andei até a frente da sala, com o papel nas mãos e comecei:
A vendedora de amor
Ela estava embaixo da baleia, doida pra vender mais um pouco de carinho...

N.A.: O texto faz referência ao livro María dos Prazeres, de Gabriel García Márquez.

***
Vencedor do concurso Leia Comigo 2016 (Fnlij)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Brasis

Severino tem oito anos, é alto que nem um varapau e magro que nem uma minhoca. Tem a pele escurecida, assim, queimada de sol e seus pés estão sempre descalços e pretos. Suas roupas, esfarrapadas, vivem sujas da poeira que sobe do chão de terra.
Tadinho do menino. Mora num lugar tão feio, mas tão feio, que as pessoas vivem de cara triste, sabe? E a fome... é um tal de barriga roncando.

Mas o que deixa Severino triste mesmo, sem vontade de brincar com os outros meninos dali, é quando tem sede.

Sua mãe vive dizendo que quando ele nasceu, choveu por três dias seguidos naquele pedaço do sertão. Ela disse pro marido “Esse cabrinha truxe sorte pra nós, Chico. Acho que inté a gente consegue descer pro Sul. Meu padim ciço, olha quanta água, olha quanta água!”.

Mas Severino só viu água de verdade uma vez na vida. Quando choveu um dia inteirinho, lá quando ele tinha seis anos. Lembrava até hoje da festa que foi. Todo mundo pulando no meio daquele aguaceiro, sua mãe juntando um monte de balde e seu pai, com um cigarro já apagado pendurado na boca, os olhos fechados virados pro céu e os braços abertos, sentindo cada gotinha no seu corpo. Só de farra, Severino resolveu imitar. Abriu os braços curtos e pôde sentir os pingos gelados molhando seu corpo mirrado, cheio de fome e felicidade.

Depois disso, nunca mais.

Perto da casa de barro onde mora, tem um lago...não, tem uma poça de uma água suja de barro, feia, marrom. Essa que eles usam pra tomar banho e fazer um grude quando tem farinha pra comer.
Pro Severino, aquela era toda água do mundo.


Mainha, por que Deus fez tão pouquinha água se a gente vive cum sede?

A mãe de Severino ficou um tempão olhando pra frente, pra aquela paisagem de terra seca, rachada, feiosa... Então entrou em casa, sem explicar pro Severino porque Deus tinha feito aquilo.

Ela não entendia também.

****

João saiu correndo que nem um foguete. Era sempre assim quando chegava na praia. Seus pais mal estacionavam o carro e, pronto, ele abria a porta e saia correndo. Sua casa era o sol. Sua vida era o mar.

Bem nutrido, espevitado e saudável, só se sentia completamente feliz quando chegava naquele mundão de areia e água. Mais até do que quando seu pai o levava pra assistir o Flamengo jogar no Maracanã.

Que beleza de vida! O menino nascera na Zona Sul do Rio de Janeiro, um lugar que desde pequeno ouvia seus pais chamarem de Cidade Maravilhosa. E como não? Pra onde João olhava, lá estava ele: o mar.

Quando nasceu, sua mãe gosta de contar, o dia estava azulzinho, sem uma nuvem no céu. Um verdadeiro paraíso tropical.

- Eu disse pro teu pai: esse menino vai ser surfixta. Que leite que nada, vai mamar é água de coco!

E assim, a água parecia seu habitat natural. Demorava horas no chuveiro ou na banheira e da piscina que tinha na casa da avó, só saia quando seus pais o obrigavam.

Mas nada, nada, se comparava ao mar!

Jogado dentro daquele marzão, levando caixote ou brincando de dar cambalhotas submarinas, sentiu sua mãe se aproximar e levantá-lo com facilidade pro alto.

O menino encheu o ar de riso e felicidade.

Pro João, o mundo era só água.

- Quanta água, né, mãe? Parece que só termina lá longe, onde o céu começa!

Sua mãe olhou para aquela imensidão azul e sorriu.

- Parece sim, meu amor. Parece mesmo!

(Original de janeiro de 2013)



quinta-feira, 2 de junho de 2016

Azul-marinho

Quando a tristeza inunda,
mergulho os dedos no céu
(en)tornando toda angústia 
em tom de azul-marinho.
Chora chuva
o mar de mágoas
nessa noite derramada
que vai longe 
dentro 
e fora de mim.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Não quero

Quando o bebê foi posto em seus braços pela primeira vez, sentiu o coração ser inundado por um sentimento desconhecido. Suas veias congelaram.

Sua gestação havia durado um ano, três meses e quatro dias. O tempo de espera na fila de adoção.


O menino com nome de arcanjo vinha para ser seu filho. Incomodada com a alegria de seu marido, que chorava de felicidade ajoelhado em frente aos dois, estalou um beijo na bochecha da criança para ver se sentia alguma coisa.


Nada.

Fazia cinco anos e, por mais que tentasse, não encontrava seu instinto materno. Quando menina achava que seria a melhor mãe do mundo, tamanho o amor que sentia pelo filho antes mesmo de sabê-lo.

Agora, olhando para Miguel brincando no chão da sala de estar não conseguia amá-lo. Pouco depois de sua chegada, passado o alvoroço e toda a mudança na rotina, logo percebeu que existia algo errado entre eles. Uma barreira invisível que impedia mãe e filho de se adotarem. Miguel chorava o tempo todo. É assim mesmo, diziam. Logo fica mais fácil.
Não ficou.

Miguel não comia o que ela fazia. Não interagia se, por algum esforço, ela tentava brincar com ele. Rejeitava seu colo. Esforçava-se para fazê-lo engatinhar, ele permanecia olhando indiferente. Ensinou a usar o penico, insistia em fazer no chão da casa. Tentou ensiná-lo a falar mamãe, ele batia nela.

Cinco anos, e não encontrava a maravilha de ser mãe. Às vezes tinha certeza de que ele a provocava de propósito. Até hoje não achava que tinha sido travessura infantil fazer xixi sobre sua dissertação de mestrado. Tinha deixado as cópias sobre a mesa da sala. O que é isso? Perguntou esticando as mãos sobre a mesa. O trabalho da escola da mamãe. Não pode mexer, viu? É muito importante. Estava na cozinha quando ouviu o barulho. Correu para a sala e encontrou as três cópias do trabalho jogadas no chão enquanto Miguel mirava e fazia xixi sobre elas.

Quando o ódio desanuviou seus olhos, o bumbum do garoto ardia vermelho sob seus tapas. Sua mão coçava e seu coração dava solavancos violentos quando cansou de bater. Miguel parou de chorar. Em pé, a sua frente, acariciando o traseiro, ela teve a certeza de ver um brilho de satisfação em seus olhos e um pequeno sorriso em seus lábios. Ele tinha três anos.

Agora, com cinco completos, já tinha desistido de nutrir qualquer sentimento por ele. A guerra travada internamente a sufocava até que, enfim, se rendeu: não era obrigada a amá-lo.
Um fio de alívio nascia em seu coração. Perdera as contas de quantas discussões havia tido com seu marido por causa daquele estorvo com nome de anjo. Por isso, os papéis de divórcio já estavam assinados. Os que transferiam a guarda de Miguel também.



segunda-feira, 23 de maio de 2016

Desnudos

Seus olhos
desnudos
desnudam
me

meus olhos
entregues
derramam
se

Seu corpo
ávido
rapta
me

Meu corpo
absorto
deixa
se

Na cama
seu peito
ergue
se

Respiro
sem ar:
leve
me.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

quinta-feira, 12 de maio de 2016

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Limite

Sentara-se à mesa que mais gostava. Ficava escondida, no canto do restaurante, mas conseguia enxergar a rua pelo vidro lateral. Era uma das poucas mesas redondas e, pequena, perfeita para duas pessoas.

Naquele dia, no entanto, não esperava por ninguém. Uma gota de suor espetava sua nuca e sua franja, encharcada, grudava na testa. O dia cinza emanava um falso frescor. Para ela queimava feito janeiro.

Pediu um sanduíche e um suco gelado. Observava as pessoas caminhando apressadas, com os guarda-chuvas nas mãos, antevendo o temporal. Respirou fundo, jogou a franja molhada para trás. A voz estridente de sua chefe escoava por seus poros. Atrasada mais uma vez, ouviu antes mesmo de bater o ponto. O despertador não tocou. O trânsito estava péssimo. O elevador demorou. Blá blá blá, ironizou. Vou passar as planilhas da Verônica para você e as quero ainda hoje. O castigo a fizera sair para o almoço às quatro da tarde.

Bufou alguma coisa impaciente com a demora de seu pedido; ou com o suor que escorria por sua têmpora; ou com a injustiça do mundo. Reparou um senhor sentar-se à mesa ao lado, pedir um café expresso e um croissant. Sua camiseta molhada, com dois grandes círculos embaixo das axilas, a irritou ainda mais.

Não agradeceu quando o garçom chegou. Voltou a olhar para fora. Logo que se formara, orgulhara-se de fazer parte da População Economicamente Ativa. Ao longo dos anos, porém, fora colecionando perguntas. Tinha feito suas próprias escolhas ou apenas seguia o fluxo? A ambição que todos esperam de uma profissional era mesmo sua? Acordara uma manhã certa de que não corria sangue em suas veias, mas algum tipo de fluido mecânico que a deixava automaticamente viva. Viva? Uma vez, cortara o dedo com uma folha de papel e jurava que, pelo ferimento, vazara óleo de dobradiça.

Seu devaneio foi interrompido por um barulho ritmado, fino, baixo. A sonoplastia vinha da mesa ao lado. Do senhor com rodelas de suor na barriga e nos braços. Mastigava o salgado com violência, deixando pedaços e farelos escorrerem pelos cantos da boca, sujando-se vez ou outra com o recheio molenga de queijo.

Fechou os olhos com nojo, tentando controlar-se. Odiava pessoas que comiam de boca aberta. Voltou a olhar para o lado de fora para retomar sua irritação inicial, mas foi impossível. O som da saliva molhando o alimento, dos dentes triturando o croissant e da língua em movimento faziam suas artérias vibrarem.

Abrindo e fechando a mão numa tentativa de desviar sua ira, a jovem olhou para o senhor. Pode comer direito? Pediu num tom que julgou educado. O senhor pareceu não ouvir. Ei, você. Pode comer sem fazer barulho? Ele olhou para seu croissant já destruído pela metade. Desculpe, menina, mas eu como assim,explicou-se.  Já está acabando, e deu um gole daqueles bem sonoros no café. A jovem riu cinicamente. O senhor é um porco, sabia disso? Não se conteve. Perdão? Assustou-se o criminoso.

Em pé, à sua frente, ela podia ver, o homem tinha olhos pequenos, apertados, e bochechas rosadas que lhe davam um ar bobalhão. O senhor deveria saber comer em público, disse. E, antes que pudesse pensar, esfregou o resto do croissant na cara do sujeito.

Seu coração pulava. Suas pupilas, dilatadas. Sentia um prazer verdadeiramente diabólico ao esmagar partes do rosto do homem sob o salgado esmigalhado.

Atendendo aos gritos do cliente, um garçom logo se prestou a agarrá-la, mas o tempo não foi suficiente. A jovem ainda jogou o café do homem em sua camisa. Para combinar com suas rodelas nojentas de suor, gritou.

Atirada para fora, com as veias saltando pelos olhos, gargalhou. Enquanto debatia-se nos braços do atendente, um arranhão cortara seu braço. Um filete de sangue reluzente e viscoso escorria. Estava viva!

Agora era a vez de ter com a sua tão querida, tão amada chefe.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

Começo


      Na escola, eu era a menina de óculos sentada no fundo da sala, torcendo pra continuar invisível. De rabo-de-cavalo, rabiscava versos nas folhas de caderno. Sonhava alto entrelinhas e só mesmo o gracejo de alguma criança maliciosa me roubava de mim.
Tudo me prendia a atenção, motivo pelo qual não prestava atenção em nada. A mancha na parede ao lado ganhava status de personagem, a madeira raspada da carteira lembrava história de guerra, a aranha de pernas longas que passeava pelo chão contava por que abandonara seu marido.
Somente quando as risadas eram altas demais, o mundo real me acordava. A professora enraivecida perguntava onde estava minha cabeça. E eu só queria ir pra junto dela, longe dali.
Ir à escola não era meu momento preferido do dia, minhas notas falavam por mim. Só tira nota boa em redação, minha mãe brigava. Redação não dá futuro, repetia.
Aquele dia, o sol era uma bola branca no meio do azul. Ele entrou e sentou duas cadeiras adiante. Seu cabelo era preto como o lápis de cor preta no meu estojo.  Era tão macio e espesso que dava vontade de meter a mão e sentir o que os fios queriam dizer. Pensei no meu, todo cacheado e espetado.
Fábio, a professora disse. Seu novo coleguinha de classe.
Fábio tinha ombros largos e usava uma bolsa atravessada, diferente das mochilas normais. A pele era morena, de quem pega praia todo dia. Mas o que eu gostei mesmo foi da cor de sua boca. O rosa puxando pro vermelho era fascinante. Tão fascinante que não ouvi quando a professora me chamou para fazer a prova de soletrar.
As risadas, mais uma vez, me trouxeram de volta. Levantei e deixei meu estojo cair no chão. Anda logo, menina. Não temos o dia todo. Quando finalmente arrumei tudo, a professora disse Soletre Gorgonzola.
Não conhecia a palavra, mas senti um gosto forte e amargo nos lábios. Passei a língua, sentindo o sabor das letras na boca, loucas pra saltarem do precipício.
. Comecei, encarando minha mesa. Ó. Erre. Gê. Ó. Ene. Parei. S ou Z? Olhei pra professora em busca de socorro. Nada. Em volta, me olhavam como se eu estivesse pronta pro abate.
Ousei olhar pra ele. Fábio rabiscava alguma coisa nas costas de sua mão.
S ou Z? S ou Z? Meu rosto queimava feito brasa. Brasa é com Esse, pensei.
Então, num segundo menor que o tempo, Fábio olhou para trás e coçou o nariz. Zê, continuei, agarrada à certeza da cola. Ó. Ele. A. Terminei de uma só vez.
Acertou, disse a professora num tom que lembrava o mesmo sabor que senti nos lábios. Bruna, sua vez. Soletre Humanidade.
Voltei a sentar com o coração aos saltos. Fábio olhou pra trás sorrindo. Ansiosa, sem saber como reagir a uma interação tão íntima, sorri de volta, olhando rapidamente pra baixo.
Pela primeira vez, a vida real parecia interessante.




quinta-feira, 7 de abril de 2016

À deriva

Eu achei que você tinha gostado; que a gente tava indo bem. Quer dizer, aquela tarde foi tão legal, depois daquele passeio de mãos dadas.

Será que dei algum indício de que estava me apaixonando? Será que te assustei de alguma forma? Não foi minha intenção. Não sei se estou me apaixonando.

Não queria sentir essa saudade.

Já tive decepções antes, mas não assim. Nunca ninguém me deixou tão à deriva, no meio do caminho.  Olho pros lados, não enxergo o caminho.

Perdi as contas de quantas vezes olhei o celular esperando sua mensagem. É tão idiota.  Não vai chegar.

Difícil levar os dias assim.

Mas a noite sempre chega.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Eus

Às vezes penso que esqueci
É só tocar a música
Ainda lembro.  
Não sei como acontece.
Não é o mesmo sentimento.
Acorde, voz, sangue correndo.
É possível tanger a lembrança?
Não fico triste, 
sinto a tristeza.  
Não sinto a falta, 
toco a saudade.
Sou eu dentro de mim.
Ou fora.
Duas.
A que foi.
A que é.
A música finda.

Volto uma.

***


quarta-feira, 16 de março de 2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Brincando de aldravias 3

Vira
a
Mágoa
Colher
de 
Nutella

*

Noite
de
Chuva
Na
Cama
Tua

*

Tarde
de
nuvem
nos
olhos
dela