domingo, 28 de dezembro de 2014

Espectro

Talvez seja porque o fim do ano se aproxima - sempre fico sensível nessa época. Talvez seja o calor insuportável que faz lá fora e o tédio que é ficar em casa. Talvez seja só mais um dia em que seu espectro resolveu visitar meu quarto. Talvez não seja nada disso.

Não sei, mas hoje acordei com aquela vontadezinha de você, sabe? A mesma de alguns meses (anos, dias) atrás e que tinha conseguido guardar dentro de alguma caixa de sapato. Estarmos separadas - eu e a vontade - fez o não esperar quase tão real quanto esperar. Quase me fez acreditar que posso ser assim. Essa pessoa que não quer o que mais deseja.

Mas aí, hoje. Alguma coisa, talvez uma rajada forte do ventilador ligado em meu quarto, alguma coisa abriu a caixa de sapato e, então, você. Com a mesma força de costume. E a pergunta que odeio repetir pra mim mesma, mas que vem sem que eu possa impedir: quando?

Tentei me distrair. Li, ouvi música, tentei ver um filme do Woody Allen. Mas depois de alguns minutos de concentração, lá estava você. Entre uma frase e outra do livro, nos acordes da canção, logo atrás do personagem principal do filme.

Voltei a me sentir daquele jeito. Quase havia me esquecido da sensação. Querer fechar a porta do quarto e querer estar com todos ao mesmo tempo. Voltar a me sentir estranha.

Talvez seja saudade. Talvez seja falta. Talvez seja tédio.

Possivelmente é só calor.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Quando não existimos mais

Para ler ouvindo Fall for you | Leela James

Parece que foi ontem. Lembra?

Uma troca de olhares, um sorriso, um “olá” diferente de todos os outros.

Sim, quase outro dia. Séculos atrás.

Nós dois. Sem nome, sem rótulos. Apenas nós dois e isso, que a gente entendia sem poder explicar.

E então, nós nos perdemos.

Em alguma curva ou atalho, nos distraímos e nossos caminhos se desencontraram.

A gente se afastou. Talvez não houvesse outro jeito.
Ainda assim, é estranho passar por você na rua e dar um sorriso insosso, como se fossemos apenas conhecidos. 
Dividimos a mesma cama, compartilhamos sonhos, revelamos frustrações. E agora você atravessa a rua sem olhar pra trás, como se eu fosse uma vizinha sem nome.

A gente se esqueceu. Talvez tenha sido a maneira que encontramos de seguir em frente. Foi a maneira que eu encontrei.
Acreditar que você não está mais dentro de mim, sabendo que está.  Adquirir a habilidade de sentir sem pensar, de lembrar sem sentir, de pensar sem lembrar.

É como olho para você nesse minuto. Com a estranheza de sentir algo velho percorrer um corpo onde não cabe mais.

Você virou a esquina, sumiu de vista.
Fiz o mesmo.

***






quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Eu me amo

Pra ler ouvindo: All about that bass | Meghan Trainor  

Eu nunca fui a mais bonita. Você sabe bem que meu forte não é a beleza. Meu cabelo não fica bagunçado do jeito que eu gostaria, minhas pernas não são torneadas como as das mulheres que você olha na rua. Definitivamente, não sou da seita da barriga negativa.

Se você me perguntar qual é a última dieta da moda, não vou saber. Porque eu não dispenso uma cerveja pra celebrar qualquer coisa nem o sorvete-barra-chocolate-barra-brigadeiro que alenta minhas mágoas. Minha rua está cheia de academias de ginástica lotadas de mulheres lindas. Não estou entre elas.

É claro que eu adoraria ter uns quilos a menos e o cabelo da Gisele. Também seria legal andar de biquíni na praia sem sentir, por um segundo que seja, vergonha dos furinhos indesejados. Mas, sabe de uma coisa?, eu me acho o máximo. E não, não, peço desculpas pela falta de modéstia.

Se a gente sentar pra conversar dez minutos, pode ter certeza, você vai se apaixonar por mim. E não é porque eu sou linda ou divertida, até porque esses dois conceitos são bem relativos. Não. É pelo simples fato de eu me achar assim. Se tem uma coisa que eu realmente acho que sou, pode escrever aí, é divertida. E diversão, meu bem, é tudo que se precisa nessa vida, inclusive nos momentos sérios-barra-tristes-barra-tensos.

Quando eu digo que você vai se apaixonar por mim, não confunda com querer dizer que você vai querer ficar comigo (se for do sexo oposto, provavelmente rs), mas, principalmente, você vai querer ser meu amigo. E fica tranquilo, se eu fiquei dez minutos inteirinhos conversando com você, a vontade é recíproca.

E se você está aí, achando que eu devo ser uma entojada de nariz em pé que se acha a rainha da cocada preta, saiba que está quase certo. Tirando o entojada e o nariz em pé, eu me acho mesmo a rainha da cocada preta, ainda que a cocada seja só minha.

Espero que você se sinta assim também!

#beijinhonoombro

***




segunda-feira, 13 de outubro de 2014

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Última conversa

Pra ler ouvindo: Lost Stars | Trilha do filme Begin Again

É claro que eu entendo. Entendo tudo.
Entendo que você é só um garoto perdido, que eu atrapalho sua cabeça.
É claro que entendo. Não precisa se desculpar.
Ninguém tem culpa. Quem tem culpa?
Você não se apaixonou por mim. Acontece. Pode acreditar, não foi a primeira vez...
Se estou triste? Está vendo tristeza?
Não é nada. Não quero que se preocupe.
Se choro é porque já sinto saudades, mas sou boa em conviver com ela.
Sei disso. Sei que você não queria me magoar.
Mas fazer o quê? As coisas nem sempre acontecem como a gente quer.
Tudo tomou um rumo tão diferente, não foi?
Desde aquele pôr-do-sol que vimos juntos, lembra? Tão bonito, tão nosso...
A gente tinha tantas possibilidades.
Não imaginei que acabaríamos com a que não era possível.
Por favor...
Por favor, não toca meu rosto, não apaga essa lágrima.
Ela é a única prova de que a gente existiu, é nosso último vestígio.
Deixa escorrer. Talvez eu esteja melhor quando ela secar.
Um dia, não agora. Não posso ser sua amiga. Não quero ser sua amiga.
Vai sim. Você vai me esquecer.
Quando aquela menina bonita, que gosta da sua banda favorita e lê Ana Cristina Cesar, sorrir pra você, pode ter certeza, você vai se esquecer de mim.
Até lá, quem sabe eu também tenha te esquecido?
Espero que sim, se me permite a sinceridade.
Não pense que é raiva. Não. É só uma questão de, não sei, sobrevivência.
Vai passar. Sempre passa.
O problema é a parte que não volta. O pedaço que se perde toda vez que um coração é partido.
Esse será pra sempre seu.
Menos o pôr-do-sol.
Esse, eu vou levar comigo.
Preciso ir agora. Antes que eu lembre que não posso ficar.
Esquece isso.
Eu vou ficar bem.
Sempre fico.

****
"So let's get drunk on our tears..."



sábado, 4 de outubro de 2014

Outra canção

Pensei ter ouvido você
Chamar por mim
Gritar meu nome
De algum lugar que
Não podia ver

Pensei ter ouvido você
Chorar
Suspiros engasgados
Embebidos em lágrimas
Invisíveis

Pensei ter visto você
Estender as mãos
Procurando as minhas
Querendo me tocar
De longe

Mas eu não estava lá
Não estava lá quando me chamou
Não estava lá quando chorou
Não estava lá quando estendeu as mãos
Não estava

Era tarde demais

Tivemos tanto tempo
E você escolheu o segundo depois

Ouvi nos seus olhos
O som do arrependimento
Eu já escutava outra canção

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Letargia

Te olho hoje com os mesmos olhos de ontem. Meu cabelo está bagunçado, não tem mais brilho, assim como meus olhos. Esses, que te olham hoje.

Minha roupa está amarrotada. Detesto roupas amassadas. Mas continuo com ela. Não sei se tem outra no armário. A saia, não reconheço. É preta, de um tecido desconhecido. Meus pés estão apertados em um sapato que nunca vi.

Um gosto da bebida forte e cigarro está em minha boca. Nunca fumei, mas sinto o gosto de cigarro em minha boca. Misturado à sensação amarga da conversa que não sei se tivemos.

Eu te conheço?

Te toco do mesmo jeito que toquei ontem. Entre o ombro e o cotovelo, mas estranho sua pele. Estranho a minha pele.

Seus olhos, familiares e desconhecidos, me examinam. Tentam me reconhecer. Seu cabelo está emaranhado e seu rosto, cansado.  

Olho em volta e percebo que não sei onde estou. Talvez seja minha casa. Nossa casa. Talvez não seja. Reconheço a janela. Parece fazer parte do passado. De algum ponto anterior. Reconheço a porta também. A porta de madeira com um pequeno olho mágico. Ela me lembra futuro. Futuro?

Você toca no meu ombro e me retraio. Solto seu braço e me sinto um pouco melhor.

Eu te conheço?

Sua voz, que não posso escutar, é a única coisa que me faz ter (quase) certeza de que nos conhecemos. Soa como um vestido antigo que cobria meu corpo com perfeição, mas perdeu a forma. Ficou pequeno nos braços, largo demais na cintura. Curto. Detesto vestidos curtos.

Nos encaramos. Você parece triste além de cansado. Me sinto triste, embora tenha esquecido a razão. Desejo um copo de água pra tirar o gosto ruim da boca ou um cigarro pra ver se  viro fumaça. Nunca fumei, já disse isso?

Você. Quem é você? Nos questionamos sem nos ouvir. Estamos bagunçados, confusos, preguiçosos. Preguiçosos demais pra tentar. Tentar o que? A porta.

Penso novamente no copo de água. Desisto.  Não tenho energia pra alcançá-lo.

Nos encaramos mais uma vez e chegamos à mesma muda conclusão.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Duas liberdades


Não precisava ser assim.

Se você tivesse sido sincero desde o início, entende? Se não fosse tão evasivo, se não fugisse tanto disso que nós estamos - ou não - construindo.

Eu não gosto de agir assim. Perder a espontaneidade. Não saber se posso falar, se devo responder ou ficar em silêncio. Ter que avaliar toda hora se você está falando a verdade, se é só mais uma desculpa sua para não me ver quando diz que tem uma reunião de trabalho até tarde.

Detesto ver que você me escreveu e calcular quanto tempo vou te deixar esperando por uma resposta. Eu não sou assim. Mas me fere te responder e você me deixar falando sozinha.

Eu não mereço isso, sabe? Eu sou legal pra caramba. Eu sei que sou. Sou divertida, sou inteligente, sou interessante. E to super na tua. Então, por que você não me respeita?

Podia ser tão legal entre a gente, sabe? Nos damos tão bem. Aquela conversa de sexta-feira foi uma das mais interessantes que já tive...

Mas, eu entendo, você não está no momento. Eu não sou uma opção. 

Já entendi que você não quer nada sério. Tudo bem! Direito seu. Mas faz um favor, então? Me deixa ir embora. Não me procura quando perceber que estou tentando me afastar. Não tenta me fazer rir ou desarmar quando notar que eu não estou mais tão ligada no seu papo. Não diz que está com saudades só pra me fazer esperar por algo que você não quer me dar.

Você quer a sua liberdade. Eu também quero a minha.

Acho melhor pararmos por aqui.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Na janela

Coração acordou assim
Com jeito de quem tem saudade
Olhar perdido na janela
Lembrando o amor que foi embora

Acordou bem jururu
Com vontade do que não sabe
Sabendo que nunca esteve
Estando onde amor não há

Ah, coração
Fica assim não
que lá na esquina da outra rua
Um amor pegou a via mais curta
Pra fazer par à tua solidão.

domingo, 17 de agosto de 2014

A gente se vê por aí

Você precisa parar de tentar.

Eu não vou preencher o vazio que ficou aí. Esse pedaço que te arrancaram e que você está desesperado pra recuperar.

Não, eu não sou terapia nem cura pra sua dor.

Enquanto você achar que o alívio pra a sua solidão está em ter alguém no sábado à noite e do lado direito da cama, a ferida não vai cicatrizar.

Não sou remédio pra tornar a sua melancolia crônica em intermitente. Nem pra ser o apoio imaginário da insegurança que ficou depois que ela partiu.

Enquanto você estiver procurando em mim o que via nela, não vamos conseguir nos entender e nossa história não vai começar.

Não, não se agarre a mim com essa esperança, que não é a de ser feliz comigo, mas a de ser feliz de novo.

Enquanto você acreditar que a felicidade a dois é a solução para a saudade que sente dela, vai continuar dormindo sozinho e mergulhando em piscinas rasas.

Não quero ser tudo de que você precisa. Quero ser uma escolha, não uma salvação.

Um dia, quando você descobrir que sua busca é por você mesmo, aí, quem sabe?, podemos tentar de novo. Quando você entender que estar bem consigo é fundamental para estar bem com o outro... Quem sabe?

Não pense que sou egoísta.

É antes o contrário. Entendo que só você pode trilhar seu caminho e encontrar suas respostas. Minha presença só atrasa seu percurso. 

Não, eu não estou desistindo de você. 

Só dando um tempo enquanto há tempo. Pra você se entender. Pra eu não me magoar. Pra você descobrir o que realmente quer. Vamos usar o tempo a nosso favor, somos tão jovens, temos tanto o que viver.

Não vamos fazer promessas.  

A vida se encarrega de juntar o que deve estar junto e de levar embora o que não é pra ficar. No fim da sua busca, quem sabe o que será? 

Não, isso não é um adeus.

Quando você descobrir o quão especial você é, quando enxergar no espelho o mesmo cara que eu vejo, se seu coração estiver pronto pra me receber - se ele ainda quiser me receber - podemos começar de novo.

Não, certamente, isso não é um adeus.

É só um jeito de dizer a gente se vê por aí; a gente se esbarra. 

Eu sempre terei um sorriso para você.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Desculpa se eu não lutei por você

Pra ler ouvindo: Baddest Blues | Beth Hart

Desculpa se eu não lutei por você. Provavelmente, você deve achar que sou covarde ou algo assim. Talvez ache que eu não te amava o bastante; que encontrei distrações melhores desde a última vez em que estivemos juntos.

Desculpa se não retornei aquela ligação ou se neguei seu último convite pra sair. Você deve ter achado que não me importava com seus sentimentos ou que eu já tivesse algum encontro naquela noite.

Sinto muito se não pareci entusiasmada quando me ligou para dizer que estava com saudades ou quando mandou aquela mensagem inbox dizendo que adorava as nossas conversas.

Se não disputei a sua atenção com as outras garotas – ou com aquela garota em especial–, peço desculpas também. Você deve pensar que todo o amor que declarei não era suficiente para correr atrás do seu ou que, simplesmente, achei que iria perder a disputa.

Desculpa se pareci displicente em algum momento, se não valorizei seu esforço.

Não foi nada disso, preciso dizer.

Não retornei a sua ligação e neguei seu convite pra sair porque cansei de reagir às suas atitudes impulsivas na hora da carência e receber indiferença quando a vaga na sua alma – e na sua cama – já estava preenchida.

Não pareci entusiasmada com a sua confissão de saudades porque cansei das suas declarações superficiais, querendo afagar meu coração temporariamente para que eu aquecesse seu travesseiro – e seu ego – por meia noite. Se eu não disse "eu também" quando escreveu que adorava nossas conversas inbox foi porque cansei de ser sincera às suas mentiras.

Demorei, eu sei, mas cansei do seu talento pra me levar às nuvens com palavras bonitas e me derrubar delas, no mesmo minuto, com a mensagem visualizada e não respondida.

Quando não disputei a sua atenção com as outras garotas - ou com aquela garota em especial -, pode acreditar, não foi por falta de amor nem por medo de perder a disputa. Foi pelo simples fato de ter entendido que, se eu precisava disputar o seu amor com alguém, é porque ele já não era meu.

Se eu não lutei por você, meu amor, foi porque passei a lutar por mim, finalmente.

Se eu não valorizei seu esforço, ou o que você chama de esforço, saiba que não foi fácil. Nem displicência.

Foi amor-próprio.

****
"If this is love, what was I thinking?
If this is love, what the hell am I, am I gonna do?
And that man, he's got me sinking
To the bottom of the blue"


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Menina

A menina tinha luz. Quando pequena, as garotas gostavam de ficar ao seu lado porque se sentiam... Não sabiam explicar. No início os meninos não chegavam muito perto. Embora se sentissem hipnotizados por ela. Havia o medo de serem engolidos de alguma maneira inexplicável.

Seus cabelos eram castanhos, fios de prata que brilhavam intensamente ao sol e à lua. Quando sorria aqueles que estavam por perto sentiam uma pontadinha de alegria infinita que durava o tempo do sorriso. E se estivessem muito, muito tristes, sentiam uma rachadura no solo seco da tristeza e uma gota de água escorria por ali. 

Quem olhasse bem sua pele, veria que em volta de todo seu corpo, havia uma linha desenhada por um pintor criterioso, um aro de luz cor de estrela o envolvia todinho. Quando ficava contra-luz ou em um quarto muito escuro era mais fácil percebê-lo. 

A menina tinha duas alegrias: enfiar-se no jardim de margaridas da avó para ficar horas conversando com as flores. Quando ousada, pedia permissão a elas e se presenteava com uma coroa. Sentia-se uma fada.

A outra alegria eram os bolinhos de chuva. Sempre que chegava na casa da avó e na mesa da cozinha encontrava um prato cheio de sua iguaria preferida: hoje tem chuva dentro de casa e sol dentro de mim!

Quando cresceu um pouco mais, a luz se intensificou. Não sei dizer como sei, já que, olhando, a menina continuava igual. De um jeito totalmente diferente. Percebi que quando sorria, a felicidade não durava apenas o tempo do sorriso, mas pairava pelo ar ainda momentos depois de ir embora. E, uma vez, eu vi um garoto sorrindo ainda três dias depois de ganhar um beijo, na bochecha, da menina.

Nesse tempo, quando as outras garotas começaram a passar batom e a usar salto alto, ela ainda visitava o jardim de margaridas da avó e quando alguém lhe desafiava perguntando em tom de desdém não vai crescer nunca, menina?, ela sorria e respondia e pra quê?.

Ninguém retrucava.

Nas ocasiões em que a avó estava presente e ouvia esse pequeno diálogo, as duas trocavam olhares divertidos e ela podia ouvir as rugas da a avó dizendo eu também esqueci de crescer.

Ah, menina... Gostaria dizer que ela viveu muitos anos e que sua luz foi iluminando seus caminhos pela vida, mas não foi assim que aconteceu. 

Certa tarde, enquanto montava uma coroa de margaridas, esparramada no jardim de sua avó, um rapazola debruçou na cerca em volta da casa e perguntou você gosta dessas florezinhas, não gosta, menina bonita?

Quando só se tem luz no coração, nem se imagina existir escuridão no mundo.

A menina sorriu. São as minhas preferidas.

Sua avó estava sentada na cadeira de balanço, cochilando à luz do sol das quatro da tarde.

Os olhos do rapaz passearam da avó adormecida até a menina e brilharam repletos de escuridão.

Eu conheço um lugar que você devia conhecer. É um paraíso de margaridas.

Quando a avó da menina acordou e não viu sua neta, pensou que ela tinha ido brincar pela rua, como era seu costume.

Durante um mês toda a cidade procurou por ela. Nas ruas escondidas, nos cantos apertados, nos lugares escuros.

Alguém apagara a luz.

Ainda hoje é possível encontrar sua avó sentada na cadeira de balanço, com olhos opacos. Às quatro da tarde ela se levanta, caminha trêmula até o jardim de margaridas, recolhe algumas flores e coloca em cima de cerca.

Essas são para você, minha menina.

Então, volta para a cadeira e espera.

Espera.

Espera.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Árvore seca

Se sentiu meio boba
Por ter regado
A semente
De novo
Deveria saber
Árvore que não dá fruto
Não vai nunca florescer.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Violino

Pra ler ouvindo: First time outside | Trilha do filme O Jardim Secreto.

O acorde do violino toca sereno na caixinha de som. Ela sente dentro de si a nota mais aguda. Cortando seu coração. É como tem se sentido. Melodia triste, baixa.
Gostaria de mudar a sintonia, mas não consegue. A melancolia da canção entranhou. Virou parte dela. A dor é infinita e serena. Já não sabe viver sem ela.

Silenciar o violino é silenciar sua voz.

A vontade de chorar lhe toma os olhos e seu peito inunda; sensação agora familiar, sabendo anteceder o desespero.

Acorde.
Profundo.

Corte.
Agudo.

Sorri, feliz em sua tristeza.

A morte está chegando.

Pescador

De longe
Pode escutar
A onda
Dançando
Batida
Irregular
Coração
A navegar
O amor
do pescador
Perdido
Em alto-mar

terça-feira, 29 de julho de 2014

Três estrofes

Sombras banham a travessura
De dois corpos perdidos na rua
Num canto escuro escondidos
Se beijam, se tocam, lascivos
Do alto, a lua inveja solitária
Os vorazes da noite, a avidez necessária
Derrama, assim, em doce cascata
Nos famintos da rua seu choro de prata
Envoltos em si, os amantes
Não percebem que sua união (inebriante)
Traz ao mundo, parco de sim, pleno de não,
Um pouco de amor à vil solidão.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Eu te amo tanto

Você me abraçou apertado. Sem dizer nada. 

Eu podia sentir seu coração lutando contra seu peito, quase entrando em mim. Um animal acuado, fugindo de seu predador. Sua respiração era acelerada e suas mãos apertavam minhas costas com força. 

Tentei dizer alguma coisa, mas você logo me mandou não falar nada. Seu pedido de silêncio arrepiou minha nuca e meus braços. Então, você começou a dançar comigo. Me arrastando de um lado para o outro. Ouvi seu choro estrangulado.

    Eu te amo tanto 
                meu corpo é prisão    
pequeno demais
              pra tudo isso
Eu te amo
                            tanto

Comprimi seu corpo ainda mais contra o meu. Quis te proteger. Te salvar.

Em vão.

Aquele foi o último dia em que nos vimos.


sábado, 19 de julho de 2014

Mais do mesmo

Já sabia o fim da história
Outro livro
Outro autor
Outras personagens
Mas já sabia o que aconteceria
Era a mesma história
No final.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A falta

Andei pelos cantos. Na calçada, andei perto dos prédios, longe das vias. No trabalho, fiquei calada quase o tempo todo. Naquela festa, sábado à noite, não dancei. Fiquei escondida, na parte mais escura da boate, com um copo de energético na mão. No almoço de domingo fiz jejum. Em casa, apaguei a luz, fechei a porta do quarto, cerrei as cortinas.

De tudo o que eu te dei, você levou a única coisa que eu queria pra mim. 

Pendurei a alma no armário, ao lado dos casacos. Guardei o coração numa caixa de sapato, perto dos álbuns de fotografias. Coloquei na estante as promessas, junto aos livros de poesia. Os planos... Esses tive que jogar fora. Não havia espaço para eles.

Com esforço, fiz faxina na casa. Aspirei as expectativas, passei um pano nos sonhos, varri as possibilidades. Coloquei na estante mais alta da despensa, as lembranças encaixotadas. Lavei os espelhos, esfreguei as paredes, poli o fogão. Quis encerar o chão e limpar as janelas, mas... Estava exausta. Cansa o corpo expurgar os vestígios de ausência,  encher de vazio o próprio vazio.

De tudo o que você me deu, restou apenas o que não ficou.


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Verso de pé quebrado

Esse verso de pé quebrado
Só tem um intento (coitado)
Dizer que desde que te perdeu
Ficou assim: Eurídice sem Orfeu


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Do lado de fora

Pra ler ouvindo: Norwegian wood | The Beatles

Eu queria que você fosse além das flores.

Que fosse até o balanço do quintal, onde eu sentava pra ler, pra esconder as pontas dos dedos na terra e pra pensar na vida.

Eu queria que entrasse em casa. Conhecesse meu quarto, meu armário, meus livros. Que sentasse na cama e tocasse meu violão.

Queria que visse meus cadernos, minhas poesias, minhas orações.  Que lesse mais do que as palavras. Que deslizasse pelas entrelinhas, desvendasse o não dito, descobrisse a respiração de cada vírgula.

Eu queria te oferecer um copo de coca-cola, de água, de paixão. E um prato cheio de possibilidades.

Eu queria que tirasse os sapatos. Ficasse descalço. Se sentisse em casa.

Mas você não quis.

Eu quis ir além do seu jardim.

Quis ser convidada pra entrar, passar pela sala de estar, pela cozinha, pelo quarto. Quis conhecer a textura do sofá, as cobertas da sua cama, o conteúdo da sua geladeira. Quis ouvir seus CDs, ler seus textos, usar aquela sua camisa azul surrada pra dormir.

Eu quis fazer um piquenique à luz de velas no chão da sua sala. Passar o domingo vendo sua série preferida, ouvindo aquela banda que você adora.

Quis saber se você arruma a cama depois de acordar, se tem manias antes de dormir, se guarda bonecos de super-heróis na estante do quarto.

Eu quis entrar de mansinho no seu porão. Passar o dedo na poeira e ver o brilho do que tem por debaixo do pó.

Mas nós nunca passamos do portão.

Você não aceitou quando te chamei pra entrar. E nunca houve um convite seu.

De todas as cores à nossa disposição, nos restou a cor do pavimento. Da calçada. Do lado de fora.

No seu mundo não havia espaço para o meu.

Então, eu fiz o que devia fazer.

Fui embora.

****
"And when I awoke,
I was alone,
This bird has flown..."






quarta-feira, 25 de junho de 2014

Dançando na chuva

A primeira gota caiu em seu cabelo e ela olhou para o céu. Como pedacinhos de estrelas, os pingos grossos salpicaram seu rosto.

Sorriu e abriu os braços. Logo estava às gargalhadas. Feliz como há muito tempo não se sentia. Seu corpo agora todo molhado. O vento que batia, gelado, fazia seus pelos do braço se arrepiarem.

Como toda alma contente, procurou com quem dividir sua alegria. Mas por todos os lados, só água. Apenas a correnteza arrastando pessoas apressadas, sérias demais para apreciar a importância de um banho de chuva.

Como louca, dançou sozinha.

Deixando a chuva lavar seu espírito, seu corpo, seus pensamentos. Trazer nova esperança, novos sonhos, nova vida.

Algumas crianças, sábias como só elas, fugiram ao controle de seus pais e foram dançar também. Risadas e brincadeiras por todo o ar. Até que os adultos, muito sensatos, muito organizados, muito sérios, vinham arrancá-las à força da diversão para que não ficassem gripadas.

E, de repente, ele.

Não sabe quando começaram a dançar juntos. Nem como não notou que estavam de mãos dadas. Não sabe porque achou seus olhos tão familiares e aquecidos. Nem como...

Sorriram um para o outro enquanto a chuva unia seus corações.

Entrelaçaram os dedos encharcados e quentes.

Aproximaram-se como se o tempo não existisse.

Olharam-se nos olhos como se aquela fosse a única paisagem possível.

Abraçaram-se como amantes de longa data.

E, por um segundo, o mundo era só deles. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Fica mais um pouco

Pra ler ouvindo:  New Morning | Bob Dylan


Fica mais um pouco. O dia já tá quase nascendo e a noite... foi tão boa, não foi?
E daí se temos que trabalhar? Diz que acordou passando mal, eu vou fazer o mesmo.
Desliguei o despertador ontem antes de sair. Você sabe, eu sempre tenho segundas intenções quando saio com você. 
Não, eu não sou espertinha, espertinho. Não planejei nada disso. Só... torci pra que acontecesse.
Você também?
Então... Vamos ficar juntos mais algumas horas, dias, meses. Vamos estender a eternidade pelo tempo que der.

Sua camisa? Não sei, deve estar jogada em algum lugar do quarto, da sala, do corredor. 
Foi uma loucura mesmo. Só de lembrar...
Esquece a camisa. Vamos vestir a nudez. Vamos viver nus. 
Hem... vem aqui. Chega mais perto, deixa eu sentir teu cheiro mais uma vez. 
Você tem mesmo que ir?
O tempo não existe. Tudo o que temos é agora.
Olha, os primeiros raios começaram a invadir o quarto. Tá vendo? Essa linha rosa que ilumina o pedacinho dos nossos pés que escapou ao cobertor?
Isso, adoro quando você descansa a mão na minha cintura.
Tá ouvindo? São os carros. São as pessoas, no piloto automático, fazendo o que deveriam estar fazendo.
Elas não têm a nossa sorte.
Não, não quero abrir os olhos. Assim parece que eu continuo sonhando com a gente.
Ei! Você sabe que esse é meu ponto fraco. Sua barba roçando meu pescoço me arrepia. É, eu sei que você gosta da minha respiração quente na sua nuca.
Assim não resistimos.
Você vai acabar perdendo a hora.
O sol alcançou meu rosto e o seu cabelo. Tá mesmo um dia perfeito pra ficar assim, não tá?
Também to com fome. O café não tá pronto... Você vai ficar?
Hum... a barba de novo.
Desculpa, não posso evitar o sorriso.

****
"The night passed away so quickly
It always does when you're with me..."


E tudo que ela faz

Pra ler ouvindo: Que Maravilha | Toquinho

O frio entra pela janela
E tudo que ela faz
É pensar em você

O céu vai escurecendo
Anuncia chuva forte
E tudo que ela faz
É pensar em você

O filme que gostava
Quando era criança
Está passando na TV
E tudo que ela faz
É pensar em você

Ela escuta uma música
Linda e triste
E tudo que ela faz
É pensar em você

A chuva começa a cair
Os pingos batem na janela
E tudo que ela faz
É pensar em você

Ela sai de casa
Vai tomar banho na chuva
Seu cabelo está encharcado
Sua roupa gruda em seu corpo
As pessoas passam
Guarda-chuvas cheios de pressa
Dançando com a água
Se deixa lavar
E tudo que ela faz
É pensar em você

Você, meu amigo,
É um cara de sorte.

E a chuva ainda está caindo
E ela ainda está dançando

Sozinha

Vai deixar?

****
"Lá fora está chovendo
Mas assim mesmo eu vou correndo
Só pra ver o meu amor..."







quarta-feira, 18 de junho de 2014

Um segundo de eternidade

Uma vez eu conheci um garoto em um samba na Lapa. 

Nos esbarramos na fila do bar. Ele com três garrafas de cerveja nas mãos e um sorriso travesso no rosto. Eu de vestido tomara-que-caia, sandália de dedo e uma flor no cabelo.

Ele pisou sem querer no meu pé e eu disse que só aceitaria suas desculpas se me desse um gole da cerveja. Ele me deu um copo e ficou surpreso quando eu o virei de uma só vez. Rimos.

Alguns de seus amigos vieram resgatar as garrafas, enquanto nós encontrávamos assuntos demais para simplesmente nos afastarmos.

Naquela noite, ele me contou sobre seus medos e seus sonhos.  Contou sobre algumas viagens e sobre seu intercâmbio nos EUA. Falou da saudade que sentia da mãe e de como amava samba.

Depois de alguns minutos conversando, eu disse: "me beija".

A eletricidade do ar envolvia nossos corpos, fazia nossos braços se arrepiarem, acelerava nossos batimentos em ritmo descompassado.

Um segundo de eternidade.

E bastava.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Agridoce

Pra ler ouvindo: Without Words | Ray Lamontagne

Percebeu que sentia falta de sentir falta e achou curioso. Era estranho procurar aquele sentimento visceral, desesperador, e não o encontrar. Vasculhar cada memória e não esbarrar nele.

Era como persistir em uma jornada com um único objetivo e, ao alcançá-lo, não saber o que fazer com o prêmio.

Aceitar. Entender. Deixar pra trás. Lutara muito por tudo aquilo, de verdade, e agora que tinha conseguido, felicidade não era, exatamente, a sensação.

Ainda havia resquícios, claro. Um gosto amargo no fundo da garganta. Não conseguia prever se ele também sumiria um dia. Talvez não quisesse que ele sumisse. Talvez aquela fosse a única prova de que o passado havia acontecido, de que não fora apenas... ilusão.

Era como se despedir de um amigo. Cruel, sem dúvida. Mas presente há tanto tempo que tornara-se parte dela. Desistir dele era desistir dela. De parte dela. Era abandonar um pedaço seu que, de alguma maneira, deixou de faltar e passou a sobrar.

Sentia-se leve, no entanto. Como há muito tempo não se sentia.

Era como estar sozinha na estrada, com as janelas do carro abertas, deixando o vento bagunçar seu cabelo. O rádio ligado em uma estação qualquer, tocando alguma canção folk. Sua alma, finalmente, deixando-se dançar novamente.

O adeus era agridoce.

****
"I can hear the morning birds
Light upon the branches
And each in turn
Sing of all God's praises
Without words..."





segunda-feira, 16 de junho de 2014

Quadra 6

Direita ou esquerda
Não sabe pra onde ir
Uma escolha, uma perda
Não há como dividir

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Dia dos namorados

A todos meus amigos
Que tem a sorte de um benzinho
Que o Dia dos Namorados
Seja cheio de beijinhos!
E pra quem está sozinho
Não se zangue de estar solteiro
Que amanhã é só rezar
Pra Santo Antonio casamenteiro!

terça-feira, 10 de junho de 2014

Carnaval

No peito ele balança
Bateria de escola de samba
Descompasso, contradança
Passista, 
          mestre-sala,  
                            bamba

No ritmo acelerado
Cadência
             de
                 arritmia 
Samba só apaixonado 
Festejando a boemia

No quesito evolução
Cur
       va-se à porta-bandeira
Sorri  enredo e canção
Seu samba de quarta-feira

Na avenida desfilando
Segue sem alegoria
                 no alto
Estandarte             vibrando
Samba sem harmonia

No Carnaval um coração
Samba     sa    na    do
          de     fi     
Canta assim a Solidão
O malandro abandonado


sábado, 7 de junho de 2014

Eu te amo

Pra ler ouvindo: Brighter than sunshine | Aqualung

Eu lembro daquele dia. Sorri pra você e coloquei o cabelo atrás da orelha. Você nem sabia, mas aquele gesto - colocar uma mecha inconveniente suavemente atrás da orelha, baixar o olhar e sorrir - era um sinal grandioso.

Depois que nos conhecemos, nunca mais consegui ler uma página de um livro inteira. Não sem, no meio de uma frase ou outra, me pegar divagando sobre você e o nosso último encontro.

Depois de você, as poesias se transformaram. Passei a entendê-las com um coração preenchido, não somente com uma alma sonhadora.

Quando cantei pra você aquela música que sempre me fazia pensar em nós dois, me senti como uma menina de novo, na frente da escola inteira, tendo que recitar um poema de cor.

E você sorriu. 

Eu não tinha terminado de cantar. Não tinha nem chegado no refrão.

E você sorriu.

Eu achava que sabia descrever todos os sentimentos. Naquele dia, soube que não.

Até que teve aquela noite. Aquela, lembra?

A gente deitado, um de frente pro outro, tendo como luz apenas um raio de luar e como roupa apenas o lençol.

Estávamos calados há um tempo. Eu mexia displicentemente no seu cabelo, enquanto você me olhava com firmeza nos olhos.

E, então, você disse.

Três palavras.
Dois segundos.
Uma vida esperando por aquele momento.

Sabe felicidade?

Eu não sabia até ali.

Quando respondi, nós sorrimos juntos e nos abraçamos. Lembra?

Claro que sim.

Afinal, é como diz a nossa música, aquela que eu cantei pra você: "I'm yours and suddenly you're mine. And It's brighter than sunshine".

****
"Love will remain a mystery
But give me your hand and you will see
Your heart is keeping time with me..."





quarta-feira, 4 de junho de 2014

Lição

Flor despetalada
Esmorece ilusão
Sobrevive na calçada
Soluço na contramão
Entre passos e pegadas
Luta só com a solidão
Às vezes, desesperada
Chora aflito o coração
Ou talvez não seja nada
Só da vida uma lição.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Valsa das estrelas

Pra ler ouvindo: Melodia Sentimental | Heitor Villa-Lobos

Pétalas de estrelas
Flutuam pelo ar
Dançam para ela
Cansada de esperar

Olhar valsa pelo céu
Tira a Lua pra dançar
Veste o corpo universo
Se esquece de esperar

Sozinha está completa
Galáxia desbravar
Cabe inteira dentro dela
Não há mais o que esperar

Na colheita das estrelas
Rega a flor outra semente
Não sabia escondê-la
Nova vida tão latente

****
"Acorda vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar..."




sábado, 31 de maio de 2014

Recordações

Ainda ouço você aqui dentro. Ainda sinto seu cheiro e percebo seus gestos.
Ainda penso em vc e lembro daqueles dias.
E sorrio toda vez que você visita meus sonhos, minhas conversas, meus cadernos.

Ainda me pego querendo reviver aquilo. Sentir de novo nossos corpos se tocando.
E olho para o presente que você me deu cheia de suspiros.

Nos momentos de lucidez, luto pra não mergulhar de vez na fantasia.
Tornar o conto poesia.
E viver de saudade.

Sa  u
              da
        de

Como o vento batendo no cabelo, roçando a pele, arrepiando a nuca.

Sa     u
    da 
            de

Foi perfeito.
Mas podíamos ter tido mais tempo.
E vinho.


sábado, 24 de maio de 2014

Hoje eu acordei assim

Hoje eu acordei assim.  Com aquela tristeza que há muito não sentia. Que há tempos tinha conseguido embotar, esconder, disfarçar dentro de mim em algum lugar inalcançável. Hoje ela escapou. Encontrou uma brecha na alma, um espaço no coração, um abrigo no peito.

Voltei a pensar em você. Depois de tanto tempo, voltei a chorar. Quebrei todas as minhas promessas de não falar, lembrar ou escrever sobre você. 

Você. 

Que tão facilmente seguiu em frente. 

Hoje eu acordei querendo voltar no tempo, não ter te conhecido. Querendo esquecer os maus e, principalmente, os bons momentos. Mas até o rádio tocou aquela música que tem seu cheiro, afogando meu espírito na falta de ar.

Chorei.

Hoje foi difícil levantar da cama. Esbarrar com seu fantasma pairando sobre os móveis da casa, nas janelas dos prédios, nas pessoas que passavam. Foi como nos velhos tempos. Aqueles em que a tua ausência sobrava por todos os cantos. 

Me olhei no espelho e encarei olhos magoados, fazendo companhia em par à solidão. Reflexo de sentimentos que julgava não ter mais. 

Ilusão.

Hoje acordei querendo dormir. Dormir até o mês que vem. Até tudo isso sair de mim de vez. Até tudo isso acabar. Implorei a um ser invisível que me salvasse de você.

De mim.

Hoje eu acordei assim. 

domingo, 18 de maio de 2014

Vagalumes

Pra ler ouvindo: Vagalumes Cegos | Cícero

Passei muito tempo
Procurando vagalumes
E foi quando caí no sono
Cansado e sereno
Que os vagalumes
Me encontraram

****
"Nem sei
Dessa gente toda
Dessa pressa tanta
Desses dias cheios"



Ainda bem

Me protegi de você
Fiz tudo o que pude
Me escondi atrás da porta
Mudei de calçada
Fingi não te ver
Tentei te ignorar
Fazer vista grossa
Me fazer de surda e muda
E quando você me olhou
Desviei o olhar
Quase consegui escapar
Sair pela tangente
Descer pelo elevador de serviço
Sair pela porta de trás

Mas você não desistiu
Abriu a porta
Atravessou a rua
Chamou minha atenção
Gritou meu nome
E quando desviei o olhar
Gritou mais alto
Tentei não me apaixonar
Lutei pra não me envolver
Menti pra mim e pra você
Mas você não desistiu

Ainda bem

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Três dias

Pra ler ouvindo: Sempre nãé todo dia | Oswaldo Montenegro

A vida acontece. Acontece quando menos se espera.
Acontece numa noite fria, num café no centro do Rio, numa conversa despretensiosa com alguém que se acabou de conhecer.

A vida escorre.
Escorre numa troca de olhares, numa troca de sorrisos tímidos e ansiosos, numa abordagem inusitada que não se sabia ter coragem pra tomar.

A vida surpreende.
Surpreende quando se conhece um lugar que só se idealizava, com uma pessoa que só se tem uma ideia, com uma identificação rara.

A vida é brilho.
O brilho do sol que se põe em nossos olhos, da noite que traz uma aventura, da promessa do próximo encontro.

A vida é música.
É Oswaldo Montenegro tocando baixinho, na penumbra de um quarto, com cheiro de vinho e lençóis desarrumados.

A vida é andar de mãos dadas.
Numa rua da zona sul carioca, sem esperar por nada, sem querer que o amanhã chegue.

A vida dá sinais.
Sinais de que basta se estar aberto para que ela entre e sente na sala de estar. 
 
A vida é deixar acontecer.
Enfim, deixei.

****
"Eu hoje acordei tão só
Mais só do que eu merecia
Eu acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia..."




sábado, 10 de maio de 2014

Mãe


Eu conheço mãe que chora, mãe que segura o choro, mãe que enxuga as lágrimas.
Eu conheço mãe que dá bronca, que dá dinheiro, que dá colo.
Eu conheço mãe que finge que não sabe, que não viu, que não faz ideia.
Eu conheço mãe que é amiga, que é porto seguro, que é pai.
Eu conheço mãe que bebe junto, que vai pra night, que dá dicas sobre sexo.
Eu conheço mãe de primeira viagem, mãe adolescente, mãe depois dos 40.

Eu tenho uma mãe que é incrível. Que venceu um câncer, que segurou a onda, que chorou escondido. Eu tenho uma mãe que é fortaleza e obstinação. Que odeia tirar fotos, infelizmente, e por isso, vai uma das fotos antigas dela de que mais gosto.

Eu tenho uma mãe que, como toda mãe, é pura e simplesmente amor.




segunda-feira, 5 de maio de 2014

Querido,

Essa carta nasceu antes de você aparecer.

Nasceu dos sonhos de uma menina romântica, com mãos de poeta e alma de escritora.  Nasceu da espera interminável e da resignação de que esse dia jamais chegaria.

Essa carta nasceu das decepções. Dolorosas, cortantes, profundas. Nasceu da tristeza de um não após o outro. Do momento sempre errado, da hora sempre equivocada, de um coração partido em pedaços.

Nasceu antes de eu acreditar que alguém como você apareceria. Do aperto na garganta que sufocava toda esperança. Da solidão que parecia infinita.

Essa carta é para você que me deu uma chance. Que viu em mim o amor que eu poderia dar e o aceitou. É pra você que quis me dar o mesmo amor. Que me escolheu entre tantas opções e acreditou em nós.

Que acreditou em mim. Logo em mim! Que em muitas conversas com amigos e amigas pacientes repetiu incansavelmente que jamais seria amada ou amaria. Que tinha certeza absoluta de que a felicidade de ser correspondido no amor era sorte alheia.

Essa carta é pra dizer que eu, que ainda nem te conheço, sei que posso te amar com todo meu coração. Que posso me doar da maneira mais pura e fiel. Que posso ouvir seus planos, dividir os meus e que podemos criar novos em conjunto.

É pra dizer que só eu sei como me sinto agora. Diante, não de uma possibilidade, mas de uma realidade. Diante do sim, finalmente. Sonhando e vivendo ou vivendo e sonhando... Tanto faz.

Essa carta nasceu quando parei de esperar, enfim. Quando cansei de ilusões e de histórias inventadas. Quando percebi que olhar a sorte dos outros era deixar de ver a minha própria.

E foi aí que você surgiu.

Essa carta, que nasceu uma vida antes de você aparecer, é um desejo. Um desejo de que nós dois sejamos realmente felizes juntos. E que a eternidade seja vivida um dia de cada vez.

Com amor.


sábado, 3 de maio de 2014

Da janela

Os carros passavam lá embaixo, com seu zumbido metálico. O sol não tinha saído naquele dia, tinha escolhido ficar escondido entre as nuvens cinzas que anunciavam chuva. O vento frio fazia seu cabelo dançar com leveza, enquanto seus olhos mergulhavam em pensamentos.

Imaginava o que as pessoas que passavam lá embaixo sentiam. Tentava desvendar em seus olhares, sorrisos  e gestos como estariam suas almas. 

Uma menina caminhava de mãos dadas com um rapaz. Seriam namorados? Podia ver que ela olhava para ele encantada, com olhos derretidos e um sorriso iluminado. Ele, por outro lado, parecia displicente. Toda vez que a menina lhe falava algo, sacudia a cabeça, olhava para o lado e respondia com uma frase curta. A garota não percebia, ou fingia não notar, mas o rapaz não a ouvia. Tudo na rua lhe parecia mais interessante do que ela.

Sentiu-se triste subitamente. Colocou-se em seu lugar e imaginou o dia em que ela descobriria a verdade. O dia em que notaria que ela não era para ele o que ele era para ela. Colocou-se em seu lugar e imaginou como seria para ela descobrir que ele estava se divertindo enquanto ela ficava em casa se perguntando o que devia fazer com aquela angústia por não saber o que seria dos dois. Como seria descobrir que ele saia com outras...

Tentou se livrar de tais pensamentos porque teve vontade de chorar e não queria se sentir tão pessimista. Talvez o rapaz fosse apenas distraído. E nem todas as histórias eram iguais.

Então, decidiu olhar por outro ângulo. Aquele em que podia ver nos olhos dela a felicidade por estar com ele. Em que podia ver que ela vivia um momento inesquecível, não importava o que viria dali pra frente.

Sentiu-se feliz quando notou o menino se inclinar para beijá-la e desejou, com toda sinceridade, que nenhum coração fosse partido.

Saiu da janela para que aquela fosse a última imagem dos dois. Era bom começar o dia com um pouco de esperança.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Pedaço de papel

Não era só imagem
Era aroma
Não era só aroma
Era sabor
Não era só sabor
Era canção

Parecia pequeno
Era enorme
Tomava pouco espaço
Era Universo
Não falava
Dizia

Era fragmento
Parte do todo
Era todo ainda assim
O sorriso dela

Não era só alegria
Era felicidade
Não era só risada
Era orquestra
Não era só um sorriso
Era o de Gabriela

Um pedaço de papel
Eram possibilidades
Poesia já nascida
Esperando ser escrita


terça-feira, 29 de abril de 2014

Paz

Ouvira em algum lugar, há muito tempo, que os maiores problemas da vida não são aqueles com os quais vivemos nos preocupando e sim os que aparecem numa terça-feira chuvosa, enquanto mascamos um chiclete.

Ouvindo sua canção favorita, não conseguia parar de pensar em como a afirmação estava correta. Lembrou que estava conversando com uma amiga quando ligaram para avisar que sua avó tinha morrido, anos antes. E que voltava da faculdade quando soube que seu pai estava no hospital por causa do coração.  Que tinha acabado de chegar do trabalho quando encontrou sua irmã chorando para contar que sua mãe estava doente.

Por isso, não era a primeira vez que o medo e a tristeza invadiam sua vida. Não era, nem de longe, a primeira vez que fazia do travesseiro seu amigo mais fiel.

Em algum lugar de sua memória, no entanto, uma esperança se guardava. E ela podia quase tocá-la ao olhar, pela janela, o novo dia que nascia.

Afinal, sempre haveria dança
música
cinema
livros
Sempre haveria um lugar pra fugir
Ou uma cama pra voltar
Um amigo pra levantar
E fazer sorrir
Sempre haveria um solo de guitarra
Pra ouvir
Um solo de piano 
Pra tocar
Um dedilhado no violão
Pra estudar
Afinal, sempre haveria poesia
E onde há poesia
Há paz.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

A cama

Colocou a mala no chão e sentiu-se esquisita. A cama estava como deixara. Colcha de retalhos, almofadas, travesseiros.

Atrás de si, dias inesquecíveis.

Sentia saudade. Do lugar, do calor, do suor, dos lençóis.

Mas era bom olhar sua cama.

Deixar a aventura de transgredir a rotina e colocar os pés de novo no chão familiar, seguro e  conhecido.

Sentia saudade e voltaria se pudesse. Sentia saudade e teria ficado mais tempo. Sentia saudade e deixaria os insetos voltarem a picar suas pernas e braços porque sabia que aquele era o pequeno preço a pagar para chegar perto das borboletas.

Mas era bom olhar sua cama.

A saudade era gostosa e não triste. A saudade era o álbum de fotografia que só sua mente podia guardar. Eram os sabores que só seu paladar podia sentir. A sensação da água arrepiando sua nuca que só sua pele podia experimentar. A saudade era o céu estrelado que, ao fechar os olhos, podia ver, sentindo o vento bater em seu rosto.

Mas era bom estar de volta.

Porque nada é para sempre, exceto a saudade - linha imaginária, jeito mais humano que temos de nos aproximar da eternidade.

E sua cama estava ali, à espera.