sábado, 31 de maio de 2014

Recordações

Ainda ouço você aqui dentro. Ainda sinto seu cheiro e percebo seus gestos.
Ainda penso em vc e lembro daqueles dias.
E sorrio toda vez que você visita meus sonhos, minhas conversas, meus cadernos.

Ainda me pego querendo reviver aquilo. Sentir de novo nossos corpos se tocando.
E olho para o presente que você me deu cheia de suspiros.

Nos momentos de lucidez, luto pra não mergulhar de vez na fantasia.
Tornar o conto poesia.
E viver de saudade.

Sa  u
              da
        de

Como o vento batendo no cabelo, roçando a pele, arrepiando a nuca.

Sa     u
    da 
            de

Foi perfeito.
Mas podíamos ter tido mais tempo.
E vinho.


sábado, 24 de maio de 2014

Hoje eu acordei assim

Hoje eu acordei assim.  Com aquela tristeza que há muito não sentia. Que há tempos tinha conseguido embotar, esconder, disfarçar dentro de mim em algum lugar inalcançável. Hoje ela escapou. Encontrou uma brecha na alma, um espaço no coração, um abrigo no peito.

Voltei a pensar em você. Depois de tanto tempo, voltei a chorar. Quebrei todas as minhas promessas de não falar, lembrar ou escrever sobre você. 

Você. 

Que tão facilmente seguiu em frente. 

Hoje eu acordei querendo voltar no tempo, não ter te conhecido. Querendo esquecer os maus e, principalmente, os bons momentos. Mas até o rádio tocou aquela música que tem seu cheiro, afogando meu espírito na falta de ar.

Chorei.

Hoje foi difícil levantar da cama. Esbarrar com seu fantasma pairando sobre os móveis da casa, nas janelas dos prédios, nas pessoas que passavam. Foi como nos velhos tempos. Aqueles em que a tua ausência sobrava por todos os cantos. 

Me olhei no espelho e encarei olhos magoados, fazendo companhia em par à solidão. Reflexo de sentimentos que julgava não ter mais. 

Ilusão.

Hoje acordei querendo dormir. Dormir até o mês que vem. Até tudo isso sair de mim de vez. Até tudo isso acabar. Implorei a um ser invisível que me salvasse de você.

De mim.

Hoje eu acordei assim. 

domingo, 18 de maio de 2014

Vagalumes

Pra ler ouvindo: Vagalumes Cegos | Cícero

Passei muito tempo
Procurando vagalumes
E foi quando caí no sono
Cansado e sereno
Que os vagalumes
Me encontraram

****
"Nem sei
Dessa gente toda
Dessa pressa tanta
Desses dias cheios"



Ainda bem

Me protegi de você
Fiz tudo o que pude
Me escondi atrás da porta
Mudei de calçada
Fingi não te ver
Tentei te ignorar
Fazer vista grossa
Me fazer de surda e muda
E quando você me olhou
Desviei o olhar
Quase consegui escapar
Sair pela tangente
Descer pelo elevador de serviço
Sair pela porta de trás

Mas você não desistiu
Abriu a porta
Atravessou a rua
Chamou minha atenção
Gritou meu nome
E quando desviei o olhar
Gritou mais alto
Tentei não me apaixonar
Lutei pra não me envolver
Menti pra mim e pra você
Mas você não desistiu

Ainda bem

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Três dias

Pra ler ouvindo: Sempre nãé todo dia | Oswaldo Montenegro

A vida acontece. Acontece quando menos se espera.
Acontece numa noite fria, num café no centro do Rio, numa conversa despretensiosa com alguém que se acabou de conhecer.

A vida escorre.
Escorre numa troca de olhares, numa troca de sorrisos tímidos e ansiosos, numa abordagem inusitada que não se sabia ter coragem pra tomar.

A vida surpreende.
Surpreende quando se conhece um lugar que só se idealizava, com uma pessoa que só se tem uma ideia, com uma identificação rara.

A vida é brilho.
O brilho do sol que se põe em nossos olhos, da noite que traz uma aventura, da promessa do próximo encontro.

A vida é música.
É Oswaldo Montenegro tocando baixinho, na penumbra de um quarto, com cheiro de vinho e lençóis desarrumados.

A vida é andar de mãos dadas.
Numa rua da zona sul carioca, sem esperar por nada, sem querer que o amanhã chegue.

A vida dá sinais.
Sinais de que basta se estar aberto para que ela entre e sente na sala de estar. 
 
A vida é deixar acontecer.
Enfim, deixei.

****
"Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
Eu acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia..."




sábado, 10 de maio de 2014

Mãe


Eu conheço mãe que chora, mãe que segura o choro, mãe que enxuga as lágrimas.
Eu conheço mãe que dá bronca, que dá dinheiro, que dá colo.
Eu conheço mãe que finge que não sabe, que não viu, que não faz ideia.
Eu conheço mãe que é amiga, que é porto seguro, que é pai.
Eu conheço mãe que bebe junto, que vai pra night, que dá dicas sobre sexo.
Eu conheço mãe de primeira viagem, mãe adolescente, mãe depois dos 40.

Eu tenho uma mãe que é incrível. Que venceu um câncer, que segurou a onda, que chorou escondido. Eu tenho uma mãe que é fortaleza e obstinação. Que odeia tirar fotos, infelizmente, e por isso, vai uma das fotos antigas dela de que mais gosto.

Eu tenho uma mãe que, como toda mãe, é pura e simplesmente amor.




segunda-feira, 5 de maio de 2014

Querido,

Essa carta nasceu antes de você aparecer.

Nasceu dos sonhos de uma menina romântica, com mãos de poeta e alma de escritora.  Nasceu da espera interminável e da resignação de que esse dia jamais chegaria.

Essa carta nasceu das decepções. Dolorosas, cortantes, profundas. Nasceu da tristeza de um não após o outro. Do momento sempre errado, da hora sempre equivocada, de um coração partido em pedaços.

Nasceu antes de eu acreditar que alguém como você apareceria. Do aperto na garganta que sufocava toda esperança. Da solidão que parecia infinita.

Essa carta é para você que me deu uma chance. Que viu em mim o amor que eu poderia dar e o aceitou. É pra você que quis me dar o mesmo amor. Que me escolheu entre tantas opções e acreditou em nós.

Que acreditou em mim. Logo em mim! Que em muitas conversas com amigos e amigas pacientes repetiu incansavelmente que jamais seria amada ou amaria. Que tinha certeza absoluta de que a felicidade de ser correspondido no amor era sorte alheia.

Essa carta é pra dizer que eu, que ainda nem te conheço, sei que posso te amar com todo meu coração. Que posso me doar da maneira mais pura e fiel. Que posso ouvir seus planos, dividir os meus e que podemos criar novos em conjunto.

É pra dizer que só eu sei como me sinto agora. Diante, não de uma possibilidade, mas de uma realidade. Diante do sim, finalmente. Sonhando e vivendo ou vivendo e sonhando... Tanto faz.

Essa carta nasceu quando parei de esperar, enfim. Quando cansei de ilusões e de histórias inventadas. Quando percebi que olhar a sorte dos outros era deixar de ver a minha própria.

E foi aí que você surgiu.

Essa carta, que nasceu uma vida antes de você aparecer, é um desejo. Um desejo de que nós dois sejamos realmente felizes juntos. E que a eternidade seja vivida um dia de cada vez.

Com amor.


sábado, 3 de maio de 2014

Da janela

Os carros passavam lá embaixo, com seu zumbido metálico. O sol não tinha saído naquele dia, tinha escolhido ficar escondido entre as nuvens cinzas que anunciavam chuva. O vento frio fazia seu cabelo dançar com leveza, enquanto seus olhos mergulhavam em pensamentos.

Imaginava o que as pessoas que passavam lá embaixo sentiam. Tentava desvendar em seus olhares, sorrisos  e gestos como estariam suas almas. 

Uma menina caminhava de mãos dadas com um rapaz. Seriam namorados? Podia ver que ela olhava para ele encantada, com olhos derretidos e um sorriso iluminado. Ele, por outro lado, parecia displicente. Toda vez que a menina lhe falava algo, sacudia a cabeça, olhava para o lado e respondia com uma frase curta. A garota não percebia, ou fingia não notar, mas o rapaz não a ouvia. Tudo na rua lhe parecia mais interessante do que ela.

Sentiu-se triste subitamente. Colocou-se em seu lugar e imaginou o dia em que ela descobriria a verdade. O dia em que notaria que ela não era para ele o que ele era para ela. Colocou-se em seu lugar e imaginou como seria para ela descobrir que ele estava se divertindo enquanto ela ficava em casa se perguntando o que devia fazer com aquela angústia por não saber o que seria dos dois. Como seria descobrir que ele saia com outras...

Tentou se livrar de tais pensamentos porque teve vontade de chorar e não queria se sentir tão pessimista. Talvez o rapaz fosse apenas distraído. E nem todas as histórias eram iguais.

Então, decidiu olhar por outro ângulo. Aquele em que podia ver nos olhos dela a felicidade por estar com ele. Em que podia ver que ela vivia um momento inesquecível, não importava o que viria dali pra frente.

Sentiu-se feliz quando notou o menino se inclinar para beijá-la e desejou, com toda sinceridade, que nenhum coração fosse partido.

Saiu da janela para que aquela fosse a última imagem dos dois. Era bom começar o dia com um pouco de esperança.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pedaço de papel

Não era só imagem
Era aroma
Não era só aroma
Era sabor
Não era só sabor
Era canção

Parecia pequeno
Era enorme
Tomava pouco espaço
Era Universo
Não falava
Dizia

Era fragmento
Parte do todo
Era todo ainda assim
O sorriso dela

Não era só alegria
Era felicidade
Não era só risada
Era orquestra
Não era só um sorriso
Era o de Gabriela

Um pedaço de papel
Eram possibilidades
Poesia já nascida
Esperando ser escrita