quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O Jalapão ama você

Não sei se o vermelho do chão de barro, as estrelas de uma cidade quase sem luz, o verde sem fim ou o azul cristalino das águas. Talvez o negro da pele dos nativos ou o brilho inocente e livre nos olhos das crianças. Não sei qual dessas cores não sairá mais de mim. Nenhuma, acho. Porque o Jalapão é tudo isso, e um lugar desses, depois de desbravado, fica com a gente. Muda a gente.

Foram 7 horas de Palmas a Mateiros. 7 horas de estrada de barro, esburacada, perigosa. 7 horas sem ver um sinal de vida humana. E um pôr do sol perfeito que inaugurou uma das melhores viagens que já fiz.



Sem sinal de telefone, sem sinal de internet. Sem contato com o mundo além dos 2 mil habitantes de Mateiros; além da casa de Dona Nadir, onde 9 cariocas impregnados de tecnologia e estresse urbano encontraram algo que na cidade grande falta em abundância: tempo.

Lugar de comer na casa dos outros porque restaurante não tem. De degustar uma galinhada fresquinha, porque a galinha foi morta pouco antes para o almoço. De sentar à mesa e prosear como só no interior se faz, com desconhecidos, aventureiros e gente humilde que recebe você com o coração aberto. Lugar mágico, onde o capim tem cor de ouro.


No jalapão, meus amigos, é possível voar dentro d’água. Não sentir o chão e não afundar.  Dá vontade de virar peixe, de mergulhar pra sempre naquela sensação de fazer parte daquilo. De ser tão perfeito quanto a Natureza.




Lá existem cachoeiras de água fresca e azul. Hidromassagens naturais que, além de deixar seu corpo relaxado, deixam o cabelo macio e brilhoso. Existe uma Pedra Furada que te faz sentir pequeno e imenso. Uma cachoeira chamada Velha, mas que te rejuvenesce só de olhar. E dunas laranjas que, sob a luz do sol, parecem o entardecer vestido em grãos de areia.  



Mas também é lugar de superação. De fazer uma trilha de madrugada, iluminando a subida de cascalhos, pedra e mato com apenas uma lanterna e os comandos dos amigos mais adiantados. O objetivo: ver o nascer do sol a 800 metros do solo. Depois, sobre a chapada, andar mais 3 mil metros e encontrar um cobra de duas cabeças (venenosa) no meio do caminho só para aumentar a emoção. E a sensação de conseguir... Bom, acho que a foto mostra tudo.



E as crianças de Mumbuca.

Pés descalços em contato com terra e sonhos, mão sujas de barro e cheias de imaginação, sorrisos inocentes maiores do que mundo e aquele brilho intenso nos olhos, igual ao de qualquer outra criança. Felicidade de fazer dançar sozinho, como o Enzo de 3 anos, que flagrei arriscando uns passos em uma das casas que visitamos. Ou com a criatividade intacta (que os tablets-barra-celulares-barra-joguinhos eletrônicos andam roubando de nossas crianças urbanas), como o Izequiel e sua roda de bicicleta. “Pra onde ela vai te levar, garoto?” ”Pra onde eu quiser”. Sim, Izequiel, espero que você possa mesmo ir para onde quiser. Por que não? 




Conhecer o Jalapão era um sonho antigo, guardado cuidadosamente na gaveta do “um dia eu vou”. Fui, então, quando menos esperava e mais um item da lista foi riscada. Conhecer um lugar lindo e exótico antes dos 30. Já conheço alguns, mas o Jalapão era tão sonho quanto os lençóis maranhenses. É bom poder dizer que os dois lugares foram cortados da listinha.

Pra me despedir, as vozes das crianças e o hit do meu Carnaval:

O Jalapão aaaama vocêêê

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Meu cabelo duro é assim

Bombril, toin oin oin, puxa-estica-solta-enrola, rebelde, juba, pixaim, indisciplinado, duro. Os apelidos eram infinitos. Por isso, cresci achando que o meu cabelo era motivo de vergonha. O rabo-de-cavalo feito por minha mãe, na minha cabeça (literalmente), era a única maneira de usá-lo. Prender a juba e parecer uma pessoa normal.


Quando criança, ficava admirando o cabelo liso das meninas da escola como quem olha uma boneca nova. E sempre que via minha irmã do meio, a Mariana, desfilando suas madeixas lisas e pesadas, me perguntava por que não tinha nascido igual. Lembro que, quando tinhas uns 9 ou 10 anos, toda noite antes de dormir, pedia para Deus me fazer acordar de cabelo liso.

Pode parecer bobeira, mas tudo isso não me fez ter uma relação de amizade com meu cabelo.  Passei parte da adolescência detestando meus cachos e aos 18 anos comecei a estragá-lo com a tríade alisamento-escova-chapinha.


Praia, piscina, cachoeira, banho de chuva. Durante 11 anos deixei de aproveitar todos esses prazeres porque não podia molhar o cabelo. As pessoas riam, julgavam, brigavam.  Larga de frescura, não sei como você consegue, Deus me livre viver assim. Eu ria, fingia levar na brincadeira, mas ficava um pouquinho magoada. Escolhas são escolhas. Aquela era a minha. Ninguém, ninguém!, me perguntou uma vez sequer como era fazer esse sacrifício e a razão de tanto zelo.

Agora, com os 30 batendo à porta, e alguns anos de experiência e histórias vividas, me senti à vontade de, pela primeira vez, me libertar dessa prisão. Em um fim de semana com amigos, em que teria praia, piscina e até chuva à minha disposição, decidi passar os dias com o cabelo natural. Fazia tanto tempo que não o via sem escova, que mesmo pra mim seria uma surpresa ver como ficaria.

E olha, até que não ficou tão ruim.



O melhor dessa experiência é saber que, daqui pra frente, nunca mais vou me preocupar em molhar o cabelo em público. Liberdade, ainda que tardia.

Confesso que ainda não me sinto totalmente livre para eliminar a tríade alisamento-escova-chapinha do meu dia a dia, mas só o fato de poder me livrar dela nos momentos de lazer, me deixa uma balzaquiana incrivelmente feliz.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A metade da laranja

Essa carta é para você que me fez chorar. Que me procurou mesmo sabendo que eu já tinha sofrido e, mais uma vez, mostrou que eu não era uma opção.
Pode ficar tranquilo, no entanto. Essa não é a carta de uma pessoa rancorosa ou revoltada. É só o relato de alguém que quer dizer que você foi uma das melhores coisas que aconteceu na vida dela.
Sento aqui, pego essa caneta azul velha, tomo um gole de café e escrevo pra dizer que sem você talvez eu não tivesse encontrado a paz que sinto hoje. Sem você e tudo que me fez sentir – e foi tanto –, provavelmente não teria descoberto o que não quero em uma pessoa ou o que precisava mudar em mim.
Não somos amigos e nem seremos. Seu papel foi importante por aqui, mas curto e insuficiente para permanecer. O que é bom. Porque houve tempo em que achava que nada tinha sentido sem sua presença. Agora percebo que a sua presença é que não faria sentido.
Essa carta é para agradecer.
Agradecer por ter me ajudado a trilhar um caminho de autoconhecimento que ninguém antes tinha conseguido. Doloroso é verdade. Mas necessário.
Por fazer com que eu entendesse que sou completa sozinha. Que não existe metade da laranja, porque somos a laranja inteira. O dia que o amor finalmente cruzar o meu caminho, vai ser para encontrar o espaço reservado para ele. Para fazermos uma salada de frutas e não para nos completarmos.
Essa carta é para dizer adeus, pois é a última vez que penso em você. É pra dizer que foi bom enquanto durou, mas melhor ainda foi não ter durado.