domingo, 28 de dezembro de 2014

Espectro

Talvez seja porque o fim do ano se aproxima - sempre fico sensível nessa época. Talvez seja o calor insuportável que faz lá fora e o tédio que é ficar em casa. Talvez seja só mais um dia em que seu espectro resolveu visitar meu quarto. Talvez não seja nada disso.

Não sei, mas hoje acordei com aquela vontadezinha de você, sabe? A mesma de alguns meses (anos, dias) atrás e que tinha conseguido guardar dentro de alguma caixa de sapato. Estarmos separadas - eu e a vontade - fez o não esperar quase tão real quanto esperar. Quase me fez acreditar que posso ser assim. Essa pessoa que não quer o que mais deseja.

Mas aí, hoje. Alguma coisa, talvez uma rajada forte do ventilador ligado em meu quarto, alguma coisa abriu a caixa de sapato e, então, você. Com a mesma força de costume. E a pergunta que odeio repetir pra mim mesma, mas que vem sem que eu possa impedir: quando?

Tentei me distrair. Li, ouvi música, tentei ver um filme do Woody Allen. Mas depois de alguns minutos de concentração, lá estava você. Entre uma frase e outra do livro, nos acordes da canção, logo atrás do personagem principal do filme.

Voltei a me sentir daquele jeito. Quase havia me esquecido da sensação. Querer fechar a porta do quarto e querer estar com todos ao mesmo tempo. Voltar a me sentir estranha.

Talvez seja saudade. Talvez seja falta. Talvez seja tédio.

Possivelmente é só calor.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Quando não existimos mais

Para ler ouvindo Fall for you | Leela James

Parece que foi ontem. Lembra?

Uma troca de olhares, um sorriso, um “olá” diferente de todos os outros.

Sim, quase outro dia. Séculos atrás.

Nós dois. Sem nome, sem rótulos. Apenas nós dois e isso, que a gente entendia sem poder explicar.

E então, nós nos perdemos.

Em alguma curva ou atalho, nos distraímos e nossos caminhos se desencontraram.

A gente se afastou. Talvez não houvesse outro jeito.
Ainda assim, é estranho passar por você na rua e dar um sorriso insosso, como se fossemos apenas conhecidos. 
Dividimos a mesma cama, compartilhamos sonhos, revelamos frustrações. E agora você atravessa a rua sem olhar pra trás, como se eu fosse uma vizinha sem nome.

A gente se esqueceu. Talvez tenha sido a maneira que encontramos de seguir em frente. Foi a maneira que eu encontrei.
Acreditar que você não está mais dentro de mim, sabendo que está.  Adquirir a habilidade de sentir sem pensar, de lembrar sem sentir, de pensar sem lembrar.

É como olho para você nesse minuto. Com a estranheza de sentir algo velho percorrer um corpo onde não cabe mais.

Você virou a esquina, sumiu de vista.
Fiz o mesmo.

***