terça-feira, 24 de março de 2015

24 de março

Eu achei que não fosse escrever nada sobre o dia de amanhã. Acabou que, como tudo na minha vida, isso também virou motivo pra colocar algumas palavras pra fora. Uma delas – e talvez a mais aterradora – é a de que eu tenho pouquíssimas certezas sobre mim. Com (quase) 30 anos sei de mim tanto quanto sabia aos 20 ou aos 15:
Azul é minha cor preferida. Lealdade é uma das minhas melhores qualidades. Me importar demais é um dos meus defeitos. Cinema me diverte. Dançar transforma meu estado de espírito. Ler é mais do que um hobby. Poesia me acalma. Músicas podem controlar meu humor. Café da manhã é minha refeição preferida. Pressão me dá dor de estômago. Minha família é oxigênio. Meus amigos, água.
Fico assustada como tudo o mais muda um pouco todo dia. Como respostas de grandes – e importantes – perguntas são imprecisas. O que quero da vida? Qual meu maior sonho? Que fazer quando alcançá-lo? Pra todas elas, olhos perdidos, coração fora do ritmo e um enorme e errático “às vezes sei, às vezes não sei”. Gosto de imaginar (ou vai ver é só um consolo) que as respostas estão escondidas no dia a dia, nas pequenas descobertas fazemos sobre nós mesmos.
Sabem, as pessoas ficam repetindo que 30 é a melhor idade. Talvez tudo esteja virado quando eu chegar. Por enquanto, aproveito meu último dia com apenas 29 anos. Com incertezas e imprecisões. Mas, principalmente, dentro da menina que ainda dança até o sol raiar, e que, certamente, não vai sumir depois dos 30.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Uísque

Bebi água, em vão. O gosto amargo do dia anterior não sumiu. Deitada na cama não alcancei o copo de uísque que você deixou na cabeceira do lado oposto ao meu. Talvez uma bebida mais forte pudesse apagar o sabor daquela briga.

Me esforcei o quanto pude, mas não alcancei o uísque. A cama parecia infinita. A janela ao lado parecia a quilômetros de distancia. Voltei a olhar pro teto. O mesmo que presenciou tudo. Nos encaramos por um tempo, até ouvi-lo me acusando. Tapei os ouvidos, mas a voz de gesso ultrapassava a barreira e sussurrava "a culpa é sua". 

Eu não vou chorar. Há tempos cumpro minha promessa de não chorar por sua, por nossa, causa. Se tinha decidido ir embora, o melhor era que fosse. Não sentirei saudade. Quem poderia sentir saudade de você? Não. Não sentirei saudade. Nem dos beijos, nem daquele seu jeito de acariciar minha nuca, quando eu dormia de costas para você. 

Quando conseguir levantar, pode ter certeza, vou pegar aquele seu caderno surrado e rasgar as poesias que fazia dizendo que eram pra mim. Quando esse teto parar de gritar, pode ter certeza, vou apagar cada vestígio seu. Vou lavar os lençois. Vou jogá-los fora e comprar novos. Quando a janela voltar pro lugar dela, pode ter certeza, vou jogar o que tiver sobrado de você por ela, esperando ver seu sangue espirrar por todo lado.

Mas, por enquanto, vou ficar deitada mais um pouco. Não pense que é por medo de me esquecer de você. É só porque o gosto amargo ainda não saiu da minha boca e a cama ainda não voltou ao tamanho normal. Não demora muito estaremos todos livres de você. E se o teto continuar berrando, mudo de casa, de estado, de País.

Sei que você não virá comigo. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nas asas de um pica-pau

Eu acredito no amor. Nessa força sublime e magnífica que faz as pessoas cederem quando não se imaginavam abrindo mão. Eu acredito na coragem travestida de paixão e na entrega que só o amor é capaz de proporcionar. No brilho etéreo nos olhos de quem ama, nos sorrisos bobos de quem está encantado e nas frases clichês de quem quer dizer que tem vontade de abraçar o mundo depois que descobriu o amor.
Ainda que exista, o tempo todo, gente querendo provar o contrário, eu acredito no amor. Mesmo quando leio que três casais devolveram um menino de 5 anos ao orfanato só porque ele era negro, mesmo assim, eu acredito no amor. Nem as notícias de guerra, de abuso, de violência, de descaso, nem elas me fazer perder a esperança de que o amor pode salvar o planeta. Por mais que o mundo se esforce – e ele se esforça – pra permanecer esse lugar hostil em que vivemos, ainda vejo a flor no asfalto. E ela continua sendo maior do que o resto.
Eu vejo o casal que adotou o menino porque mais importante do que a cor da pele é o amor que se quer dar. Eu vejo as pessoas que lutam pelo fim da guerra e do descaso porque somos todos iguais. Eu vejo a foto de um pica-pau com um esquilo nas asas e lembro como o mundo é bonito. Como é bonito esse mundo.
Eu acredito no amor mesmo quando minhas amigas choram porque mais uma vez partiram seu coração. Mesmo quando, cansada e calejada, escuto, de novo, “não quero me envolver”. Porque o amor está aí por todo lado, doido pra achar um lugar pra morar, doido pra alguém de olhos atentos percebê-lo escondido no café da manhã servido no trabalho, no bom dia de um desconhecido, na conversa inesperada com a senhorinha que sentou ao seu lado no ônibus.
Eu acredito no amor porque ele existe. Mesmo que esquecido, fora de moda ou fora de forma. Uma flor na rua, como diria Drummond:
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.