terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sebastian

A cama vazia era seu primeiro coração partido. A colcha de retalhos sem o habitual guardião, sua primeira decepção.  A partida silenciosa, seu primeiro rompimento. Passou a mão com delicadeza por onde costumavam dividir confidências. Tinha gosto de saudade aquela lágrima. Pela primeira vez.  

Lacuna

Só percebi depois de um tempo. Um longo tempo atravessado contracorrente, de chão lamacento e pegajoso: depois de um tempo, a gente esquece. 

Esquece as datas importantes. O
s detalhes do primeiro encontro. Quando começou a dar errado. 

Na correnteza do tempo, viram poça o gosto do beijo, o brilho dos olhos, o som da voz. O musgo cresce por cima do que fora paixão, cobre o que chamamos de amor, apaga o inesquecível. 
A névoa encobre seu rosto, o olhar que jogava sobre mim enquanto me tocava. 

O sentimento se dissipa; fina linha de fumaça bailarina.  

E de repente, a gente esquece.

Olhei uma foto sua hoje. Não te reconheci.  

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Nossa história acaba aqui

Você não precisou dizer nada. Aliás, não dizer nada foi exatamente dizer tudo. Você conheceu outra pessoa.

Descobri ontem, durante o filme que víamos na sua casa. Quando pegou o celular e digitou algumas palavras. Foi ali que soube que conheceu outra pessoa. Você usou aquele sorriso. Aquele do nosso primeiro encontro.

Não vou te colocar contra a parede nem pedir pra escolher.

A escolha não é sua.

Há um tempo você tem andado distante. Não me olha nos olhos. Não responde minhas mensagens com a mesma ansiedade de antes. Estar ao seu lado não é mais tão divertido. Você não está lá. Suas piadas ficaram sem graça, seu toque superficial. Não conversamos mais.

Me pergunto se ela é mais bonita, mais interessante, se é mais. Deve ser. Pensar nisso faz do meu coração um corpo externo, desnecessário.

Percebo que não temos outra programação. No fim de semana em que você pode (quer) me ver é sempre a mesma coisa: eu pego um taxi, vou até seu apartamento, ficamos juntos e, então, volto pra casa. Sem beijo. Sem afeto.

Aqueles minutos dentro do taxi, voltando pra casa, são regados a tristezas e incertezas. Já sabemos como isso vai terminar. Que vai terminar.

Podemos conversar?, mandei pelo whatsapp. Você me chamou pra sua casa. Não. Vamos naquele café que eu gosto? Vai ser uma conversa rápida. Tudo bem, você respondeu. Não pareceu se importar, embora tenha certeza de que saiba o que quero dizer.

Tento evitar a tristeza e me convencer de que a vida é mesmo assim.

Você conheceu outra pessoa. Nossa história, que mal começou, acaba aqui.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Represa

Angela tinha nome celestial, seus olhos escorriam mar. Às vezes, calmo e cristalino, noutras, escuro e indecifrável. Provocado, transbordava em ressaca violenta, afogando quem houvesse causado a intempérie. Mas Angela não chorava quase nunca. Seu mar desaguava na represa do coração.