quinta-feira, 31 de julho de 2014

Violino

Pra ler ouvindo: First time outside | Trilha do filme O Jardim Secreto.

O acorde do violino toca sereno na caixinha de som. Ela sente dentro de si a nota mais aguda. Cortando seu coração. É como tem se sentido. Melodia triste, baixa.
Gostaria de mudar a sintonia, mas não consegue. A melancolia da canção entranhou. Virou parte dela. A dor é infinita e serena. Já não sabe viver sem ela.

Silenciar o violino é silenciar sua voz.

A vontade de chorar lhe toma os olhos e seu peito inunda; sensação agora familiar, sabendo anteceder o desespero.

Acorde.
Profundo.

Corte.
Agudo.

Sorri, feliz em sua tristeza.

A morte está chegando.

Pescador

De longe
Pode escutar
A onda
Dançando
Batida
Irregular
Coração
A navegar
O amor
do pescador
Perdido
Em alto-mar

terça-feira, 29 de julho de 2014

Três estrofes

Sombras banham a travessura
De dois corpos perdidos na rua
Num canto escuro escondidos
Se beijam, se tocam, lascivos
Do alto, a lua inveja solitária
Os vorazes da noite, a avidez necessária
Derrama, assim, em doce cascata
Nos famintos da rua seu choro de prata
Envoltos em si, os amantes
Não percebem que sua união (inebriante)
Traz ao mundo, parco de sim, pleno de não,
Um pouco de amor à vil solidão.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu te amo tanto

Você me abraçou apertado. Sem dizer nada. 

Eu podia sentir seu coração lutando contra seu peito, quase entrando em mim. Um animal acuado, fugindo de seu predador. Sua respiração era acelerada e suas mãos apertavam minhas costas com força. 

Tentei dizer alguma coisa, mas você logo me mandou não falar nada. Seu pedido de silêncio arrepiou minha nuca e meus braços. Então, você começou a dançar comigo. Me arrastando de um lado para o outro. Ouvi seu choro estrangulado.

    Eu te amo tanto 
                meu corpo é prisão    
pequeno demais
              pra tudo isso
Eu te amo
                            tanto

Comprimi seu corpo ainda mais contra o meu. Quis te proteger. Te salvar.

Em vão.

Aquele foi o último dia em que nos vimos.


sábado, 19 de julho de 2014

Mais do mesmo

Já sabia o fim da história
Outro livro
Outro autor
Outras personagens
Mas já sabia o que aconteceria
Era a mesma história
No final.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A falta

Andei pelos cantos. Na calçada, andei perto dos prédios, longe das vias. No trabalho, fiquei calada quase o tempo todo. Naquela festa, sábado à noite, não dancei. Fiquei escondida, na parte mais escura da boate, com um copo de energético na mão. No almoço de domingo fiz jejum. Em casa, apaguei a luz, fechei a porta do quarto, cerrei as cortinas.

De tudo o que eu te dei, você levou a única coisa que eu queria pra mim. 

Pendurei a alma no armário, ao lado dos casacos. Guardei o coração numa caixa de sapato, perto dos álbuns de fotografias. Coloquei na estante as promessas, junto aos livros de poesia. Os planos... Esses tive que jogar fora. Não havia espaço para eles.

Com esforço, fiz faxina na casa. Aspirei as expectativas, passei um pano nos sonhos, varri as possibilidades. Coloquei na estante mais alta da despensa, as lembranças encaixotadas. Lavei os espelhos, esfreguei as paredes, poli o fogão. Quis encerar o chão e limpar as janelas, mas... Estava exausta. Cansa o corpo expurgar os vestígios de ausência,  encher de vazio o próprio vazio.

De tudo o que você me deu, restou apenas o que não ficou.