quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Beleza

Foi a chuva de folhas secas na R. Dona Mariana
O pai jogando a filha pro alto
A risada que só as crianças sabem dar
Foram os pássaros brincando de voar
O beija-flor que ficou cinco segundos batendo asas na minha janela.
A borboleta amarela que cruzou meu caminho enquanto eu ia de ônibus pro trabalho
E aquele andarilho maltrapilho que dançava sozinho numa rua cinzenta de botafogo
Foi a gargalhada da Gabi
O sorriso do Pedro

É tanta beleza
Tanta beleza nesse mundo
Dá vontade de chorar
E choro.


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Terça dos abraços

Toda terça era a mesma coisa: acordava manhã pensando noite. Durante o trabalho não se concentrava. Esquecia de responder e-mails, relatórios ficavam pela metade, não conseguia escrever notas para as colunas do jornal. Ao cair da noite seu sol nascia e às 18h se iluminava por completo.

Era hora de ir ao abraço. Era hora de ir pra aula

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Pode sumir

Você é muito engraçado. De um jeito que me tira toda a vontade de rir.

Fico aqui pensando o que te faz pensar que eu aceitaria ir pra sua casa depois de tanto tempo. O que te faz imaginar que, nesse sábado que amanheceu tão azul, eu mudaria todos os meus planos para “ver um filme” com você.

Seu convite, inusitado e cheio de segundas intenções, me faz lembrar os incontáveis fins de semana que te chamei para fazer algo quando ainda éramos um casal e você ignorou. Me faz lembrar quando disse que estava com saudades e ouvi um seco “vamos resolver isso” do outro lado da linha.

Me surpreende essa incrível facilidade que você tem para passar por cima de tudo que conversamos; de tudo que senti. Entendo que você não consiga alcançar o que “tudo” significa, mas, definitivamente, não entendo sua falta de respeito. 

Uma vez, dessas em que apareceu do nada pensando que eu acharia muito legal seu convite para, em termos claros, transar com você, entre outros papinhos banais, você disse que minhas amigas deviam te odiar. Respondi que não, que eu só falava coisas boas suas, mesmo depois. 

Isso mudou agora. Toda vez que penso em você ou que você resolve aparecer, "babaca" é um adjetivo que não me sai da cabeça.


Portanto, não insista. Aliás, seria muito bom que você desaparecesse. 

Não vou sentir sua falta. Não mais.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sebastian

A cama vazia era seu primeiro coração partido. A colcha de retalhos sem o habitual guardião, sua primeira decepção.  A partida silenciosa, seu primeiro rompimento. Passou a mão com delicadeza por onde costumavam dividir confidências. Tinha gosto de saudade aquela lágrima. Pela primeira vez.  

Lacuna

Só percebi depois de um tempo. Um longo tempo atravessado contracorrente, de chão lamacento e pegajoso: depois de um tempo, a gente esquece. 

Esquece as datas importantes. O
s detalhes do primeiro encontro. Quando começou a dar errado. 

Na correnteza do tempo, viram poça o gosto do beijo, o brilho dos olhos, o som da voz. O musgo cresce por cima do que fora paixão, cobre o que chamamos de amor, apaga o inesquecível. 
A névoa encobre seu rosto, o olhar que jogava sobre mim enquanto me tocava. 

O sentimento se dissipa; fina linha de fumaça bailarina.  

E de repente, a gente esquece.

Olhei uma foto sua hoje. Não te reconheci.  

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Nossa história acaba aqui

Você não precisou dizer nada. Aliás, não dizer nada foi exatamente dizer tudo. Você conheceu outra pessoa.

Descobri ontem, durante o filme que víamos na sua casa. Quando pegou o celular e digitou algumas palavras. Foi ali que soube que conheceu outra pessoa. Você usou aquele sorriso. Aquele do nosso primeiro encontro.

Não vou te colocar contra a parede nem pedir pra escolher.

A escolha não é sua.

Há um tempo você tem andado distante. Não me olha nos olhos. Não responde minhas mensagens com a mesma ansiedade de antes. Estar ao seu lado não é mais tão divertido. Você não está lá. Suas piadas ficaram sem graça, seu toque superficial. Não conversamos mais.

Me pergunto se ela é mais bonita, mais interessante, se é mais. Deve ser. Pensar nisso faz do meu coração um corpo externo, desnecessário.

Percebo que não temos outra programação. No fim de semana em que você pode (quer) me ver é sempre a mesma coisa: eu pego um taxi, vou até seu apartamento, ficamos juntos e, então, volto pra casa. Sem beijo. Sem afeto.

Aqueles minutos dentro do taxi, voltando pra casa, são regados a tristezas e incertezas. Já sabemos como isso vai terminar. Que vai terminar.

Podemos conversar?, mandei pelo whatsapp. Você me chamou pra sua casa. Não. Vamos naquele café que eu gosto? Vai ser uma conversa rápida. Tudo bem, você respondeu. Não pareceu se importar, embora tenha certeza de que saiba o que quero dizer.

Tento evitar a tristeza e me convencer de que a vida é mesmo assim.

Você conheceu outra pessoa. Nossa história, que mal começou, acaba aqui.


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Represa

Angela tinha nome celestial, seus olhos escorriam mar. Às vezes, calmo e cristalino, noutras, escuro e indecifrável. Provocado, transbordava em ressaca violenta, afogando quem houvesse causado a intempérie. Mas Angela não chorava quase nunca. Seu mar desaguava na represa do coração.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Vento amor

Sentados no alto do farol, banhados pela luz da lua, o apaixonado diz à amada te amo pra sempre. Ela sorri e não responde eu também. Sabe que a eternidade é ventania. Brinca com o cata-vento que tem nas mãos e diz o pra sempre é hoje. E sopra, com amor infinito, 
                                                         Te amo te a mo t e am o t eam o...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Loucos

A boca vermelha sorri distraída. Laça o jovem coração desprevenido. Apaixonam-se boca e coração. Aplicados, perdem-se para sempre da razão. Vivem a felicidade que só os loucos entendem: impossível de explicar.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Vida sinuosa


As ruas sinuosas de Santa Teresa, cheias de subida e descida, me fazem pensar nos caminhos retos da minha vida. 30 anos moradora do flamengo, frequentadora principalmente de botafogo, fiz poucas curvas. Penso em minha mãe.

64 anos. Cabelos brancos. Vida tão sinuosa quanto Santa Teresa.

Dona Ângela, ou Tia Ângela, como chamam minhas amigas de infância, nasceu em Paquetá. No tempo em que a ilha não precisava de sistema de despoluição e a praia era cheia de tatuí. A Liberdade era sua melhor amiga. Foi separada dela aos cinco anos, quando se mudou pra Del Castilho.

No bairro da zona norte do Rio, continuou brincando na rua, com os pés descalços e modos de moleque, trepando em árvores e ficando de cabeça pra baixo de vestido. Tudo era divertido e maldade era coisa de radionovela.

20 anos se passaram naquele pedacinho do Rio. 20 anos que tornaram a menina-moleque menina-moça. Veio o tempo em que seu pai decidiu que a esposa e os filhos não lhe faziam feliz, mas a cabrocha que conhecera em alguma outra curva. Saiu da casa e da vida deles. Minha mãe viu sua mãe perder o rumo. A ponto de passar horas desaparecida, sem cuidar dos filhos ainda pequenos, e encontrá-la catatônica na rua, olhando pra um horizonte perdido, procurando meu avô.

Era hora de tornar-se a dona da casa. De arrumar emprego e colocar comida na mesa pra ela, sua mãe e seus cinco irmãos. Prestou concurso pra o IBGE. Passou. Então, vieram as mudanças: Vila Isabel, Lins de Vasconcelos, Méier.

Aí, em 1973, o amor. Entre aqueles monstros da tecnologia avançada, chamados de cérebros eletrônicos. Um olhar diferente, um sorriso convidativo, uma demonstração de ciúmes. “Faltou por quê?” “Que te importa?” “Quer sair comigo?” “Pode ser”.

Um ano depois: casamento. A primeira filha veio três meses antes do previsto. No perrengue, meu pai arrumou outro emprego. Trabalhava de dia em um, à noite em outro. Dona Ângela largou o IBGE, precisava cuidar do bebê que tinha nome de música: Luciana. Seu Borel dormia no chão, tinha medo de dividir a cama com a esposa e a criança, que não tinha berço ainda.

Oito anos depois, meu pai já funcionário da Infraero, veio a segunda filha. Essa com nome de poema: Mariana. Só dois anos mais tarde, ao meio-dia de sol a pino: eu. Quando passavam por engano pela Ilha do Governador. Com nome de... uma menina esperta que minha mãe vira na rua fazendo peraltices alguns anos antes. Com o crescimento da família, por fim, a última mudança (pelo menos por enquanto): meu amado bairro do Flamengo.

Alguém me chama, o bonde está chegando. Olho de novo pra o largo do Curvelo e pras três ruas que o cercam. Sinuosas, descascadas, vividas.  



Sorrio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

As coisas mudaram agora

                                       . A música da banda preferida traz de volta aquela noite em que a noite parecia vestir nossas peles e tudo era novo. O ar morno enluarado iluminava a cama e nossas almas. Fazia o cheiro das árvores invadir o quarto.

Não sorrio.

As coisas mudaram agora. O calor que envolvia o frio que envolvia nossos corpos não existe mais. Ternura é palavra dura mergulhada na aridez da falta.

Não sorrio.

As coisas mudaram agora. Ficar em casa é ruim, sair dela também.  As horas duram dias. Os dias. não. passam. Preciso dormir. Preciso dormir. Mas atravessar o travesseiro tem sido difícil.

N
ão sorrio. 

As coisas mudaram agora. Passar pela esquina da sua rua  me faz baixar os olhos e não te encontrar. Me faz ver você  em todos os passantes de terno e gravata. Sinto o coração dar um salto. Alívio?

Não sorrio.

As coisas mudaram agora. O futuro tem gosto de passado sem gosto. O presente, pretérito imperfeito do futuro. As coisas mudaram agora.

Não, não sorrio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Domingo

Na praça, escuta. Entre o canto dos pássaros e a dança da brisa. Entre as risadas das crianças e o craquelar das folhas secas sob os pés dos caminhantes. Escuta exatamente o que precisava ouvir: o suave silêncio da serenidade.

Pela janela

O Amor passou batendo asas pela janela. Pousou delicadamente no beiral e piou baixinho, pedindo um pouco do alpiste que o canário comia sozinho na gaiola.
Assustada com a figura desconhecida, a mulher espantou o Amor com as mãos e fechou a janela bem fechada. Impedindo, assim, que ele voltasse para importunar a paz tão segura de sua casa.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Tic-tac

Bate o despertador. Bate o leite do bebê. Bate a hora. Bate o ponto. Bate relatório. Bate-cabeça. Bate-boca. Bate o ponto. Bate a papinha do bebê. Bate e dorme.
E o coração? Ainda bate?

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Receita velha

O amor talhou. Jogou pelo ralo o líquido estragado. Com um garfo empurrava pedaços subversivos. Não se sentia triste.

Maratona

Andou três minutos. 
No primeiro, não percebeu a paisagem mudar.
No segundo, sentiu cascalhos e pedras machucando a sola fina de seu pé, tão acostumado à inércia.
No terceiro, já não sentia o chão. Duas asas ruflavam pelo céu, azul. 
Voava.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Andei te visitando

Leio seus textos escondido. Desculpa.

Quando vejo que está muito tempo sem aparecer nas redes sociais, visito seu blog como uma espiã. Com o coração palpitando e as mãos trêmulas, deslizo a barra lateral, percorrendo os olhos sobre seus desejos.

Aliás, desculpa não. Foi a única maneira que encontrei de saber de você desde que paramos de nos ver. O seu despretensioso "a gente se fala" foi uma mentira suave para me manter a uma distância segura, eu sei. Tudo bem, também não tenho pretensão de voltar a falar com você. O que não diminui a vontade de saber de você, como vai sua vida, já está namorando?

Sei da tua alma tanto quanto derrama dela nas tuas poesias. Às vezes melancólicas impregnadas de solidão, às vezes eufóricas plenas de paixão. Inconstantes.

Sim, leio seus textos com um certo nervosismo infantil, como se você pudesse descobrir, a cada palavra desnudada, que estou ali, no teu espaço. Me fartando do que te falta, me afogando no que te sobra, tentando agarrar pelas beiradas algum pensamento, qualquer um que seja, sobre mim.

Nunca consegui. Nunca encontrei nenhum resquício de mim nas tuas palavras. Nem um cheiro, nem um suspiro, nem um rasgo daquele sorriso nervoso que só você arrancava de mim. Fico me perguntando onde você me guardou. Se guardou. Guardou?

Andei lendo uns textos esses dias. Você tem falado muito nessa garota. Cada linha sua sobre ela são duas batidas desritmadas dentro de mim.

Preciso parar de te ler. Sei disso.

Mas não hoje. Desculpa.

Aliás, desculpa não.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Brincando de aldravias 2

De
Verso
(in)
verso
Une
versos

*
Bailarina
Dança
na
Andança
das
mudanças
*
Dança
no
Sonho
passos
de
nuvem
*
Coração
quebrado
pranto
velado
quebranto
calado 
*
Barquinho
de
papel
navega
no
céu
*
Julgado,
se
joga
no
jogo
gingado
*
de
Moleque
peito
de
moça
 *
Do
Ponto
Pacífico
Ao
Ponto
Parágrafo
*

Brincando de aldravias

Tentando
refletir
olha-se
no
espelho
nu
 
risos
quando
crianças
abrem
sorrisos
*
Foge
flor
no
rio
que
foge

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Café bolo amor

O gosto do pão fresco lembra a primeira vez em que nos vimos. O leite quente e o café recém passado; aroma de nascer do sol.

A janela derrama luz amarela sobre a mesa e escorre pelos meus cabelos.  Deixa meus olhos um tom mais claro. Como você, que deixa tudo um tom acima.

A fumaça do bolo de fubá dança pelo ar. Às vezes, se mistura com o fio de nuvem que sobe do  chá e, entrelaçadas, giram num balé gracioso igual ao nosso.
O tilintar da colher na xícara enquanto misturo o açúcar no 
café lembra sua risada naquela tarde chuvosa. Quando dormimos juntos e soube que tudo seria diferente dali em diante.

Então, você. Com um beijo doce senta ao meu lado e rouba um gole do meu café. Deixo. Como tenho deixado você roubar outras coisas: a solidão, o cansaço, o mau-humor.  E essa sensação de que quanto mais me rouba, mais eu ganho.

Faço questão de não estragar tudo. Por isso não ligo a TV no jornal matinal nem pego o jornal que o entregador jogou ainda agora na porta. Pra que trazer o mundo pra dentro de casa se já temos tudo? 

Não. 

Apenas ligamos o rádio numa estação dessas que toca música dos anos 20 e ficamos assim: café, bolo e amor.  Pra que mais?



sexta-feira, 29 de maio de 2015

Dentro de um quarto

Pra ler ouvindo: You will always be free | Noora Noor

Não entendi o por quê. A gente tinha estabelecido aquela relação de comum acordo. Duas pessoas, dois corpos, duas vidas. Não fizemos promessas. Você nunca me deu essa chance, sempre tão sincero desde o início. Sempre falando daquela garota; aquela que você  fazia questão de repetir que já não amava, mas estava com frequência no meio dos seus, dos nossos, assuntos.

Então, éramos amigos que transavam. Pra mim, um tipo completamente novo de relação.  Eu me mantinha fechada sobre meu passado, minhas histórias e o que tinha me levado até você. Quando estava ali com você, numa mesa de bar, numa boate escura ou na cama do motel, estava ali com você.

Por isso, não consigo entender o por quê. Por que você fez aquela cena de ciúmes outro dia. Ou por que você começou a me bombardear de perguntas quando me viu com outro cara.

Não somos duas pessoas procurando a mesma coisa? Não estamos os dois em busca de alguém que possa nos amar como nós mesmos podemos amar? Não foi você que me disse, antes de contar que estava saindo com outra garota, que somos livres?

You will always be free...  diz a música daquela cantora negra que você me mandou numa tarde modorrenta de trabalho.

Agora entendo o que você queria dizer quando brincava comigo; quando dizia que a gente era de mundos diferentes; quando dizia que eu era uma garotinha boba e rica da ZS e que você era o malandro da ZN, artista, ferrado, criativo.

Sim, somos de mundos diferentes. Ainda que eu não saiba exatamente que mundo é o meu e você pareça tão seguro do seu. Nada a ver com nossas origens ou endereços nos comprovantes de residência. Somos de mundos diferentes, principalmente, porque não fizemos questão de juntá-los.

Parece triste, não parece? Me sinto triste.

E mesmo agora, momento em que a sanidade me deixa pensar com discernimento sobre a gente, não posso negar, houve beleza. Entre discussões e desentendimentos, houve beleza entre nós. Como quando dançamos juntos naquela rua estreita do centro do Rio, sob a luz da lua, entre boêmios, solitários e perdidos;  ou como quando você me roubou um primeiro beijo, cheio de possibilidades. 

Sim, existiu beleza. E, quem sabe, poderia ter existido amor. 

Mas preferimos que houvesse apenas duas pessoas, duas vidas e dois corpos. Interligados somente pelo prazer que podiam dividir dentro de um quarto.

****
"If you need some time to work it out,
you know we'll see it through

You will always be free..."



terça-feira, 19 de maio de 2015

Cansaço

Céu e calçada
da mesma cor
gris, sem vida
concreto rachado.
Minha estrada
vai assim
rumo ao céu
ou à calçada?
Ando sem esforço
e sem cansar
Olho pra trás
e pra frente
estou no mesmo lugar
Pensamento emperrado
preso encarcerado
dentro de mim
por favor vá embora
me deixa esquecer
cansei se ser sua
sem você me querer

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Perigo

O perigo se aproxima
Tem seu cheiro
Sua voz
Sua barba
E aquele jeito doce de falar
Afasto pra não me enrolar
Fujo
Finjo
Mas ah...
Aquele jeito de falar

O perigo se aproxima
Tem seu beijo
Seu toque
Suas mãos
E aquele sorriso que adoro
Afasto sua armadilha
Viro
Reviro
Mas ah...
Aquele sorriso

O perigo se aproxima
Está do meu lado
Cada vez mais perto
Resisto
Não resisto


O perigo me pegou.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Limerique 1

Lá na frente, o fim da rua
Aqui embaixo, toda curva
Vou, fiquei
Fui, voltei
Veja só: cheguei na lua!

terça-feira, 24 de março de 2015

24 de março

Eu achei que não fosse escrever nada sobre o dia de amanhã. Acabou que, como tudo na minha vida, isso também virou motivo pra colocar algumas palavras pra fora. Uma delas – e talvez a mais aterradora – é a de que eu tenho pouquíssimas certezas sobre mim. Com (quase) 30 anos sei de mim tanto quanto sabia aos 20 ou aos 15:
Azul é minha cor preferida. Lealdade é uma das minhas melhores qualidades. Me importar demais é um dos meus defeitos. Cinema me diverte. Dançar transforma meu estado de espírito. Ler é mais do que um hobby. Poesia me acalma. Músicas podem controlar meu humor. Café da manhã é minha refeição preferida. Pressão me dá dor de estômago. Minha família é oxigênio. Meus amigos, água.
Fico assustada como tudo o mais muda um pouco todo dia. Como respostas de grandes – e importantes – perguntas são imprecisas. O que quero da vida? Qual meu maior sonho? Que fazer quando alcançá-lo? Pra todas elas, olhos perdidos, coração fora do ritmo e um enorme e errático “às vezes sei, às vezes não sei”. Gosto de imaginar (ou vai ver é só um consolo) que as respostas estão escondidas no dia a dia, nas pequenas descobertas fazemos sobre nós mesmos.
Sabem, as pessoas ficam repetindo que 30 é a melhor idade. Talvez tudo esteja virado quando eu chegar. Por enquanto, aproveito meu último dia com apenas 29 anos. Com incertezas e imprecisões. Mas, principalmente, dentro da menina que ainda dança até o sol raiar, e que, certamente, não vai sumir depois dos 30.



segunda-feira, 9 de março de 2015

Uísque

Bebi água, em vão. O gosto amargo do dia anterior não sumiu. Deitada na cama não alcancei o copo de uísque que você deixou na cabeceira do lado oposto ao meu. Talvez uma bebida mais forte pudesse apagar o sabor daquela briga.

Me esforcei o quanto pude, mas não alcancei o uísque. A cama parecia infinita. A janela ao lado parecia a quilômetros de distancia. Voltei a olhar pro teto. O mesmo que presenciou tudo. Nos encaramos por um tempo, até ouvi-lo me acusando. Tapei os ouvidos, mas a voz de gesso ultrapassava a barreira e sussurrava "a culpa é sua". 

Eu não vou chorar. Há tempos cumpro minha promessa de não chorar por sua, por nossa, causa. Se tinha decidido ir embora, o melhor era que fosse. Não sentirei saudade. Quem poderia sentir saudade de você? Não. Não sentirei saudade. Nem dos beijos, nem daquele seu jeito de acariciar minha nuca, quando eu dormia de costas para você. 

Quando conseguir levantar, pode ter certeza, vou pegar aquele seu caderno surrado e rasgar as poesias que fazia dizendo que eram pra mim. Quando esse teto parar de gritar, pode ter certeza, vou apagar cada vestígio seu. Vou lavar os lençois. Vou jogá-los fora e comprar novos. Quando a janela voltar pro lugar dela, pode ter certeza, vou jogar o que tiver sobrado de você por ela, esperando ver seu sangue espirrar por todo lado.

Mas, por enquanto, vou ficar deitada mais um pouco. Não pense que é por medo de me esquecer de você. É só porque o gosto amargo ainda não saiu da minha boca e a cama ainda não voltou ao tamanho normal. Não demora muito estaremos todos livres de você. E se o teto continuar berrando, mudo de casa, de estado, de País.

Sei que você não virá comigo. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Nas asas de um pica-pau

Eu acredito no amor. Nessa força sublime e magnífica que faz as pessoas cederem quando não se imaginavam abrindo mão. Eu acredito na coragem travestida de paixão e na entrega que só o amor é capaz de proporcionar. No brilho etéreo nos olhos de quem ama, nos sorrisos bobos de quem está encantado e nas frases clichês de quem quer dizer que tem vontade de abraçar o mundo depois que descobriu o amor.
Ainda que exista, o tempo todo, gente querendo provar o contrário, eu acredito no amor. Mesmo quando leio que três casais devolveram um menino de 5 anos ao orfanato só porque ele era negro, mesmo assim, eu acredito no amor. Nem as notícias de guerra, de abuso, de violência, de descaso, nem elas me fazer perder a esperança de que o amor pode salvar o planeta. Por mais que o mundo se esforce – e ele se esforça – pra permanecer esse lugar hostil em que vivemos, ainda vejo a flor no asfalto. E ela continua sendo maior do que o resto.
Eu vejo o casal que adotou o menino porque mais importante do que a cor da pele é o amor que se quer dar. Eu vejo as pessoas que lutam pelo fim da guerra e do descaso porque somos todos iguais. Eu vejo a foto de um pica-pau com um esquilo nas asas e lembro como o mundo é bonito. Como é bonito esse mundo.
Eu acredito no amor mesmo quando minhas amigas choram porque mais uma vez partiram seu coração. Mesmo quando, cansada e calejada, escuto, de novo, “não quero me envolver”. Porque o amor está aí por todo lado, doido pra achar um lugar pra morar, doido pra alguém de olhos atentos percebê-lo escondido no café da manhã servido no trabalho, no bom dia de um desconhecido, na conversa inesperada com a senhorinha que sentou ao seu lado no ônibus.
Eu acredito no amor porque ele existe. Mesmo que esquecido, fora de moda ou fora de forma. Uma flor na rua, como diria Drummond:
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O Jalapão ama você

Não sei se o vermelho do chão de barro, as estrelas de uma cidade quase sem luz, o verde sem fim ou o azul cristalino das águas. Talvez o negro da pele dos nativos ou o brilho inocente e livre nos olhos das crianças. Não sei qual dessas cores não sairá mais de mim. Nenhuma, acho. Porque o Jalapão é tudo isso, e um lugar desses, depois de desbravado, fica com a gente. Muda a gente.

Foram 7 horas de Palmas a Mateiros. 7 horas de estrada de barro, esburacada, perigosa. 7 horas sem ver um sinal de vida humana. E um pôr do sol perfeito que inaugurou uma das melhores viagens que já fiz.



Sem sinal de telefone, sem sinal de internet. Sem contato com o mundo além dos 2 mil habitantes de Mateiros; além da casa de Dona Nadir, onde 9 cariocas impregnados de tecnologia e estresse urbano encontraram algo que na cidade grande falta em abundância: tempo.

Lugar de comer na casa dos outros porque restaurante não tem. De degustar uma galinhada fresquinha, porque a galinha foi morta pouco antes para o almoço. De sentar à mesa e prosear como só no interior se faz, com desconhecidos, aventureiros e gente humilde que recebe você com o coração aberto. Lugar mágico, onde o capim tem cor de ouro.


No jalapão, meus amigos, é possível voar dentro d’água. Não sentir o chão e não afundar.  Dá vontade de virar peixe, de mergulhar pra sempre naquela sensação de fazer parte daquilo. De ser tão perfeito quanto a Natureza.




Lá existem cachoeiras de água fresca e azul. Hidromassagens naturais que, além de deixar seu corpo relaxado, deixam o cabelo macio e brilhoso. Existe uma Pedra Furada que te faz sentir pequeno e imenso. Uma cachoeira chamada Velha, mas que te rejuvenesce só de olhar. E dunas laranjas que, sob a luz do sol, parecem o entardecer vestido em grãos de areia.  



Mas também é lugar de superação. De fazer uma trilha de madrugada, iluminando a subida de cascalhos, pedra e mato com apenas uma lanterna e os comandos dos amigos mais adiantados. O objetivo: ver o nascer do sol a 800 metros do solo. Depois, sobre a chapada, andar mais 3 mil metros e encontrar um cobra de duas cabeças (venenosa) no meio do caminho só para aumentar a emoção. E a sensação de conseguir... Bom, acho que a foto mostra tudo.



E as crianças de Mumbuca.

Pés descalços em contato com terra e sonhos, mão sujas de barro e cheias de imaginação, sorrisos inocentes maiores do que mundo e aquele brilho intenso nos olhos, igual ao de qualquer outra criança. Felicidade de fazer dançar sozinho, como o Enzo de 3 anos, que flagrei arriscando uns passos em uma das casas que visitamos. Ou com a criatividade intacta (que os tablets-barra-celulares-barra-joguinhos eletrônicos andam roubando de nossas crianças urbanas), como o Izequiel e sua roda de bicicleta. “Pra onde ela vai te levar, garoto?” ”Pra onde eu quiser”. Sim, Izequiel, espero que você possa mesmo ir para onde quiser. Por que não? 




Conhecer o Jalapão era um sonho antigo, guardado cuidadosamente na gaveta do “um dia eu vou”. Fui, então, quando menos esperava e mais um item da lista foi riscada. Conhecer um lugar lindo e exótico antes dos 30. Já conheço alguns, mas o Jalapão era tão sonho quanto os lençóis maranhenses. É bom poder dizer que os dois lugares foram cortados da listinha.

Pra me despedir, as vozes das crianças e o hit do meu Carnaval:

O Jalapão aaaama vocêêê

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Meu cabelo duro é assim

Bombril, toin oin oin, puxa-estica-solta-enrola, rebelde, juba, pixaim, indisciplinado, duro. Os apelidos eram infinitos. Por isso, cresci achando que o meu cabelo era motivo de vergonha. O rabo-de-cavalo feito por minha mãe, na minha cabeça (literalmente), era a única maneira de usá-lo. Prender a juba e parecer uma pessoa normal.


Quando criança, ficava admirando o cabelo liso das meninas da escola como quem olha uma boneca nova. E sempre que via minha irmã do meio, a Mariana, desfilando suas madeixas lisas e pesadas, me perguntava por que não tinha nascido igual. Lembro que, quando tinhas uns 9 ou 10 anos, toda noite antes de dormir, pedia para Deus me fazer acordar de cabelo liso.

Pode parecer bobeira, mas tudo isso não me fez ter uma relação de amizade com meu cabelo.  Passei parte da adolescência detestando meus cachos e aos 18 anos comecei a estragá-lo com a tríade alisamento-escova-chapinha.


Praia, piscina, cachoeira, banho de chuva. Durante 11 anos deixei de aproveitar todos esses prazeres porque não podia molhar o cabelo. As pessoas riam, julgavam, brigavam.  Larga de frescura, não sei como você consegue, Deus me livre viver assim. Eu ria, fingia levar na brincadeira, mas ficava um pouquinho magoada. Escolhas são escolhas. Aquela era a minha. Ninguém, ninguém!, me perguntou uma vez sequer como era fazer esse sacrifício e a razão de tanto zelo.

Agora, com os 30 batendo à porta, e alguns anos de experiência e histórias vividas, me senti à vontade de, pela primeira vez, me libertar dessa prisão. Em um fim de semana com amigos, em que teria praia, piscina e até chuva à minha disposição, decidi passar os dias com o cabelo natural. Fazia tanto tempo que não o via sem escova, que mesmo pra mim seria uma surpresa ver como ficaria.

E olha, até que não ficou tão ruim.



O melhor dessa experiência é saber que, daqui pra frente, nunca mais vou me preocupar em molhar o cabelo em público. Liberdade, ainda que tardia.

Confesso que ainda não me sinto totalmente livre para eliminar a tríade alisamento-escova-chapinha do meu dia a dia, mas só o fato de poder me livrar dela nos momentos de lazer, me deixa uma balzaquiana incrivelmente feliz.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A metade da laranja

Essa carta é para você que me fez chorar. Que me procurou mesmo sabendo que eu já tinha sofrido e, mais uma vez, mostrou que eu não era uma opção.
Pode ficar tranquilo, no entanto. Essa não é a carta de uma pessoa rancorosa ou revoltada. É só o relato de alguém que quer dizer que você foi uma das melhores coisas que aconteceu na vida dela.
Sento aqui, pego essa caneta azul velha, tomo um gole de café e escrevo pra dizer que sem você talvez eu não tivesse encontrado a paz que sinto hoje. Sem você e tudo que me fez sentir – e foi tanto –, provavelmente não teria descoberto o que não quero em uma pessoa ou o que precisava mudar em mim.
Não somos amigos e nem seremos. Seu papel foi importante por aqui, mas curto e insuficiente para permanecer. O que é bom. Porque houve tempo em que achava que nada tinha sentido sem sua presença. Agora percebo que a sua presença é que não faria sentido.
Essa carta é para agradecer.
Agradecer por ter me ajudado a trilhar um caminho de autoconhecimento que ninguém antes tinha conseguido. Doloroso é verdade. Mas necessário.
Por fazer com que eu entendesse que sou completa sozinha. Que não existe metade da laranja, porque somos a laranja inteira. O dia que o amor finalmente cruzar o meu caminho, vai ser para encontrar o espaço reservado para ele. Para fazermos uma salada de frutas e não para nos completarmos.
Essa carta é para dizer adeus, pois é a última vez que penso em você. É pra dizer que foi bom enquanto durou, mas melhor ainda foi não ter durado.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Um lugar novo por ano

Certa vez li, em algum livrinho desses de “sorte do dia”, algo que dizia assim: pelo menos uma vez por ano vá a algum lugar que nunca foi. A gente costuma pensar logo em viagem quando lê uma coisa dessas e imagina mil lugares que gostaria de ir. Mas a verdade é que não é preciso ir muito longe para experimentar o novo.


A história dele começou bem antes da minha. Em 1811, quando um rapazola chamado Rodrigo de Freitas Mello e Castro comprou uma bela fazenda às margens da lagoa. Só em 1859, ao passar para as mãos de Antônio Martins Lage, é que ganhou o nome que todo mundo conhece: Parque Lage.



Durante toda minha vida ouvi histórias incríveis sobre o lugar. Sobre a piscina, os jardins, o casarão e a escola de artes. Por alguma razão, no entanto, nunca havia tido a oportunidade de vê-los com meus próprios olhos. Engraçado como as coisas são. Fui até a Argentina conhecer a Casa Rosada e, apesar de estar a alguns bairros de distância do Parque Lage, nunca tinha ido lá.

Então, mais de 200 anos depois do início de sua história (e 29 depois do início da minha), visitei, pela primeira vez, o Parque. O dia não estava azul, mas ainda assim estava lindo (ou vai ver, foi o verdor que surgiu em mim, ao explorar os jardins e a gruta, que me deu tal impressão). 





Além da natureza, a Arte está presente por toda parte. E do que mais um lugar precisa para ser incrível além de Natureza e Arte? Acabei descobrindo que ninguém menos que Marina Colasanti morou lá! (Morr-y). Incrível, três vezes incrível! (E quase perdemos esse patrimônio para o Roberto Marinho, que pensou em comprar uma parte para a TV Globo!).


Não costumo ficar tirando lição de tudo que acontece na minha vida, mas ter me permitido visitar o Parque e abandonar o “um dia eu vou”, me mostrou como perdi tempo. Um lugar como esse, pertinho de casa, de graça e pronto pra receber quem quer que seja. Quantos piqueniques poderia ter feito ou exposições poderia ter visto?  E quantas vezes eu quis um lugar tranquilo pra pensar na vida ou ler um livro e não encontrei? Pois é.


Se completar 30 anos traz uma série de reflexões, uma delas eu já resolvi. Quando quiser conhecer um lugar - e puder - não vou mais deixar para depois. O momento certo é agora. Sempre.

Um lugar novo por ano... Que tal por mês?

#listados30

sábado, 10 de janeiro de 2015

O adeus do caçador

Ganhei quando tinha 21 anos, alguns dias depois do meu aniversário. De um amigo querido que, na época, era também um dos melhores. Ele não sabe – se sabe, não foi dito por mim -, mas eu era completamente apaixonada por ele.

O Caçador de Pipas foi o primeiro presente que ganhei de alguém que roubara algo de mim. Algo não visível, mas quase palpável de tão ausente. Com tanta força que me levou também a voz e a coragem de revelar a angústia e alegria que era estar ao seu lado.


O livro, além de me proporcionar um encontro lindo e inesquecível com Amir e Hassan, me proporcionou a felicidade de receber, em mãos, o carinho de alguém que me fazia sonhar toda noite. E de sentir, mesmo que no mundo iluminado do faz de contas, um gostinho de paixão correspondida.

De lá pra cá, nove anos se passaram. Vieram outras paixões, outros presentes, algumas decepções. Mas lá estava o Caçador, o tempo todo. Na estante do quarto, sussurrando com sua voz de vento: é preciso voar.

Voei.
Quantas vezes voei.

Hoje, depois de anos empoeirados,  o Caçador voltou a trabalhar. A Pipa alçou voo e foi dar em outra vida que não sei qual porque não fiquei a espreita. Despedir-me uma vez já havia sido difícil o suficiente.


Dei a alguém a oportunidade de ouvir o que o Caçador tem a dizer. Quem quer que tenha esbarrado com ele na escada do Parque das Ruínas onde, fingindo displicência, o deixei, tenho certeza, encontrou um grande amigo. Bem maior que suas páginas, pois sua história transcende aquela escrita.

É a lembrança de uma paixão inocente de tempos universitários e que hoje reside nas memórias de um livro  que deixei tocar outra pessoa.

Dei-o com o mesmo carinho que o recebi, com um coração ainda maior e mais leve do que nove anos atrás.



****

Essa foi a primeira atitude das 30 que planejo tomar até o dia 25 de março, quando me tornarei uma moçoila madura com 30 verões vividos.

Me acompanhem, vai ser divertido!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Para 2015

Pra ler ouvindo Say | John Mayer

Para você que me lê, entre todas as coisas boas que posso desejar no ano que se inicia, desejo, principalmente, que fale. Isso mesmo: que fale. 

Depois de 20 e poucos anos sendo uma garota extremamente tímida, que viveu inúmeras paixões platônicas e foi magoada uma centena de vezes porque não tinha coragem de abrir a boca e falar o que sentia no fundo do peito, posso dizer que não tem nada melhor do que falar com todas as letras, vírgulas, pausas e pontos finais o que se passa dentro de você.

A palavra é uma das armas mais poderosas da humanidade, por isso não desperdice esse dom unicamente nosso. Use-o. 

Está apaixonada pelo garoto? Se declare. Dê a você - e a ele - a chance de saber o que poderia acontecer. 

Não está mais tão afim da menina? Diga a ela. Não deixe que ela pense que você é só mais um babaca que sumiu sem dizer por quê. E seja sincero também. Não invente desculpas (ela sempre sabe quando você está mentindo). Diga que não está mais afim, que está em outra, que não quer mais. Tome a decisão ao invés de esperar que ela desista de você.

Está magoado com um amigo? Não aja como se estivesse tudo bem. Diga o que aconteceu e como se sentiu. Dê a ele a chance de lutar por você.

Está feliz? Espalhe sua alegria, compartilhe. Felicidade gera felicidade (o Profeta Gentileza que me perdoe a adaptação).

Está triste? Divida com alguém. Você nunca sabe o que outra pessoa pode fazer por você. O Ministério da Saúde comprova: um ombro bem usado pode evitar dor de estômago, dor de cabeça, depressão e até câncer.

Ah, e faz o seguinte: esquece whatsapp, inbox do facebook ou mensagem de texto. Use, além da voz, seus olhos, suas mãos, seu corpo. Falar é, acima de tudo, calor humano. É sorriso, lágrima, gargalhada, abraço. É a hesitação que o aplicativo não capta quando ela diz que está com saudade de você. 

É a ansiedade que o inbox do facebook não consegue transmitir quando ele diz que adorou a noite anterior. É a expressão de tristeza nos olhos de quem lamenta estar indo embora e que a mensagem de texto não leva junto. 

Poucas coisas são tão grandiosas quanto a conversa, assim, olho no olho. Portanto, para 2015, desejo que tenha muitas, inúmeras, diversas conversas. Que sejam prazerosas, proveitosas, inesquecíveis. Que você se descubra e descubra os outros através delas.

Feliz 2015 pra todos nós!

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terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Tivemos nossa chance

Quando foi que eu te perdi? Você me perguntou ontem, quando me encontrou naquele Café que eu adoro, lendo um livro do Cortázar.  Levei meio segundo para entender. Você sentou-se ao meu lado e repetiu. Quando foi que eu te perdi? Pousei o livro sobre a mesa e sorri. Depois de tanto tempo? Você assentiu. E então eu respondi:

Lembra quando você sumiu pela primeira vez, logo quando começamos a nos conhecer? Eu te liguei, você não retornou. No dia seguinte mandei mensagem, você não respondeu. Depois de três dias você apareceu no WhatsApp dizendo que tinha ficado sem celular. Ali, eu perdi uma parte das minhas expectativas.

Lembra quando eu disse que queria te ver e você disse que estava ocupado, que não tinha hora pra sair do trabalho? Uma amiga me contou que você a convidou para ir num bar na mesma noite. Ali, qualquer chance que eu tinha de confiar em você se perdeu.

Lembra quando eu disse que estava com saudades? Você disse que iríamos resolver isso. Assim, como se eu estivesse dizendo que o pneu do carro tinha furado. Ali eu perdi minhas esperanças.

E, então, virei a página.

Foi engraçado o jeito como me olhou. Pareceu que eu falava uma grande novidade, como se você não tivesse feito parte da história.
Mas eu te procurei. Eu quis mudar isso.

Tarde demais, eu disse. Mas... não era pra ser, certo? Eu me apaixonei por você, você não se apaixonou por mi. Tivemos um desencontro... Acontece tanto. Não me arrependo de nada do que aconteceu entre a gente. Tivemos nossa chance.

Depois de alguns minutos nos separamos.
Voltei a ler meu livro e sua última pergunta se misturou a uma das frases do escritor poderíamos ter outra chance?

Sorri. Provavelmente, não pensei.