segunda-feira, 30 de junho de 2014

Verso de pé quebrado

Esse verso de pé quebrado
Só tem um intento (coitado)
Dizer que desde que te perdeu
Ficou assim: Eurídice sem Orfeu


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Do lado de fora

Pra ler ouvindo: Norwegian wood | The Beatles

Eu queria que você fosse além das flores.

Que fosse até o balanço do quintal, onde eu sentava pra ler, pra esconder as pontas dos dedos na terra e pra pensar na vida.

Eu queria que entrasse em casa. Conhecesse meu quarto, meu armário, meus livros. Que sentasse na cama e tocasse meu violão.

Queria que visse meus cadernos, minhas poesias, minhas orações.  Que lesse mais do que as palavras. Que deslizasse pelas entrelinhas, desvendasse o não dito, descobrisse a respiração de cada vírgula.

Eu queria te oferecer um copo de coca-cola, de água, de paixão. E um prato cheio de possibilidades.

Eu queria que tirasse os sapatos. Ficasse descalço. Se sentisse em casa.

Mas você não quis.

Eu quis ir além do seu jardim.

Quis ser convidada pra entrar, passar pela sala de estar, pela cozinha, pelo quarto. Quis conhecer a textura do sofá, as cobertas da sua cama, o conteúdo da sua geladeira. Quis ouvir seus CDs, ler seus textos, usar aquela sua camisa azul surrada pra dormir.

Eu quis fazer um piquenique à luz de velas no chão da sua sala. Passar o domingo vendo sua série preferida, ouvindo aquela banda que você adora.

Quis saber se você arruma a cama depois de acordar, se tem manias antes de dormir, se guarda bonecos de super-heróis na estante do quarto.

Eu quis entrar de mansinho no seu porão. Passar o dedo na poeira e ver o brilho do que tem por debaixo do pó.

Mas nós nunca passamos do portão.

Você não aceitou quando te chamei pra entrar. E nunca houve um convite seu.

De todas as cores à nossa disposição, nos restou a cor do pavimento. Da calçada. Do lado de fora.

No seu mundo não havia espaço para o meu.

Então, eu fiz o que devia fazer.

Fui embora.

****
"And when I awoke,
I was alone,
This bird has flown..."






quarta-feira, 25 de junho de 2014

Dançando na chuva

A primeira gota caiu em seu cabelo e ela olhou para o céu. Como pedacinhos de estrelas, os pingos grossos salpicaram seu rosto.

Sorriu e abriu os braços. Logo estava às gargalhadas. Feliz como há muito tempo não se sentia. Seu corpo agora todo molhado. O vento que batia, gelado, fazia seus pelos do braço se arrepiarem.

Como toda alma contente, procurou com quem dividir sua alegria. Mas por todos os lados, só água. Apenas a correnteza arrastando pessoas apressadas, sérias demais para apreciar a importância de um banho de chuva.

Como louca, dançou sozinha.

Deixando a chuva lavar seu espírito, seu corpo, seus pensamentos. Trazer nova esperança, novos sonhos, nova vida.

Algumas crianças, sábias como só elas, fugiram ao controle de seus pais e foram dançar também. Risadas e brincadeiras por todo o ar. Até que os adultos, muito sensatos, muito organizados, muito sérios, vinham arrancá-las à força da diversão para que não ficassem gripadas.

E, de repente, ele.

Não sabe quando começaram a dançar juntos. Nem como não notou que estavam de mãos dadas. Não sabe porque achou seus olhos tão familiares e aquecidos. Nem como...

Sorriram um para o outro enquanto a chuva unia seus corações.

Entrelaçaram os dedos encharcados e quentes.

Aproximaram-se como se o tempo não existisse.

Olharam-se nos olhos como se aquela fosse a única paisagem possível.

Abraçaram-se como amantes de longa data.

E, por um segundo, o mundo era só deles. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Fica mais um pouco

Pra ler ouvindo:  New Morning | Bob Dylan


Fica mais um pouco. O dia já tá quase nascendo e a noite... foi tão boa, não foi?
E daí se temos que trabalhar? Diz que acordou passando mal, eu vou fazer o mesmo.
Desliguei o despertador ontem antes de sair. Você sabe, eu sempre tenho segundas intenções quando saio com você. 
Não, eu não sou espertinha, espertinho. Não planejei nada disso. Só... torci pra que acontecesse.
Você também?
Então... Vamos ficar juntos mais algumas horas, dias, meses. Vamos estender a eternidade pelo tempo que der.

Sua camisa? Não sei, deve estar jogada em algum lugar do quarto, da sala, do corredor. 
Foi uma loucura mesmo. Só de lembrar...
Esquece a camisa. Vamos vestir a nudez. Vamos viver nus. 
Hem... vem aqui. Chega mais perto, deixa eu sentir teu cheiro mais uma vez. 
Você tem mesmo que ir?
O tempo não existe. Tudo o que temos é agora.
Olha, os primeiros raios começaram a invadir o quarto. Tá vendo? Essa linha rosa que ilumina o pedacinho dos nossos pés que escapou ao cobertor?
Isso, adoro quando você descansa a mão na minha cintura.
Tá ouvindo? São os carros. São as pessoas, no piloto automático, fazendo o que deveriam estar fazendo.
Elas não têm a nossa sorte.
Não, não quero abrir os olhos. Assim parece que eu continuo sonhando com a gente.
Ei! Você sabe que esse é meu ponto fraco. Sua barba roçando meu pescoço me arrepia. É, eu sei que você gosta da minha respiração quente na sua nuca.
Assim não resistimos.
Você vai acabar perdendo a hora.
O sol alcançou meu rosto e o seu cabelo. Tá mesmo um dia perfeito pra ficar assim, não tá?
Também to com fome. O café não tá pronto... Você vai ficar?
Hum... a barba de novo.
Desculpa, não posso evitar o sorriso.

****
"The night passed away so quickly
It always does when you're with me..."


E tudo que ela faz

Pra ler ouvindo: Que Maravilha | Toquinho

O frio entra pela janela
E tudo que ela faz
É pensar em você

O céu vai escurecendo
Anuncia chuva forte
E tudo que ela faz
É pensar em você

O filme que gostava
Quando era criança
Está passando na TV
E tudo que ela faz
É pensar em você

Ela escuta uma música
Linda e triste
E tudo que ela faz
É pensar em você

A chuva começa a cair
Os pingos batem na janela
E tudo que ela faz
É pensar em você

Ela sai de casa
Vai tomar banho na chuva
Seu cabelo está encharcado
Sua roupa gruda em seu corpo
As pessoas passam
Guarda-chuvas cheios de pressa
Dançando com a água
Se deixa lavar
E tudo que ela faz
É pensar em você

Você, meu amigo,
É um cara de sorte.

E a chuva ainda está caindo
E ela ainda está dançando

Sozinha

Vai deixar?

****
"Lá fora está chovendo
Mas assim mesmo eu vou correndo
Só pra ver o meu amor..."







quarta-feira, 18 de junho de 2014

Um segundo de eternidade

Uma vez eu conheci um garoto em um samba na Lapa. 

Nos esbarramos na fila do bar. Ele com três garrafas de cerveja nas mãos e um sorriso travesso no rosto. Eu de vestido tomara-que-caia, sandália de dedo e uma flor no cabelo.

Ele pisou sem querer no meu pé e eu disse que só aceitaria suas desculpas se me desse um gole da cerveja. Ele me deu um copo e ficou surpreso quando eu o virei de uma só vez. Rimos.

Alguns de seus amigos vieram resgatar as garrafas, enquanto nós encontrávamos assuntos demais para simplesmente nos afastarmos.

Naquela noite, ele me contou sobre seus medos e seus sonhos.  Contou sobre algumas viagens e sobre seu intercâmbio nos EUA. Falou da saudade que sentia da mãe e de como amava samba.

Depois de alguns minutos conversando, eu disse: "me beija".

A eletricidade do ar envolvia nossos corpos, fazia nossos braços se arrepiarem, acelerava nossos batimentos em ritmo descompassado.

Um segundo de eternidade.

E bastava.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Agridoce

Pra ler ouvindo: Without Words | Ray Lamontagne

Percebeu que sentia falta de sentir falta e achou curioso. Era estranho procurar aquele sentimento visceral, desesperador, e não o encontrar. Vasculhar cada memória e não esbarrar nele.

Era como persistir em uma jornada com um único objetivo e, ao alcançá-lo, não saber o que fazer com o prêmio.

Aceitar. Entender. Deixar pra trás. Lutara muito por tudo aquilo, de verdade, e agora que tinha conseguido, felicidade não era, exatamente, a sensação.

Ainda havia resquícios, claro. Um gosto amargo no fundo da garganta. Não conseguia prever se ele também sumiria um dia. Talvez não quisesse que ele sumisse. Talvez aquela fosse a única prova de que o passado havia acontecido, de que não fora apenas... ilusão.

Era como se despedir de um amigo. Cruel, sem dúvida. Mas presente há tanto tempo que tornara-se parte dela. Desistir dele era desistir dela. De parte dela. Era abandonar um pedaço seu que, de alguma maneira, deixou de faltar e passou a sobrar.

Sentia-se leve, no entanto. Como há muito tempo não se sentia.

Era como estar sozinha na estrada, com as janelas do carro abertas, deixando o vento bagunçar seu cabelo. O rádio ligado em uma estação qualquer, tocando alguma canção folk. Sua alma, finalmente, deixando-se dançar novamente.

O adeus era agridoce.

****
"I can hear the morning birds
Light upon the branches
And each in turn
Sing of all God's praises
Without words..."





segunda-feira, 16 de junho de 2014

Quadra 6

Direita ou esquerda
Não sabe pra onde ir
Uma escolha, uma perda
Não há como dividir

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Dia dos namorados

A todos meus amigos
Que tem a sorte de um benzinho
Que o Dia dos Namorados
Seja cheio de beijinhos!
E pra quem está sozinho
Não se zangue de estar solteiro
Que amanhã é só rezar
Pra Santo Antonio casamenteiro!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Carnaval

No peito ele balança
Bateria de escola de samba
Descompasso, contradança
Passista, 
          mestre-sala,  
                            bamba

No ritmo acelerado
Cadência
             de
                 arritmia 
Samba só apaixonado 
Festejando a boemia

No quesito evolução
Cur
       va-se à porta-bandeira
Sorri  enredo e canção
Seu samba de quarta-feira

Na avenida desfilando
Segue sem alegoria
                 no alto
Estandarte             vibrando
Samba sem harmonia

No Carnaval um coração
Samba     sa    na    do
          de     fi     
Canta assim a Solidão
O malandro abandonado


sábado, 7 de junho de 2014

Eu te amo

Pra ler ouvindo: Brighter than sunshine | Aqualung

Eu lembro daquele dia. Sorri pra você e coloquei o cabelo atrás da orelha. Você nem sabia, mas aquele gesto - colocar uma mecha inconveniente suavemente atrás da orelha, baixar o olhar e sorrir - era um sinal grandioso.

Depois que nos conhecemos, nunca mais consegui ler uma página de um livro inteira. Não sem, no meio de uma frase ou outra, me pegar divagando sobre você e o nosso último encontro.

Depois de você, as poesias se transformaram. Passei a entendê-las com um coração preenchido, não somente com uma alma sonhadora.

Quando cantei pra você aquela música que sempre me fazia pensar em nós dois, me senti como uma menina de novo, na frente da escola inteira, tendo que recitar um poema de cor.

E você sorriu. 

Eu não tinha terminado de cantar. Não tinha nem chegado no refrão.

E você sorriu.

Eu achava que sabia descrever todos os sentimentos. Naquele dia, soube que não.

Até que teve aquela noite. Aquela, lembra?

A gente deitado, um de frente pro outro, tendo como luz apenas um raio de luar e como roupa apenas o lençol.

Estávamos calados há um tempo. Eu mexia displicentemente no seu cabelo, enquanto você me olhava com firmeza nos olhos.

E, então, você disse.

Três palavras.
Dois segundos.
Uma vida esperando por aquele momento.

Sabe felicidade?

Eu não sabia até ali.

Quando respondi, nós sorrimos juntos e nos abraçamos. Lembra?

Claro que sim.

Afinal, é como diz a nossa música, aquela que eu cantei pra você: "I'm yours and suddenly you're mine. And It's brighter than sunshine".

****
"Love will remain a mystery
But give me your hand and you will see
Your heart is keeping time with me..."





quarta-feira, 4 de junho de 2014

Lição

Flor despetalada
Esmorece ilusão
Sobrevive na calçada
Soluço na contramão
Entre passos e pegadas
Luta só com a solidão
Às vezes, desesperada
Chora aflito o coração
Ou talvez não seja nada
Só da vida uma lição.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Valsa das estrelas

Pra ler ouvindo: Melodia Sentimental | Heitor Villa-Lobos

Pétalas de estrelas
Flutuam pelo ar
Dançam para ela
Cansada de esperar

Olhar valsa pelo céu
Tira a Lua pra dançar
Veste o corpo universo
Se esquece de esperar

Sozinha está completa
Galáxia desbravar
Cabe inteira dentro dela
Não há mais o que esperar

Na colheita das estrelas
Rega a flor outra semente
Não sabia escondê-la
Nova vida tão latente

****
"Acorda vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar..."