sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dentro de um quarto

Pra ler ouvindo: You will always be free | Noora Noor

Não entendi o por quê. A gente tinha estabelecido aquela relação de comum acordo. Duas pessoas, dois corpos, duas vidas. Não fizemos promessas. Você nunca me deu essa chance, sempre tão sincero desde o início. Sempre falando daquela garota; aquela que você  fazia questão de repetir que já não amava, mas estava com frequência no meio dos seus, dos nossos, assuntos.

Então, éramos amigos que transavam. Pra mim, um tipo completamente novo de relação.  Eu me mantinha fechada sobre meu passado, minhas histórias e o que tinha me levado até você. Quando estava ali com você, numa mesa de bar, numa boate escura ou na cama do motel, estava ali com você.

Por isso, não consigo entender o por quê. Por que você fez aquela cena de ciúmes outro dia. Ou por que você começou a me bombardear de perguntas quando me viu com outro cara.

Não somos duas pessoas procurando a mesma coisa? Não estamos os dois em busca de alguém que possa nos amar como nós mesmos podemos amar? Não foi você que me disse, antes de contar que estava saindo com outra garota, que somos livres?

You will always be free...  diz a música daquela cantora negra que você me mandou numa tarde modorrenta de trabalho.

Agora entendo o que você queria dizer quando brincava comigo; quando dizia que a gente era de mundos diferentes; quando dizia que eu era uma garotinha boba e rica da ZS e que você era o malandro da ZN, artista, ferrado, criativo.

Sim, somos de mundos diferentes. Ainda que eu não saiba exatamente que mundo é o meu e você pareça tão seguro do seu. Nada a ver com nossas origens ou endereços nos comprovantes de residência. Somos de mundos diferentes, principalmente, porque não fizemos questão de juntá-los.

Parece triste, não parece? Me sinto triste.

E mesmo agora, momento em que a sanidade me deixa pensar com discernimento sobre a gente, não posso negar, houve beleza. Entre discussões e desentendimentos, houve beleza entre nós. Como quando dançamos juntos naquela rua estreita do centro do Rio, sob a luz da lua, entre boêmios, solitários e perdidos;  ou como quando você me roubou um primeiro beijo, cheio de possibilidades. 

Sim, existiu beleza. E, quem sabe, poderia ter existido amor. 

Mas preferimos que houvesse apenas duas pessoas, duas vidas e dois corpos. Interligados somente pelo prazer que podiam dividir dentro de um quarto.

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"If you need some time to work it out,
you know we'll see it through

You will always be free..."



terça-feira, 19 de maio de 2015

Cansaço

Céu e calçada
da mesma cor
gris, sem vida
concreto rachado.
Minha estrada
vai assim
rumo ao céu
ou à calçada?
Ando sem esforço
e sem cansar
Olho pra trás
e pra frente
estou no mesmo lugar
Pensamento emperrado
preso encarcerado
dentro de mim
por favor vá embora
me deixa esquecer
cansei se ser sua
sem você me querer