quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Loucos

A boca vermelha sorri distraída. Laça o jovem coração desprevenido. Apaixonam-se boca e coração. Aplicados, perdem-se para sempre da razão. Vivem a felicidade que só os loucos entendem: impossível de explicar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Vida sinuosa


As ruas sinuosas de Santa Teresa, cheias de subida e descida, me fazem pensar nos caminhos retos da minha vida. 30 anos moradora do flamengo, frequentadora principalmente de botafogo, fiz poucas curvas. Penso em minha mãe.

64 anos. Cabelos brancos. Vida tão sinuosa quanto Santa Teresa.

Dona Ângela, ou Tia Ângela, como chamam minhas amigas de infância, nasceu em Paquetá. No tempo em que a ilha não precisava de sistema de despoluição e a praia era cheia de tatuí. A Liberdade era sua melhor amiga. Foi separada dela aos cinco anos, quando se mudou pra Del Castilho.

No bairro da zona norte do Rio, continuou brincando na rua, com os pés descalços e modos de moleque, trepando em árvores e ficando de cabeça pra baixo de vestido. Tudo era divertido e maldade era coisa de radionovela.

20 anos se passaram naquele pedacinho do Rio. 20 anos que tornaram a menina-moleque menina-moça. Veio o tempo em que seu pai decidiu que a esposa e os filhos não lhe faziam feliz, mas a cabrocha que conhecera em alguma outra curva. Saiu da casa e da vida deles. Minha mãe viu sua mãe perder o rumo. A ponto de passar horas desaparecida, sem cuidar dos filhos ainda pequenos, e encontrá-la catatônica na rua, olhando pra um horizonte perdido, procurando meu avô.

Era hora de tornar-se a dona da casa. De arrumar emprego e colocar comida na mesa pra ela, sua mãe e seus cinco irmãos. Prestou concurso pra o IBGE. Passou. Então, vieram as mudanças: Vila Isabel, Lins de Vasconcelos, Méier.

Aí, em 1973, o amor. Entre aqueles monstros da tecnologia avançada, chamados de cérebros eletrônicos. Um olhar diferente, um sorriso convidativo, uma demonstração de ciúmes. “Faltou por quê?” “Que te importa?” “Quer sair comigo?” “Pode ser”.

Um ano depois: casamento. A primeira filha veio três meses antes do previsto. No perrengue, meu pai arrumou outro emprego. Trabalhava de dia em um, à noite em outro. Dona Ângela largou o IBGE, precisava cuidar do bebê que tinha nome de música: Luciana. Seu Borel dormia no chão, tinha medo de dividir a cama com a esposa e a criança, que não tinha berço ainda.

Oito anos depois, meu pai já funcionário da Infraero, veio a segunda filha. Essa com nome de poema: Mariana. Só dois anos mais tarde, ao meio-dia de sol a pino: eu. Quando passavam por engano pela Ilha do Governador. Com nome de... uma menina esperta que minha mãe vira na rua fazendo peraltices alguns anos antes. Com o crescimento da família, por fim, a última mudança (pelo menos por enquanto): meu amado bairro do Flamengo.

Alguém me chama, o bonde está chegando. Olho de novo pra o largo do Curvelo e pras três ruas que o cercam. Sinuosas, descascadas, vividas.  



Sorrio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

As coisas mudaram agora

                                       . A música da banda preferida traz de volta aquela noite em que a noite parecia vestir nossas peles e tudo era novo. O ar morno enluarado iluminava a cama e nossas almas. Fazia o cheiro das árvores invadir o quarto.

Não sorrio.

As coisas mudaram agora. O calor que envolvia o frio que envolvia nossos corpos não existe mais. Ternura é palavra dura mergulhada na aridez da falta.

Não sorrio.

As coisas mudaram agora. Ficar em casa é ruim, sair dela também.  As horas duram dias. Os dias. não. passam. Preciso dormir. Preciso dormir. Mas atravessar o travesseiro tem sido difícil.

N
ão sorrio. 

As coisas mudaram agora. Passar pela esquina da sua rua  me faz baixar os olhos e não te encontrar. Me faz ver você  em todos os passantes de terno e gravata. Sinto o coração dar um salto. Alívio?

Não sorrio.

As coisas mudaram agora. O futuro tem gosto de passado sem gosto. O presente, pretérito imperfeito do futuro. As coisas mudaram agora.

Não, não sorrio.