terça-feira, 23 de agosto de 2016

Engrenagem

meus olhos são idioma
meu sorriso, porta de entrada
meu corpo, manifestação.

meu choro diz a verdade
minhas mãos caminham desejos
meus pés desejam caminhos

meus lábios, guardiões indecisos
de um céu imenso infinito
vomitam engolindo versos

meu peito, engrenagem
defeituosa. gira para
volta a girar

A todos não sei quem governa
apartidário que é
meu coração.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Tarde demais

Para ler ouvindo: Game for fools | Jamie Lidell

Mandou o texto. Seu coração palpitava como se estivesse se preparando para o primeiro encontro entre eles, embora isso já tivesse acontecido. Não imaginou que ele quisesse ler algum conto seu.

Já tinham conversado sobre sonhos, certa noite, naquele quarto pequeno, bagunçado e cheio de estrelas. Confessou, entre lençóis, risos e beijos, que queria ser escritora. Com a voz um pouco baixa e reticente, como se a palavra escritora fosse preciosa demais para ser dita assim, sem cuidado. Ele passou as mãos em seu cabelo e disse que não sabia que sonho tinha. Que ia vivendo um dia de cada vez, sem prospectar o futuro. Se entrelaçaram e esqueceram o assunto.

E agora, depois de uma conversa despretensiosa sobre um conto que escrevera pra aula de Literatura, o pedido mais íntimo que ele podia fazer a ela. Gostaria de ler. Seus olhos brilharam. Tem certeza? quer dizer... Eu ainda tô aprendendo. Ele riu da timidez dela. Me manda, prometo não pegar pesado nas críticas.

Foi a primeira coisa que fez ao chegar em casa. Sentou em frente ao computador e escreveu o email. Um pouco trêmula de nervosismo e felicidade. Como prometido, vai o texto que levei pra aula ontem. Lembrando que a aula é de Literatura Infantil, então... Não queria mostrar insegurança, embora as reticências ao final lhe traíssem um pouco.

A falta de resposta a fez imaginar que ele falaria sobre o conto quando se encontrassem novamente. Expectativa que foi logo derrubada depois de se verem algumas vezes e ele não comentar nada. Será que não gostou?

Tentou não se importar com o silêncio, mas depois de um tempo, deitados naquele quarto que tanto amava, ela perguntou, entre um assunto e outro, pra não parecer cobrança (ou mágoa), eu te mandei aquele conto que a gente conversou uma vez, lembra? Achou muito ruim? E riu, pra parecer que não se importava tanto assim. Ah, sim. Acabei não lendo.  Quando conseguir te falo. Mudaram de assunto e ela se esforçou pra não parecer chateada.

Não tocaram mais no assunto.

Ele nunca leu o conto.

Em seu último encontro, aquele em que cumpririam as meras formalidades para um término decente, uma água e um café pra dizer me apaixonei por você e ouvir não quero me envolver nem te magoar. Podemos ser amigos, ele lembrou do conto. Pensei em ler hoje, mas...

É tarde demais, ela completou.

****
Don`t you wait until it's too late
Until something inside has died...





sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Para ler ouvindo: Love is a losing game | Amy Winehouse

O caminho é inverso. A salvação - será que existe? -, não consigo enxergá-la. Seria bom que houvesse. Será que existe?
O caminho é inverso. Doloroso também. A paisagem não é bonita, embora haja flores.
Eu quero fugir. Não adianta fugir.
Nem questionar.

Só você se tem.
Só você.
Só.

***
Self professed, profound
Till the chips were down
know you're a gambling man
Love is a losing hand




terça-feira, 12 de julho de 2016

quinta-feira, 23 de junho de 2016

respira

   calma
   fecha os olhos
inspira

desacelera
       expira
acalma

   respira
        respira
respira

chora
não tem problema
ora

deixa ir
deixa ser
deixa

calma, menina
calma

   acalma
acalma
   acalma
a alma...

domingo, 19 de junho de 2016

Vende-se amor

O dever de casa daquele primeiro dia de aula tinha sido claro: escreva sobre algum livro que tenha lido durante as férias. A empolgação inicial logo deu lugar à preocupação. O livro que tinha lido havia me embaralhado um pouco e deixou três perguntas em ciranda dentro de mim.
Também, foi a primeira leitura que fiz por mim mesma, quer dizer, ninguém me deu aquele livro. Ele estava lá, entre os volumes que a mãe recebia de doação pra biblioteca da rua. Ela sempre me deixava pegar um ou outro, mas dessa vez não me ajudou a escolher. Então, peguei esse. Estava bem escondido, embaixo de um livro grosso com uma baleia na capa. Me chamou atenção a ponta azul que escapava ao peso da baleia.
Puxei o livro e me apaixonei pelo desenho da capa e pelo nome do autor na mesma hora. Gabriel seria o nome do meu filho um dia.
Animada, comecei a leitura de imediato, mas as dúvidas logo começaram a dançar estranho aqui dentro. Escorregavam de fininho da cabeça até o peito. Mas fui até fim. Depois, deixei o livro lá, na cabeceira da cama, como que esperando o dia pra trazer as perguntas de volta.
Encorajada pela tarefa da escola, catei o livro e sai em busca de um adulto que pudesse me explicar. Meu pai, sempre muito ocupado, pediu que eu perguntasse à minha mãe, que disse que meu pai explicaria melhor.  Recorri então à pessoa mais legal da família: a avó.
Ao pegar o livro, ela apertou os olhos e falou:
- Desenho bonito esse da capa, parece até eue deu uma gargalhada pra lá de bonita. Tinha jeito de sino, sabe?Mas esqueceu? Vovó não sabe ler. Lê pra mim, vamos.
 Orgulhosa, entonei a voz e comecei.   Entre uma frase e outra, olhava escondido pra ela só pra ver a reação. Parecia bem concentrada em cada palavra que eu dizia. Continuei.
A vó ria em algumas partes e em outras ficava com o rosto engraçado, bem franzido. Teve até uma hora que ela interrompeu assustada:
- Tem certeza que esse livro é pra criança?
- Ué, vó, tem uns desenhos bem bonitos aqui, olha – mostrei uma ilustração. - Não é linda?
 Vovó examinou o livro.
- Continue, continue. Antes que seus pais interrompam.
Em alguns minutos terminei e já fui emendando as três perguntas.
- Calma, menina. Deixa a vó colocar as ideias no lugar.
Ela respirou fundo e demorou mais uns bons minutos pra responder. Fui ficando impaciente e achei logo que ela não tinha entendido, como eu.
Finalmente olhou pra mim.
- Pergunta.
- Não entendi qual é a profissão dela. O que é puta?
Vovó suspirou.
- María dos Prazeres é prostituta.
- O que é isso?
- É uma moça que ganha dinheiro dando amor aos homens.
- Tipo como a mamãe dá pro papai?
Não entendi porque ela riu, mas foi logo se explicando:
- Não. Sua mãe não ganha dinheiro pra amar seu pai. María dos Prazeres vende amor.
- Eita, vó. Nem sabia que a gente podia vender isso. Mas até que é bonito. Qualquer um pode vender, pode ficar rico assim?
- Qualquer um pode vender, mas é difícil ficar rico. Quem vende amor é quem menos recebe.
- Então como é que tem pra vender? Da onde que a María dos Prazeres tira esse amor?
- Tem gente que nasce pra se doar, que consegue ser feliz, mesmo quando tudo vai contra. María é dessas pessoas.
- Hum... tá bom. Ainda tenho duas perguntas.
- Diga.
- Por que ela tem essa coisa de ficar esperando a morte, de querer comprar uma tumba? Lá na escola, a irmã da aula de religião vive repetindo que a vida é nosso maior presente. Ela não tinha que querer viver pra sempre?
- Ah, meu amor, María dos Prazeres é como a vovó, muito, muito velha. A vida já valeu a pena. Chega uma hora que a morte vira só mais uma fase.
- Pra todo mundo?
- Pra todo mundo que entende que a vida também é só uma fase.
- Você  tá esperando a morte, vovó? – fiquei meio assustada com aquele papo.
Ela sorriu.
- Não precisa se preocupar. Não vou embora tão cedo.
- Ah bom, porque eu ainda tenho uma última pergunta. Quem é esse homem no final? Ele é mais um comprador?
Ela abriu a boca umas três vezes e desistiu. Coçou a cabeça, abriu a boca mais uma vez e não disse nada. Por fim, olhou pra mim:
- O que você acha?
- Eu acho que é mais um comprador, mas acho que ele quer ser o último, sabe? Tipo levar a María pra viver com ele, fazer umas viagens, conhecer, sei lá, a Disney.
- Então acho que ele pode ser isso, se você acha que ele é.
- Mas e você? Acha o quê?
- É... eu também acho que ele quer ser o último comprador.
Sorri satisfeita.
- Obrigada, vó. Acho que agora já posso escrever a redação pra escola.
 - Maravi... Espera, pra escola? Bem, nesse caso, acho melhor você usar o nome que a vovó te falou pra profissão da María: prostituta. Essa palavra aí do livro é... digamos... é meio desconhecida, a professora pode não entender.
- Tá bom! Acho que vai ser o título.
Não ouvi o que ela gritou enquanto corria pra escrever a redação.
No dia seguinte, fui a terceira aluna a me apresentar para a turma. Estava bastante ansiosa e meu coração deu um solavanco quando a professora disse meu nome.  Andei até a frente da sala, com o papel nas mãos e comecei:
A vendedora de amor
Ela estava embaixo da baleia, doida pra vender mais um pouco de carinho...

N.A.: O texto faz referência ao livro María dos Prazeres, de Gabriel García Márquez.

***
Vencedor do concurso Leia Comigo 2016 (Fnlij)

terça-feira, 14 de junho de 2016

Brasis

Severino tem oito anos, é alto que nem um varapau e magro que nem uma minhoca. Tem a pele escurecida, assim, queimada de sol e seus pés estão sempre descalços e pretos. Suas roupas, esfarrapadas, vivem sujas da poeira que sobe do chão de terra.
Tadinho do menino. Mora num lugar tão feio, mas tão feio, que as pessoas vivem de cara triste, sabe? E a fome... é um tal de barriga roncando.

Mas o que deixa Severino triste mesmo, sem vontade de brincar com os outros meninos dali, é quando tem sede.

Sua mãe vive dizendo que quando ele nasceu, choveu por três dias seguidos naquele pedaço do sertão. Ela disse pro marido “Esse cabrinha truxe sorte pra nós, Chico. Acho que inté a gente consegue descer pro Sul. Meu padim ciço, olha quanta água, olha quanta água!”.

Mas Severino só viu água de verdade uma vez na vida. Quando choveu um dia inteirinho, lá quando ele tinha seis anos. Lembrava até hoje da festa que foi. Todo mundo pulando no meio daquele aguaceiro, sua mãe juntando um monte de balde e seu pai, com um cigarro já apagado pendurado na boca, os olhos fechados virados pro céu e os braços abertos, sentindo cada gotinha no seu corpo. Só de farra, Severino resolveu imitar. Abriu os braços curtos e pôde sentir os pingos gelados molhando seu corpo mirrado, cheio de fome e felicidade.

Depois disso, nunca mais.

Perto da casa de barro onde mora, tem um lago...não, tem uma poça de uma água suja de barro, feia, marrom. Essa que eles usam pra tomar banho e fazer um grude quando tem farinha pra comer.
Pro Severino, aquela era toda água do mundo.


Mainha, por que Deus fez tão pouquinha água se a gente vive cum sede?

A mãe de Severino ficou um tempão olhando pra frente, pra aquela paisagem de terra seca, rachada, feiosa... Então entrou em casa, sem explicar pro Severino porque Deus tinha feito aquilo.

Ela não entendia também.

****

João saiu correndo que nem um foguete. Era sempre assim quando chegava na praia. Seus pais mal estacionavam o carro e, pronto, ele abria a porta e saia correndo. Sua casa era o sol. Sua vida era o mar.

Bem nutrido, espevitado e saudável, só se sentia completamente feliz quando chegava naquele mundão de areia e água. Mais até do que quando seu pai o levava pra assistir o Flamengo jogar no Maracanã.

Que beleza de vida! O menino nascera na Zona Sul do Rio de Janeiro, um lugar que desde pequeno ouvia seus pais chamarem de Cidade Maravilhosa. E como não? Pra onde João olhava, lá estava ele: o mar.

Quando nasceu, sua mãe gosta de contar, o dia estava azulzinho, sem uma nuvem no céu. Um verdadeiro paraíso tropical.

- Eu disse pro teu pai: esse menino vai ser surfixta. Que leite que nada, vai mamar é água de coco!

E assim, a água parecia seu habitat natural. Demorava horas no chuveiro ou na banheira e da piscina que tinha na casa da avó, só saia quando seus pais o obrigavam.

Mas nada, nada, se comparava ao mar!

Jogado dentro daquele marzão, levando caixote ou brincando de dar cambalhotas submarinas, sentiu sua mãe se aproximar e levantá-lo com facilidade pro alto.

O menino encheu o ar de riso e felicidade.

Pro João, o mundo era só água.

- Quanta água, né, mãe? Parece que só termina lá longe, onde o céu começa!

Sua mãe olhou para aquela imensidão azul e sorriu.

- Parece sim, meu amor. Parece mesmo!

(Original de janeiro de 2013)