terça-feira, 29 de abril de 2014

Paz

Ouvira em algum lugar, há muito tempo, que os maiores problemas da vida não são aqueles com os quais vivemos nos preocupando e sim os que aparecem numa terça-feira chuvosa, enquanto mascamos um chiclete.

Ouvindo sua canção favorita, não conseguia parar de pensar em como a afirmação estava correta. Lembrou que estava conversando com uma amiga quando ligaram para avisar que sua avó tinha morrido, anos antes. E que voltava da faculdade quando soube que seu pai estava no hospital por causa do coração.  Que tinha acabado de chegar do trabalho quando encontrou sua irmã chorando para contar que sua mãe estava doente.

Por isso, não era a primeira vez que o medo e a tristeza invadiam sua vida. Não era, nem de longe, a primeira vez que fazia do travesseiro seu amigo mais fiel.

Em algum lugar de sua memória, no entanto, uma esperança se guardava. E ela podia quase tocá-la ao olhar, pela janela, o novo dia que nascia.

Afinal, sempre haveria dança
música
cinema
livros
Sempre haveria um lugar pra fugir
Ou uma cama pra voltar
Um amigo pra levantar
E fazer sorrir
Sempre haveria um solo de guitarra
Pra ouvir
Um solo de piano 
Pra tocar
Um dedilhado no violão
Pra estudar
Afinal, sempre haveria poesia
E onde há poesia
Há paz.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cama

Colocou a mala no chão e sentiu-se esquisita. A cama estava como deixara. Colcha de retalhos, almofadas, travesseiros.

Atrás de si, dias inesquecíveis.

Sentia saudade. Do lugar, do calor, do suor, dos lençóis.

Mas era bom olhar sua cama.

Deixar a aventura de transgredir a rotina e colocar os pés de novo no chão familiar, seguro e  conhecido.

Sentia saudade e voltaria se pudesse. Sentia saudade e teria ficado mais tempo. Sentia saudade e deixaria os insetos voltarem a picar suas pernas e braços porque sabia que aquele era o pequeno preço a pagar para chegar perto das borboletas.

Mas era bom olhar sua cama.

A saudade era gostosa e não triste. A saudade era o álbum de fotografia que só sua mente podia guardar. Eram os sabores que só seu paladar podia sentir. A sensação da água arrepiando sua nuca que só sua pele podia experimentar. A saudade era o céu estrelado que, ao fechar os olhos, podia ver, sentindo o vento bater em seu rosto.

Mas era bom estar de volta.

Porque nada é para sempre, exceto a saudade - linha imaginária, jeito mais humano que temos de nos aproximar da eternidade.

E sua cama estava ali, à espera.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Música

Pra ler ouvindo:  Mad World | Tears For Fears

Têm dias
que só a música
Só ela
Pra acalmar a alma
Aquecer o espírito
Sossegar o coração
E tornar a espera
Tranquila

***
"I find it hard to tell you,
I find it hard to take
When people run in circles it's a very, very
Mad world..."





terça-feira, 15 de abril de 2014

Eu queria encontrar alguém

Pra ler ouvindo: San Antonio Fading | Noah Gundersen

Eu queria encontrar alguém
Que, só por curiosidade,
Se aproximasse de mim
Quisesse saber
O livro que estou lendo
E me perguntasse sobre ele
Que me chamasse pra ir ao cinema
Pra saber que tipo de filme eu gosto
Se choro vendo um drama
Uma comédia romântica
O quanto me divirto
Com as ficções científicas
Que depois do cinema
Me levasse pra Mureta da Urca
Dividindo comigo
Uma vontade velada
De trocar o primeiro beijo
Eu queria encontrar alguém
Que, passada a novidade,
Escolhesse continuar
E ainda quisesse saber
Minha cor preferida
Minha música favorita
Em qual hora do dia
Fico mais vulnerável
Eu queria encontrar alguém
Que quisesse compartilhar
Suas nuances
Seus desejos
Seus segredos
Que visse poesia na vida
E nessa poesia
Encontrasse em mim
Alguns versos perdidos
Eu queria encontrar alguém
Sem medo de se entregar
Que não visse uma ameaça
Em cada demonstração de carinho
Que não fizesse de suas cicatrizes
Uma desculpa
Que decidisse curtir a vida
Ao lado de uma mulher
De quem realmente goste
Não com várias
Uma noite por dia
Que não visse nessa decisão
Uma prisão
Mas uma liberdade de escolha
Que poucos têm
Coragem pra tomar
Eu queria encontrar alguém
Que me deixasse chegar perto
E não dissesse
"O problema não é você"
"Preciso de tempo"
"Você seria perfeita"
"Em outro momento"
Porque o outro momento
É só uma ideia
Eu queria encontrar alguém
Que me fizesse acreditar que é possível
Que preferisse
Apostar na incerteza do futuro
A permanecer agarrado
A segurança do presente
Eu queria muito encontrar alguém
Que estivesse cansado
Cansado de pessoas vazias
E sentimentos rasos
De diversões passageiras
E da busca infinita
Por uma felicidade mágica
Sem sofrimento
E, para que assim seja,
Sem entrega
E sem entrega
Sem vínculos
E sem vínculos
Sem paixão
E sem paixão
Sem amor

***
 "but it's not that the love is missing
it's just not around..."






domingo, 13 de abril de 2014

Primeiro encontro

Se arrumou. Sorria olhando para sua imagem no espelho. Não costumava se achar bonita, mas achou que, talvez, as possibilidades tivessem deixado tudo mais harmonioso em seu rosto.

O cabelo estava daquele jeito meio bagunçado, que raríssimas vezes ela acertava. A maquiagem era leve, porque não queria parecer muito ansiosa. O vestido era simples, mas bonito. Curto, mas não muito.

Procurou aquele nervosismo que sempre experimentou nos poucos "primeiros encontros" que tivera, mas não o encontrou. Sentia-se estranhamente segura.

Encarando sua imagem, pensou que pela primeira vez não se importava com o final da história. Pela primeira vez, ela só queria ser.

E sentiu na boca o gosto de uma sensação desconhecida até então: coragem.

Não havia medo temperado de reservas. Só a vontade de deixá-lo se aproximar o quanto ele quisesse. E de se aproximar o quanto ele permitisse.

Naquele breve momento na frente do espelho, ela sentia que tudo era possível.

Quando saiu do quarto, rumo ao primeiro encontro, ainda sorria. E quem observasse com um pouco mais de atenção, veria que seus olhos dançavam.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Mar

Pra ler ouvindo: Loneliness | Trilha do filme ELA

O sol bateu nos olhos dele e ele sorriu. O barulho do mar lhe dava a tranquilidade de que tanto precisava, embora só agora, ao ouvir as ondas quebrando na areia, notasse isso. 

Podia ver o fantasma dela dançando com ele bem ali, sobre a água. Podia escutar sua risada mais uma vez e encarar olhos que diziam, melhor do que qualquer palavra, eu amo você.  Riu quando a largou e uma onda traiçoeira a fez cair.

Sentiu um sopro de tristeza quando viu seu próprio fantasma ajudando-a a se levantar com delicadeza e a guardando em um abraço carinhoso, sob a proteção de um beijo suave no rosto.

Ondas quebrando em seus pés, vento batendo em seus corpos,  pôr do sol colorindo seus cabelos.

Podia sentir.

Mesmo tanto tempo depois.

Podia sentir.

Depois de palavras mais duras do que concreto. Mais devastadoras do que qualquer doença.

Podia sentir. 

Sentir que ainda a amava, mesmo sem paixão. Que ainda a queria bem, mesmo quando não a queria por perto. Que sentia saudade dela, de uma outra ela. Que sentia saudade dele, de um antigo ele.

Não pôde, e nem o faria se pudesse, evitar uma lágrima sorrateira que lhe escapou e deixou uma marca perfeitamente redonda na areia, molhando um sorriso no meio do caminho. Porque nem a vontade de chorar lhe arrancava a vontade de sorrir ao ver seus corpos diáfanos, frágeis, inexistentes ainda abraçados sobre o mar.

Porque naquele breve devaneio, a Solidão saía de seu coração e  descansava em algum barco atracado ali por perto. Enquanto contemplava o passado dançando graciosamente à sua frente, a melancolia tornava-se confortável. O desespero sumia quase por completo. E ele experimentava uma sensação há muito esquecida... Felicidade? Plenitude?

Amor?

Agora era quase noite. Seus fantasmas sumiam lentamente, junto com a luz do sol. O céu escurecia, mudando a matiz de sua alma. A Solidão levantava-se calmamente do barco. Caminhava tranquilamente em sua direção.

Mas, naquele minuto, ele ainda sorria. 
Ainda chorava.
Ainda sentia

***


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Um dia, pra sempre

Pra ler ouvindo: Yes and nothing less | Tiago Iorc

Um dia, você vai esbarrar com ela. Vai sorrir do seu jeito mais sedutor e ser pego de assalto por uma faísca flamejante quando ela sorrir de volta.

Tímida, ela vai desviar o olhar, com medo que você consiga ler em seus olhos o descompasso de seu coração.

Um frisson de um segundo. 

E então, seu passatempo preferido será encontrar o que te deixa tão fascinado por ela. Tentar desvendar no brilho de seu olhar, aquele que traiçoeiramente te laçou. Entender por que mesmo quando ela te irrita terrivelmente, você continua querendo vê-la. Por que o futebol de quarta já não é mais tão interessante ou por que estar deitado ao lado dela, só deitado mesmo, é tão melhor do que era com todas as outras.

E por mais que tente, você nunca vai descobrir em qual curva do sorriso dela você se distraiu e se deixou apaixonar.

Um dia, você vai dizer que a ama. Vai fazer juras que nunca imaginou. Vai fazer planos.

Quando se der conta, estará de mãos dadas com ela, caminhando em uma via pública do Rio de Janeiro, vendo nas luzes da cidade milhares de possibilidades. Encontrando na lentidão do trânsito carioca, a oportunidade perfeita de estar com ela por mais alguns minutos. 

E, sem resistência, se abrirá. Deixará escorrer segredos entre as conversas, compartilhará sonhos íntimos, se sentirá à vontade para declarar suas vulnerabilidades e medos. Porque o medo maior, aquele de sofrer, de ter seu coração partido, já não existe mais.

Um dia, você flagrará a si mesmo perguntando-se se deve convidá-la para morar com você. Se não é um passo muito grande, se está mesmo preparado. E vai perceber que sim, está. Que se existe alguém com quem você estaria disposto a seguir adiante, não poderia ser com outra além dela.

E vai se ver planejando a maneira ideal de fazer o convite e, pior, nervoso por não saber a resposta. 

Um dia, vocês estarão sentados em um banco de madeira, perdidos em algum jardim.  Você vai olhar para ela, enquanto ela contempla um pássaro ou uma folha numa árvore, e vai sorrir.

Feliz.

Não por tê-la escolhido, mas por ter sido a escolha dela.

Um dia, o "pra sempre" não vai lhe parecer tolo nem impossível. Porque você terá entendido que a eternidade é todo dia. 

Cada dia ao lado dela.

Um dia, quem sabe?, eu esbarre em alguém também.

***
"Tell me, tell me a secret
And i will share some of mine
My steps led to your doorsteps
Your doorsteps soon became mine"



Até

Já que nossa estrada
Em duas se partiu
Jogo um beijo, digo adeus
E vá a...
                                           ...trás dos sonhos teus!

terça-feira, 8 de abril de 2014

Nirvana

Pra ler ouvindo: Breathe | Pink Floyd

Ele baixou a luz do único abajur que iluminava a sala, deixando o ambiente soturno. Ela dançou sozinha, na frente dele. Fechou os olhos e deixou a melodia arrastada entrar pelo seu corpo. Embalar suas pernas e braços, ainda cobertos com o vestido de tecido fino.

Luz e sombra.

Dançavam com ela. Dentro e fora. Uma só matéria. 

O tempo sumia a cada nova frase da canção que tocava ao fundo. Baixa, sexy, irresistível.

Sentia-se eterna.

As mãos dele, por trás, começaram a desamarrar o laço que prendia o vestido ao seu corpo e nem assim ela voltou a sentir-se terrena. Uma onda subiu sua espinha enquanto o vestido escorria até o chão. Seus corpos se uniram. Costas e tórax. De um lado pro outro.

E a música.

"Breathe, breathe in the air... Don't be afraid to care"

Ele colocou as mãos em seus seios nus. E ela ofereceu o pescoço para que ele beijasse.

Abriu os olhos e viu estrelas no teto branco. O Universo tornava-se possível, do tamanho exato do que tomara minutos antes.

Desceu a mão dele em direção a sua cintura e deixou que ele descobrisse o resto do caminho. 

"Run, rabbit, run... Dig that hole, forget the sun"

Viu flores azuis nascerem sob seus pés e pontos de luz vermelha flutuarem por todo o ambiente.   Virou-se para ele. Sorriram entre espasmos de prazer e sensuais acordes de guitarra. 

"For long you live and high you fly... But only if you ride the tide"

Abraçaram-se nus. Bocas exploradoras, mãos desbravadoras. 

Por 
cada
canto
de seus corpos.

"And balanced on the biggest wave... You race towards an early grave "

Poderiam morrer. Poderiam deixar de existir bem naquele segundo.

O Nirvana eram eles. Aquela sala.

E a música.

****

"Breathe, breathe in the air
Don't be afraid to care
Leave, but don't leave me
Look around and choose your own ground"



segunda-feira, 7 de abril de 2014

Reprise

Pra ler ouvindo: Look what you've done | Jet

Percebeu que não era errado se sentir daquele jeito. Não se tudo que estava adormecido há tempos fora desperto sem que conseguisse oferecer resistência. Percebeu que não era culpa sua, não totalmente, se tinham remexido no que escondera tão bem dentro dela.

Entendeu que o tempo que os separava já não era mais tão longo. Que fora condensado.

Chorou porque não sabia lidar com a saudade. Não com aquela saudade. Não, de novo.

E escreveu. Porque era a única maneira de transformá-la em beleza.

Parou de lutar. Deixou a tristeza tocá-la mais uma vez.

Uma última vez.

****

"'Cause all that's left has gone away
And there's nothing there for you to prove..."


Quadra 5

Uma notícia sua
Era tudo que queria
Você por trás de um nome
Alguém que existia

Razão

Olhou para trás
E tudo que viu
Era lembrança
Olhou mais
Tentou encontrar
Aquela dança
Procurou
Em vão
Um coração
Baixou os olhos
Sentiu-se fria
Não lembrou
por que sofria.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Mais perto

- Você é linda - ele disse recostado na outra ponta do sofá.
- Você acha?
Ele sorriu.
- Então por que não vem pra mais perto?
Ele se aproximou.
- Está bom aqui? - perguntou travesso.
Ela negou.
Ele se aproximou mais um pouco.
- Melhor?
- Melhor - ela disse inclinando a cabeça, esperando o beijo.
Sem decepcioná-la, ele a beijou. Uma mão em seu cabelo, outra mão em sua perna.
A mão dela viajou pela nuca dele, subindo para o cabelo baixo e macio que ela tanto adorava.
Dando uma trégua para respirarem, ele mergulhou o rosto no pescoço dela  enquanto ela sentia arrepios com o roçar de sua barba perto do ouvido.
A mão dele subiu perigosamente por sua perna e a dela desceu ávida pelo tórax dele.
Corações descompassados no mesmo ritmo acelerado.
Respirações urgentes, ofegantes, unidas.
- Vamos pro quarto? - ele sussurrou.
Ela sorriu.
- Pensei que você nunca fosse perguntar...




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Quadra 4

Às vezes é tanta tristeza
Que mal consegue respirar
O ar invade, esmaga
Toda vontade de amar

Colombina

Corpo de mulher
Jeito de menina
Não sabe o que quer
Só Imagina

Alma de escritora
Coração de colombina
Mãos acolhedoras
Pés de bailarina

Dança e sonha
Como sonha essa menina

Cai e sofre
Sofre tanto a colombina

Chora e sente
Sente mais do que imagina

Garra de mulher
E uma fé que determina
Não aquilo o que quer
Mas tudo aquilo que ilumina

Sua alma de escritora
E coração de colombina.
Por que então
Está sempre tão sozinha?

terça-feira, 1 de abril de 2014

Sonho

Ele tocava violão e ela suspirava.
Ele cantarolava e ela sorria.
Ele olhava para ela e ela para ele.
Ele escrevia sobre ela e ela poesia.

Ele ria daquele jeito e ela sentia faíscas.
Ele dormia tranquilo e ela admirava.
Ele tirava a camisa e ela tirava o resto.
Ele lia os olhos dela e ela deixava.

Ela pensava nele o dia todo
E era feliz o tempo inteiro
Ele ao seu lado sentia-se bem
E era feliz também

Ele se aborrecia e ela o acalmava
Ela entristecia e ele a alegrava
Ele a desejava e ela permitia
Ela o amava e ele correspondia