sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Letargia

Te olho hoje com os mesmos olhos de ontem. Meu cabelo está bagunçado, não tem mais brilho, assim como meus olhos. Esses, que te olham hoje.

Minha roupa está amarrotada. Detesto roupas amassadas. Mas continuo com ela. Não sei se tem outra no armário. A saia, não reconheço. É preta, de um tecido desconhecido. Meus pés estão apertados em um sapato que nunca vi.

Um gosto da bebida forte e cigarro está em minha boca. Nunca fumei, mas sinto o gosto de cigarro em minha boca. Misturado à sensação amarga da conversa que não sei se tivemos.

Eu te conheço?

Te toco do mesmo jeito que toquei ontem. Entre o ombro e o cotovelo, mas estranho sua pele. Estranho a minha pele.

Seus olhos, familiares e desconhecidos, me examinam. Tentam me reconhecer. Seu cabelo está emaranhado e seu rosto, cansado.  

Olho em volta e percebo que não sei onde estou. Talvez seja minha casa. Nossa casa. Talvez não seja. Reconheço a janela. Parece fazer parte do passado. De algum ponto anterior. Reconheço a porta também. A porta de madeira com um pequeno olho mágico. Ela me lembra futuro. Futuro?

Você toca no meu ombro e me retraio. Solto seu braço e me sinto um pouco melhor.

Eu te conheço?

Sua voz, que não posso escutar, é a única coisa que me faz ter (quase) certeza de que nos conhecemos. Soa como um vestido antigo que cobria meu corpo com perfeição, mas perdeu a forma. Ficou pequeno nos braços, largo demais na cintura. Curto. Detesto vestidos curtos.

Nos encaramos. Você parece triste além de cansado. Me sinto triste, embora tenha esquecido a razão. Desejo um copo de água pra tirar o gosto ruim da boca ou um cigarro pra ver se  viro fumaça. Nunca fumei, já disse isso?

Você. Quem é você? Nos questionamos sem nos ouvir. Estamos bagunçados, confusos, preguiçosos. Preguiçosos demais pra tentar. Tentar o que? A porta.

Penso novamente no copo de água. Desisto.  Não tenho energia pra alcançá-lo.

Nos encaramos mais uma vez e chegamos à mesma muda conclusão.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Duas liberdades


Não precisava ser assim.

Se você tivesse sido sincero desde o início, entende? Se não fosse tão evasivo, se não fugisse tanto disso que nós estamos - ou não - construindo.

Eu não gosto de agir assim. Perder a espontaneidade. Não saber se posso falar, se devo responder ou ficar em silêncio. Ter que avaliar toda hora se você está falando a verdade, se é só mais uma desculpa sua para não me ver quando diz que tem uma reunião de trabalho até tarde.

Detesto ver que você me escreveu e calcular quanto tempo vou te deixar esperando por uma resposta. Eu não sou assim. Mas me fere te responder e você me deixar falando sozinha.

Eu não mereço isso, sabe? Eu sou legal pra caramba. Eu sei que sou. Sou divertida, sou inteligente, sou interessante. E to super na tua. Então, por que você não me respeita?

Podia ser tão legal entre a gente, sabe? Nos damos tão bem. Aquela conversa de sexta-feira foi uma das mais interessantes que já tive...

Mas, eu entendo, você não está no momento. Eu não sou uma opção. 

Já entendi que você não quer nada sério. Tudo bem! Direito seu. Mas faz um favor, então? Me deixa ir embora. Não me procura quando perceber que estou tentando me afastar. Não tenta me fazer rir ou desarmar quando notar que eu não estou mais tão ligada no seu papo. Não diz que está com saudades só pra me fazer esperar por algo que você não quer me dar.

Você quer a sua liberdade. Eu também quero a minha.

Acho melhor pararmos por aqui.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Na janela

Coração acordou assim
Com jeito de quem tem saudade
Olhar perdido na janela
Lembrando o amor que foi embora

Acordou bem jururu
Com vontade do que não sabe
Sabendo que nunca esteve
Estando onde amor não há

Ah, coração
Fica assim não
que lá na esquina da outra rua
Um amor pegou a via mais curta
Pra fazer par à tua solidão.