domingo, 6 de novembro de 2016

Tsurus

O azul do céu e o azul do mar. É isso que aparece quando penso em você.

Gosto de fechar os olhos e voltar pra pedra do arpoador. A gente olhando toda a imensidão, esperando um pôr do sol que não viria, já que o céu tinha preferido ficar cinza naquela tarde. As matizes azuis envolvendo a praia, o morro dois irmãos, meu espírito.  O cheiro de sal, que eu tanto amo, e a brisa gelada batendo na gente, contrastando com meu coração, tão aquecido.

Gosto de voltar a ouvir as ondas batendo na pedra, quando lembro de você. De observar os pescadores lá embaixo, jogando redes e anzóis, enquanto sinto seus olhos sobre mim, sorrindo.

Tivemos tão pouco tempo, todo tempo do mundo.

Tempo de deixar a praia vermelha mergulhar na gente e o céu escuro embriagar meus olhos. Olhos de maresia, castanhos, seduzindo você a banhar os pés.

Tempo de visitar a Lapa e nos perdermos em carinhos no meio da avenida, entre carros, buzinas e pessoas dançando. De acordar com o coração aos pulos, com a promessa da tarde que viria.

Nós dois. Pelas ruelas do Rio (o encontro dos rios), de mãos dadas. O sorriso e a vontade crescendo. O medo indo embora.

Todo tempo do mundo.

Para ser minha sendo sua. Deixar você descer o zíper do meu vestido, enquanto minha respiração acelera no teu ouvido e no teu corpo.

E depois, cansada, dormir no teu peito.

Para passear por Santa Teresa e navegar pelas curvas do bairro, sentindo suas mãos navegando em minha cintura.

Tivemos tão pouco tempo.

Todo tempo do mundo.

Olho para a garrafinha de vidro que você me deu, recheada de Tsurus coloridos. 

Sorrio.

Toda vez.




quinta-feira, 20 de outubro de 2016

As palavras

Era assim toda tarde. Quando um facho de sol amarelo invadia a sala, formando uma diagonal que passava pela mesa de jantar, pelo sofá de três lugares e banhava seu corpo, sentado na poltrona.
De cabeça baixa, suas mãos seguiam a cadencia das agulhas. Bordava.

Ele não estava lá. Como de costume. Mesmo quando não tinha trabalho. A vida na rua era interessante demais. Os amigos, as bebidas e, ela sabia, as mulheres também.

Nos escassos momentos em que estavam juntos, não havia afeto. As palavras secas que trocavam drenavam cada dia mais e mais o carinho que um dia havia existido. Estou saindo. De novo? Não começa.

Ela, então, sentava-se à poltrona, esperava o sol derramar seu calor e bordava.

No início, tinha dificuldade para trançar os pontos. Os olhos marejados a impediam de enxergar. As perguntas também. Por quê? O que eu fiz? Onde será que ele foi?

Na entrecortar das agulhas, não percebeu os anos passarem. Estava velha, no auge de seus trinta e alguns anos. Sentia que já tinha vivido o peso de toda uma vida. Olhava para casa. Tapetes, toalhas, colchas, centros de mesa, passadeiras. Uma infinidade de solidão bordada.

Não tinha forças para lutar, nem fugir. O tempo de ir embora havia passado, ela pensava.

Numa tarde chuvosa, como de costume, bordava de cabeça baixa quando notou uma súbita mudança de temperatura. O vento frio deu lugar a uma brisa suave e quente. O facho de sol, que tanto amava, veio descendo lentamente, formando a habitual linha em diagonal. Junto com ele, alguém. Demorou para entender quem era a jovem de cabelos compridos e negros que dançava sob a luz dourada do sol. Até que seus olhos se cruzaram e ela soube.

Leve, com seu vestido de seda, o corpo quase transparente. Seu riso (tinha esquecido como era) inundava a sala. E ela, com as agulhas nãos mãos, sentia vontade de chorar.

Não havia mais perguntas, agora. Ele saía, ela bordava, a outra dançava. Assim era.

Naquela tarde, no entanto, ela sabia que seria diferente.

Depois que ele bateu a porta, pegou um pano de prato branco que tinha comprado especialmente para aquele trabalho. As palavras que queria dizer. Com linha vermelha.

O facho de luz inundou a sala, deixando de ser uma única diagonal. Logo a jovem apareceu pairando no centro da sala, flutuando.

Inesperadamente sorriu, ainda bordando o pano de prato. Quando terminou, dobrou-o cuidadosamente e o deixou sobre a poltrona.

Com pés descalços, subiu na mesa de centro, alcançando a barra do vestido de seu eu jovem, bailando no ar.

Abraçaram-se numa valsa, a princípio, descompassada, como se estivessem aprendendo a dançar juntas novamente. Aos poucos, os passos foram se entrelaçando, amarrando-se. Bordavam-se uma na outra.

Seus pés deixaram a mesa de centro.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Amor líquido

Nosso tempo durou um frasco.

Foi um presente de uma chefe que tive, em algum aniversário meu. Ela era maldosa e sabia que eu era virgem naquela época. Dizem que é afrodisíaco, revelou sorrindo, quando me deu a caixinha.

Devo ter usado o presente uma ou duas vezes logo depois do meu aniversário. Talvez para testar seu poder, mas a falta de resultados e o aroma de outros perfumes acabaram me fazendo deixar o frasco esquecido no fundo do armário. Anos se passaram.

Quando marcamos nosso primeiro encontro, numa quinta-feira, quis levar algum perfume para borrifar antes de te encontrar. Aquele pequeno frasco de vidro, esquecido no fundo do armário, era o único que não pesaria na bolsa.

Antes de sair do trabalho, borrifei uma vez atrás de cada orelha e nos pulsos. Passei demais, pensei me condenando.

E aí, no meio da noite, com o rosto afundado no meu pescoço, sua barba roçando minha pele, você disse com a voz rouca, gostei do seu cheiro.

Depois daquela noite, usava o perfume toda vez que íamos nos ver. Era um vidro pequeno, então, não usava em outras ocasiões. Sempre que você me dizia, entre beijos e carinhos, eu adoro seu perfume, eu respondia, eu só uso com você.

Se os perfumes tivessem vida, eu diria que a desse estava só esperando a gente acontecer para começar a respirar (ou pra revelar seu poder afrodisíaco).

Foi quando os problemas começaram que notei que ele estava quase no fim.

Uma mensagem não respondida, um fim de semana sem notícias, a primeira discussão, um pedido de desculpas, e o frasco cada vez mais vazio.

Até aquele dia, aquele último dia (que eu não sabia que seria o último), em que tive que virar e sacudir o frasco para conseguir algumas derradeiras gotas.

Passamos a tarde juntos. Eu estava feliz, acho (já não me lembro como ficava perto de você quando começamos a nos afastar). Mas me lembro de achar que, bem, talvez tudo voltasse a ser como antes.

Até que nos despedimos, naquela esquina perto de casa, e nunca mais nos vimos.

Já faz tanto tempo, às vezes parece tempo nenhum.

O frasco voltou para o fundo do armário. Vazio mesmo. Ainda não consegui jogá-lo fora.

Já é hora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A borboleta e o mar

Ela sabe quando a ressaca vem. Mesmo dias, semanas antes.


É preciso muita atenção para notar os primeiros sinais, quase imperceptíveis. A brisa sopra enviesada, esquecendo onde deveria fazer a curva. Depois some, deixando o ar paralisado. Então, sopra leve e serena. Até que tropeça mais uma vez e volta a soprar fora de lugar.

O descompasso não tem tempo certo de duração. Às vezes são algumas horas, às vezes semanas. Mas ela sabe: é a ressaca chegando.

No ritmo dissonante, a brisa torna-se vento. O vento, ventania. Cada vez mais rápida e violenta. O mar se enfurece. Avança. Avança.

Avança.

Ela luta para salvar a borboleta.  A borboleta de asas azuis.

Não era colecionadora, não pretendia buscar outras. Aquele pequeno inseto era o primeiro ser vivo que vira se formar. Ovo, larva, pupa, imago. Não tinha sido fácil passar por cada etapa. Muito cuidado – e sofrimento – foi preciso para esperar cada fase se romper em uma nova.

A borboleta não conhece gaiolas. Nunca pensara em ter uma. Não existem gaiolas para refugiá-la.

O mar não tem piedade, ela sabe. Se aproxima agressivo e sedento da borboleta, que parece não saber para onde ir.

Desespero. Dela, da borboleta, do mar.

Assiste a batalha, consternada. O mar derramando sua língua para alcançá-la. A borboleta batendo as asas numa dança desengonçada para escapar.

Torce para que ela não desista. Continue tentando, pede em silêncio.  Não se canse.

Antes, quando havia só ressaca, evitava as lágrimas. Tinha medo que a fraqueza desse mais espaço para a destruição. Desde que o casulo se rompeu, abrindo o céu para o primeiro voo azul, aprendeu que chorar não ajuda o mar, mas a borboleta.

Na calmaria de seu choro,  a ventania ia enfraquecendo, o vento retornava brisa.

O mar ia se acalmando. Bem. Aos. Poucos.

A borboleta pousa de asas fechadas. Sabe que sua beleza está no voo.

Ela sorri.

Sereno

Sob o sol, a pele fina nascida outro dia, cheia de brilhantes.  Iluminada, olhava pra si mesma. Até os pontos de luz escorrerem, desenhando um mapa de caminhos molhados.
- Mais – pedia em êxtase.
A mãe voltava a ligar a mangueira, o ar umedecia de risadas. Rodopiava de boca aberta, saboreando respingos de estrelas. Às vezes, parava, só pra ficar um tempo líquida, sentindo a correnteza acender seu corpo.
Era quando a mãe desligava a chuva, e ela aproveitava pra admirar a constelação que havia se formado em seus braços e barriga.
Era toda galáxia.
Do lado da torneira que dava vida à brincadeira, a mãe, sorrindo, serenava sua pequena flor, salpicada de orvalho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Se eu soubesse de mim

Você acabou de começar a faculdade. Está nervosa porque é a primeira grande mudança na sua vida. Tudo bem. Não se recrimine por ainda guardar a timidez dos tempos de escola, nem se assuste com os grunges que fumam maconha na porta da universidade. Eu sei, pra você isso ainda é coisa de outro mundo. Mas não se preocupe: aquela menina sonhadora e boba nunca vai se perder, nem mesmo quando partirem seu coração.

É, você ainda não acredita que alguém faria isso. Mas vão fazer. Mais de uma vez.

Não se revolte nem odeie essas pessoas. Muitas delas não são más ou egoístas. São apenas jovens como você, tentando encontrar as peças que faltam dentro de si.  Mas seja mais madura do que elas e não machuque os outros. Sinta-se responsável pelo amor ou mágoa que pode causar a alguém.  Ponha-se, sempre que puder, no lugar do outro, sem nunca deixar de ouvir sua intuição. Se achar que não deve insistir, não insista. O contrário também vale.

Ame-se. Ame. Se entregue.

Não tenha receios, nem amarras. Não deixe que o medo de novas decepções endureça seu coração. Essa é a sua melhor qualidade: dar-se por inteira.

Você terá dúvidas sobre sua carreira. Vai se arrepender de alguns empregos, mas vai encontrar grandes amigos pelo caminho. Você será muito melhor do que imagina na sua profissão. Também vai conseguir, um passo de cada vez, unir laços com a Literatura e perceber que é ela que te completa. Continue.

Não se iluda, a tristeza também fará parte da sua vida. Assim como o medo do câncer levar embora quem você mais ama. Chore sem deixar de manter a fé. Você vai descobrir como as pessoas podem ser extremamente generosas. E vai conhecer, pela primeira vez, a dor que é não receber ajuda quando precisa. No final, vai dar tudo certo.

Pare de se achar feia ou gorda ou estranha. Você leva no sorriso toda beleza que precisa ter.. Olhe-se no espelho com os olhos de quem te vê e te ama. Acredite quando dizem que você é linda: eles estão com a razão. 

Garanto que até os 30 anos você não terá tido filhos (nem muita vontade de tê-los), mas vai amar seus sobrinhos (serão dois até lá) incondicionalmente; vai se pegar imaginando como se seria se fossem seus (e toda vez que isso acontecer a única certeza que terá é do amor que é capaz de sentir).

Se meus conselhos puderem chegar até você, lembre-se principalmente deste: leve a vida com leveza: a simplicidade é a melhor coisa do mundo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

3 minutos

Dançam juntos. Fazia tempo, ela queria aquela dança. Tocam-se. Olhares e sorrisos. Nenhuma palavra. O compasso pulsa em suas veias. Nenhuma palavra. Três minutos. Só três minutos. Tudo bem.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Engrenagem

meus olhos são idioma
meu sorriso, porta de entrada
meu corpo, manifestação.

meu choro diz a verdade
minhas mãos caminham desejos
meus pés desejam caminhos

meus lábios, guardiões indecisos
de um céu imenso infinito
vomitam engolindo versos

meu peito, engrenagem
defeituosa. gira para
volta a girar

A todos não sei quem governa
apartidário que é
meu coração.